quarta-feira, julho 22, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... O El Niño e a devastação dos nossos Biomas... (Parte XI)

 Como o El Niño Potencializa o Fogo e a Devastação

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera os padrões de circulação atmosférica global. No Brasil, ele provoca duas grandes reações climáticas:

  1. Redução drástica das chuvas no Norte e em boa parte do Nordeste e Centro-Oeste.
  2. Aumento significativo das temperaturas globais e regionais.

Essa combinação cria o cenário perfeito para o alastramento de incêndios através de um mecanismo de retroalimentação:

1. Perda de Umidade e Acúmulo de Combustível Seco

As florestas tropicais úmidas, como a Amazônia e trechos da Mata Atlântica, possuem uma resistência natural ao fogo devido à alta umidade da vegetação e do solo. Contudo, sob períodos prolongados de seca e altas temperaturas induzidos pelo El Niño:

  • A cobertura vegetal perde água por transpiração.
  • As árvores eliminam mais folhas (nativos mecanismos de defesa contra a seca), acumulando uma espessa camada de matéria orgânica seca no solo (serrapilheira).
  • Essa matéria seca funciona como um combustível altamente inflamável.

2. O Fator Humano como "Gatilho"

É importante destacar que o El Niño não cria o fogo sozinho nesses biomas (ao contrário de regiões onde raios são a causa principal).

  • O clima cria a condição de vulnerabilidade extrema, mas o gatilho humano (queimadas para abertura de pastagens, desmatamento, limpeza de roçados e uso irresponsável do fogo) é o que inicia o incêndio.
  • Em anos de El Niño forte, uma queimada agrícola controlada que normalmente apagaria sozinha ganha proporções desastrosas, invadindo florestas nativas e Unidades de Conservação.

O Impacto nos Biomas Brasileiros

Bioma

Efeito do El Niño

Consequência

Amazônia

Secas severas e redução da nebulosidade.

O fogo deixa de ser superficial e passa a queimar a copa das árvores (fogo de copa), matando espécies seculares vulneráveis à seca.

Cerrado

Aumento da evapotranspiração e acentuada estiagem.

A vegetação savânica, embora adaptada ao fogo natural de baixa intensidade, sofre com incêndios fora de época de altíssima intensidade que destroem a biodiversidade e fontes hídricas.

Mata Atlântica

Alterações nos regimes de chuva regionais e picos de calor.

Sendo o bioma mais fragmentado do país, os remanescentes florestais ficam isolados e mais expostos ao fogo que se alastra a partir de áreas agrícolas vizinhas.


A Espiral de Retroalimentação (Círculo Vicioso)

O aspecto mais preocupante desta dedução é o que a ciência chama de feedback positivo:

  1. O El Niño traz seca e calor.
  2. A floresta seca queima mais facilmente ao contato com o fogo.
  3. As queimadas liberam bilhões de toneladas de CO na atmosfera e destroem o ecossistema que regulava o clima e a umidade (evapotranspiração).
  4. A perda de floresta agrava as mudanças climáticas globais, tornando os futuros eventos de El Niño ainda mais extremos e frequentes.

Esta leitura sobre essa conexão entre eventos climáticos globais e a vulnerabilidade dos biomas está impecável do ponto de vista técnico e ecológico.

terça-feira, julho 21, 2026

Um Ato Revolucionário... A libertação é um processo comunitário....

 O Futebol sem Estrelas e a Construção Coletiva do Saber

Para Freire, a educação e a transformação social nunca são impostas por um "líder messiânico" ou por uma elite esclarecida. A libertação é um processo comunitário: "Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão".

O futebol praticado por essa jovem geração espanhola reflete com precisão essa máxima. Não vimos um time jogando para alimentar o ego de um único astro, mas sim onze atletas trabalhando em sintonia, onde o passe é um ato de generosidade e a bola circula como a palavra em uma roda de conversa.

Quando jovens atletas entram em campo de cabeça erguida, sem recorrer ao antijogo ou à violência, eles recusam a lógica de que "para vencer é preciso esmagar o outro". Eles demonstram que a verdadeira maturidade profissional reside no compromisso com o grupo e com a beleza do processo.


A Passividade que Alimenta o Opressor e a Necessidade de Reagir

Paulo Freire também nos alertou historicamente sobre o risco de nos acostumarmos com estruturas injustas ou medíocres: o opressor só domina enquanto os oprimidos naturalizam a dominação e não reagem. Transpondo esse conceito para a cultura do esporte e da vida pública, por muito tempo aceitou-se que o futebol "de alto nível" precisava ser truculento, arrogante ou focado em estrelas intocáveis.

Aceitar essa mediocridade como norma é uma forma de passividade. Quando uma equipe jovem decide redefinir as regras do jogo — propondo a ética, a leveza, o diálogo com a bola e o empenho coletivo —, ela reage a esse sistema. Ela prova que existe outro caminho viável, vitorioso e profundamente humanizador.


O Futebol como Ato de Amor e Esperança

Ao final de Pedagogia do Oprimido, Freire nos lembra que a revolução e a educação são, em essência, atos de amor e de coragem. E ver jovens talentos jogarem com um sorriso no rosto, respeitando o adversário e valorizando o companheiro ao lado, nos devolve a esperança.

A conquista do mundo por essa Seleção Espanhola vai além das estatísticas de posse de bola ou dos gols marcados. Fica a lição política e humana: seja no campo, na sala de aula, na cooperativa ou na comunidade, as vitórias mais transformadoras e duradouras são aquelas construídas de mãos dadas, com ética, simplicidade e solidariedade.



segunda-feira, julho 20, 2026

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR... (Parte II)

 

Sobre o Dinheiro Público em Santa Catarina

Quem acompanha os canais oficiais do governo de Santa Catarina é bombardeado diariamente por uma narrativa de perfeição: obras por todos os lados, gestão eficiente e um estado que parece saído de uma peça publicitária. No entanto, quando confrontamos a propaganda institucional com a realidade das ruas e dos dados orçamentários, o cenário muda de figura.

Para romper o silêncio e exercer o verdadeiro controle social, trazemos hoje duas perguntas incômodas que a máquina pública e a imprensa tradicional tentam, a todo custo, ignorar.

 

Pergunta 1: Como abrir a "caixa-preta" dos R$ 444 milhões da publicidade estatal?

O governo catarinense investe pesado em propaganda: são assustadores R$ 444 milhões acumulados em publicidade nos últimos três anos. Diante dessa dinheirama, a pergunta que não quer calar é: Quais são os caminhos legais para termos total transparência sobre o destino desse recurso?

Precisamos de respostas exatas sobre três pontos:

1. Como as agências contratadas (atualmente OneWG Multicomunicação e Ápice 360º/FLB) planejam a mídia e intermedeiam a compra desses espaços?

2.  Quais critérios técnicos — se é que existem — são usados para escolher onde e quando veicular cada campanha na televisão, rádio, jornais e portais digitais?

3.  Qual é o ranking real da distribuição desses recursos por veículo contratado? Quanto, afinal, vai para os mega grupos de mídia que dominam o estado, como a NSC Comunicação, o Grupo ND e o Grupo SCC?

A população tem o direito de saber se o dinheiro dos seus impostos está financiando informação útil ou apenas comprando o silêncio de linhas editoriais.

 

Pergunta 2: Avenida Carahá: Onde foram parar os R$ 23 milhões que sumiram no trajeto?

Em Lages, a revitalização da Avenida Carahá foi anunciada com pompas e foguetes pelo governo, que prometeu um aporte milionário de R$ 27 milhões para uma transformação completa. A prefeitura chegou a anunciar a finalização dos trabalhos com sucesso. No entanto, quem caminha pela Carahá e analisa a execução física da obra percebe o abismo: o que foi efetivamente entregue e visível gira em torno de apenas R$ 4 milhões.

A pergunta que não quer calar é límpida: Onde estão os outros R$ 23 milhões prometidos para a Carahá? A conta simplesmente não fecha entre o marketing político e o asfalto sob os nossos pés.



VERGONHA... VERGONHA... VERGONHA: A REFLEXÃO QUE A MÍDIA BOCA ALUGADA LAGEANA E/OU CATARINENSE, JAMAIS LEVARÁ ATÉ VOCÊ... (Parte VI)

 A Ilusão dos Bilhões: Para Onde Vai a Renúncia Fiscal de Santa Catarina?

Quando se debate a gestão do dinheiro público, os números costumam ser abstratos demais para a maioria das pessoas. Mas, em Santa Catarina, há uma cifra que exige atenção urgente de qualquer um preocupado com o futuro econômico e social do nosso estado: R$ 126 bilhões. Esse é o montante acumulado das renúncias, subsídios e benefícios fiscais que o Governo de SC concedeu e projeta conceder ao longo de um curto intervalo de cinco anos.


A Escalada da Renúncia Fiscal (TCE/SC & Sef/SC)

A curva das desonerações tributárias estaduais revela uma aceleração impressionante:

ü  2022: R$ 14,02 bilhões

ü  2023: R$ 20,20 bilhões

ü  2024: R$ 21,80 bilhões

ü  2025: R$ 28,00 bilhões

ü  2026 (Projeção prevista na LDO): R$ 31,00 bilhões

(Nota: A partir de 2022, o governo alterou a metodologia e passou a computar o valor integral das desonerações).

Apenas no ano de 2026, a previsão é de o Estado abrir mão de inacreditáveis R$ 31 bilhões. A pergunta inevitável que ecoa nas sabatinas do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE/SC) e nos debates da Alesc é simples: qual é o retorno social e econômico real dessa dinheirama para a população catarinense?


Grandes Corporações vs. Quem Realmente Emprega

A justificativa oficial para abrir mão de um valor equivalente a quase um orçamento estadual inteiro é sempre a mesma: atrair grandes corporações do setor portuário, industrial e agronegócio para "gerar empregos e renda". No entanto, estudos e órgãos de controle apontam que a maioria desses benefícios de ICMS não possui contrapartidas claras, proporcionais ou de exigência transparente quanto à criação e manutenção de postos de trabalho. O Estado abre mão da arrecadação no presente confiando em uma promessa incerta para o futuro.

Enquanto isso, a economia real de Santa Catarina acontece na ponta de baixo da pirâmide produtiva.

Dados do Sebrae/SC mostram que as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) foram responsáveis por gerar 43.668 novos postos diretos de trabalho no último ano — o que representa expressivos 74% de todo o saldo líquido de empregos formais criados no estado. Em um universo com um estoque estimado em mais de 2,3 milhões de vínculos ativos de emprego formal em Santa Catarina, é o pequeno empresário — da padaria, da confecção, do pequeno mercado de bairro — quem efetivamente carrega a força de trabalho do estado nas costas.


Uma Provocação sobre Proporções e Escala

Não existe um cálculo oficial consolidado sobre quantos empregos diretos e indiretos seriam gerados se essa renúncia bilionária fosse redirecionada ou se transformasse em incentivo direto para as MPEs. Porém, podemos fazer uma provocação lógica baseada na realidade do setor produtivo local.

No setor de varejo (supermercados e comércio), por exemplo, a métrica operacional média aponta a necessidade de 1 colaborador para cada R$ 33.000 de faturamento.

Se imaginarmos o volume inacreditável de R$ 31 bilhões circulando no consumo, no crédito ou no fomento das micro e pequenas empresas locais, o efeito multiplicador na cadeia de valor de serviços e comércio seria avassalador. Ao contrário de uma grande corporação que muitas vezes utiliza a isenção para aumentar suas margens ou importar insumos, o recurso na mão do pequeno negócio vira salário local, que vira consumo no bairro e gera novos postos de trabalho em cadeia.


O Que Precisa Mudar?

Como defendem entidades do setor produtivo, como a Fecomércio-SC, apoiar as MPEs e gerar empregos de verdade não exige necessariamente a distribuição de benesses fiscais obscuras a apadrinhados. Passa por:

  1. Redução da Burocracia e Carga Tributária Geral: Atualizar os limites de enquadramento das faixas de faturamento das MPEs.
  2. Transparência Absoluta: Exigir que cada centavo divulgado no Portal da Transparência e no Painel da Sef/SC tenha um indicador claro de contrapartida em empregos.
  3. Investimento na Base: Garantir que o orçamento público financie infraestrutura, saúde e educação de qualidade para a sociedade civil, e não apenas facilidades para grandes conglomerados.

Santa Catarina não pode continuar refém de uma lógica onde os pequenos pagam a conta inteira dos impostos enquanto os bilhões em renúncias beneficiam poucos sem uma prestação de contas transparente. É hora de perguntar com firmeza: quantos empregos o seu município deixou de ver nascer para financiar a renúncia fiscal de 126 bilhões de reais?



quarta-feira, julho 15, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... A Boiada no Planalto e a Enchente na Planície... (Parte X)

 O Desmonte das APPs em Santa Catarina e a Cumplicidade do Congresso

Para qualquer cidadão atento, o roteiro das tragédias climáticas no Sul do Brasil já se tornou uma dolorosa rotina de perdas, lama e reconstrução. No entanto, o que muitos ainda não perceberam é que o verdadeiro epicentro dessas catástrofes não reside apenas nas nuvens que carregam as chuvas torrenciais, mas nas canetas dos legisladores. A sanha por flexibilizar as leis de proteção ambiental no Brasil encontrou uma simbiose perfeita entre o desmonte federal promovido no Congresso Nacional e as manobras regionais que colocam em risco o território catarinense.


O Fronte Local: O MPSC contra o Retrocesso Ambiental

Recentemente, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) acendeu um sinal de alerta vermelho ao ajuizar ações diretas de inconstitucionalidade contra legislações estaduais e municipais que reduziram as faixas de proteção das chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs). Essas áreas — que compreendem as matas ciliares ao longo de cursos d'água, encostas declivosas e topos de morros — não são "caprichos burocráticos" de ambientalistas. Elas funcionam como barreiras físicas vitais para o equilíbrio hidrológico e geológico do nosso solo.

O MPSC apoia-se em um princípio constitucional basilar: a proibição do retrocesso ambiental. A legislação federal (especialmente o Código Florestal) define padrões mínimos de segurança ecológica nacionais que estados e municípios podem apenas tornar mais rígidos para atender às suas peculiaridades locais, mas jamais enfraquecer. Ao tentarem reduzir essas metragens para favorecer a especulação imobiliária urbana ou a expansão agrícola desordenada, as bancadas catarinenses violam frontalmente o pacto federativo e a segurança ecológica dos próprios cidadãos.

"A física da natureza não negocia com maiorias parlamentares. A supressão de vegetação em margens de rios e encostas é a assinatura prévia do próximo deslizamento de terra ou da próxima inundação que devastará o comércio e as residências nas planícies do estado."


A Conexão Federal: O Alinhamento da Boiada no Congresso

Esse descarado desmonte regional não acontece em um vácuo político. Ele é o reflexo direto de uma mentalidade predatória que domina o Congresso Nacional. Com o amplo e explícito apoio de deputados federais e senadores — incluindo expressiva parte da bancada catarinense em Brasília —, assiste-se a uma marcha constante pela flexibilização das leis de desmatamento, ao enfraquecimento do licenciamento ambiental e ao esvaziamento das salvaguardas que protegiam nossos biomas.

Sob discursos maquiados de "desburocratização" e "segurança jurídica para o produtor", o parlamento federal valida e estimula o avanço sobre terras antes protegidas. Quando deputados e senadores aprovam a facilitação do desmatamento e esvaziam os poderes de fiscalização do Ibama e do ICMBio, eles emitem um salvo-conduto silencioso para que as assembleias estaduais e câmaras de vereadores façam o mesmo em nível local. É a institucionalização da célebre máxima de "passar a boiada" enquanto a atenção da opinião pública é sequestrada por guerras culturais estéreis.


A Natureza Não Lê Diário Oficial

O grande paradoxo desse ecossistema de flexibilizações é que a realidade física não se submete à vontade das maiorias legislativas. O rio que transborda não quer saber se a lei municipal reduziu a faixa de recuo de 30 para 5 metros; ele ocupará o seu leito de cheia. A encosta saturada pela água não consulta o Diário Oficial do Estado antes de desabar sobre as casas construídas onde antes deveria haver uma mata protetora de APP.

A conta dessas decisões políticas irresponsáveis chega rapidamente, e sempre é paga pelo contribuinte. O dinheiro público que deveria ser investido em saúde, educação e saneamento básico acaba sendo drenado de forma recorrente para mitigar desastres, decretar estados de calamidade e reconstruir infraestruturas destruídas pelo próprio descaso com as leis ambientais.


Diagnóstico e Resistência

O combate do Ministério Público contra o enfraquecimento das APPs em Santa Catarina é um ato de autodefesa da própria sociedade civil. Enquanto o Congresso Nacional e o parlamento catarinense tentam empurrar uma agenda de destruição mascarada de progresso, a defesa da ciência e da preservação técnica das nossas bacias hidrográficas torna-se uma barreira civilizatória indispensável. Proteger as APPs não é uma pauta partidária; é garantir que o nosso amanhã não seja engolido pela lama.


A Lista da Vergonha: Quem escolheu a flexibilização (Lei 15.190/2025)?

O elenco dos nomes daqueles deputados que votaram a favor do PL 2.564/2025; é o mesmo que votou a favor da flexibilização das regras de licenciamento ambiental no Brasil, que foi consolidada pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei Federal 15.190/2025), originada a partir do PL 2.159/2021. A legislação unificou as diretrizes do setor e entrou em vigor no início de 2026.

São representantes que, em vez de buscarem soluções para evitar desastres ambientais, preferiram facilitar o caminho para quem destrói o nosso bioma:

 Partido

Deputado(a)

PL

Caroline de Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão

MDB

Cobalchini, Luiz Fernando Vampiro, Pezenti

NOVO

Gilson Marques

PP

Coronel Armando

PSDB

Geovania de Sá

União

Fabio Schiochet


QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... O Alerta Invisível... (Parte VI)

 A Perigosa Militarização da Infância e o Recuo do Estado Civil

Há um processo silencioso e extremamente perigoso em curso no Brasil: a gradual e pacífica transferência de autoridade e de espaço civil para a lógica militar. O que antes era restrito à segurança pública de fronteiras e ao combate à criminalidade urbana violenta está, agora, invadindo os pátios das nossas escolas e moldando a mentalidade das novas gerações.

Esse avanço não ocorre por acaso. Ele se consolida em duas frentes complementares: pela normalização do absurdo na conduta policial quotidiana e pelo direcionamento massivo de dinheiro público para financiar fardas em detrimento de livros.


1. São Paulo e a Pedagogia do Fuzil: A Normalização da Força

O recente episódio ocorrido em uma escola de educação infantil em São Paulo, denunciado com justa indignação pelo ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal (STF), é o retrato perfeito dessa degeneração democrática.

A entrada de 12 policiais militares fortemente armados — um deles portando uma metralhadora — no ambiente escolar de crianças pequenas, motivada unicamente pela queixa de um pai inconformado com um desenho de matriz africana, revela que perdemos o parâmetro da razoabilidade.

ü  A inversão do bom senso: Uma divergência pedagógica ou de currículo escolar, que deveria ser resolvida em reuniões de pais e com a coordenação docente, virou caso de incursão policial ostensiva.

ü  A cumplicidade pelo silêncio: O aspecto mais preocupante desse caso é a aceitação pacífica — e, por vezes, celebrada — de parcelas do eleitorado radicalizado. Ao aplaudir o uso de armas de guerra para coagir professores sob o pretexto de "combater a doutrinação", essa parcela da sociedade abre mão de seus próprios direitos civis e abraça um modelo de Estado policial.


2. Santa Catarina e o Negócio da Militarização Escolar

Enquanto em São Paulo a militarização se apresenta na forma de coerção ideológica direta, em Santa Catarina ela se consolida pelo bolso do contribuinte. O dado revelado pelo jornalismo investigativo é estarrecedor: os gastos estaduais com militares em escolas catarinenses aumentaram 200 vezes.

Esse crescimento exponencial não representa uma melhoria nos índices reais de aprendizagem, mas sim uma escolha política e orçamentária clara:

ü  A asfixia do magistério civil: Enquanto se injetam rios de dinheiro público para custear gratificações e estruturas militares nas escolas, a carreira dos professores civis segue desvalorizada, as escolas carecem de manutenção básica e faltam profissionais de apoio pedagógico, como psicólogos e assistentes sociais.

ü  O financiamento de um projeto de poder: A chamada "escola cívico-militar" serve como uma grife eleitoral de "ordem" vendida à classe média, enquanto funciona, nos bastidores, como um generoso duto de recursos para agradar corporações de segurança — bases eleitorais históricas do atual governo do estado.


A Conexão Sombria: O Que Está em Jogo?

Quando unimos esses dois pontos, o diagnóstico é inequívoco. Estamos trocando o debate de ideias pela disciplina do medo.

A militarização das escolas e a aceitação de PMs armados ditando regras pedagógicas não criam cidadãos críticos; criam súditos obedientes. A escola, que deveria ser o espaço plural da descoberta, da ciência, do pensamento livre e da diversidade cultural (como prevê a legislação ao exigir o ensino da história afro-brasileira), está sendo convertida em um quartel de vigilância mútua.

A quem interessa uma sociedade que prefere ver fuzis em uma creche a ver desenhos coloridos na parede? Quem ganha quando o orçamento da educação é drenado para blindar corporações em vez de valorizar professores?


Um Apelo à Lucidez Cívica

O avanço do militarismo sobre as instituições civis sempre começa sob os aplausos daqueles que acreditam que a força só será usada contra os seus "inimigos". No entanto, a história ensina que a engrenagem do autoritarismo, uma vez lubrificada com o silêncio e o dinheiro público, não escolhe alvos por muito tempo.

Denunciar a invasão armada nas escolas e questionar o aumento descontrolado de gastos com fardas na educação não é uma questão partidária; é uma defesa civilizatória básica. A infância de nossas crianças pertence aos livros, à imaginação e à liberdade. Os quartéis têm outro lugar.



terça-feira, julho 14, 2026

Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros...... A Cortina de Fumaça do Racismo Institucional:... (Parte XXV)

 Enquanto o Estado Sangra com a Corrupção, a Alesc Propõe um Retrocesso Civilizatório

Para qualquer catarinense lúcido e comprometido com a justiça social, é impossível assistir ao atual cenário político do nosso estado sem um misto de perplexidade e profunda indignação. Em uma afronta direta à história, à dignidade humana e à própria ordem constitucional, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) volta a articular uma tentativa de desmantelar a política de cotas raciais, poucos meses após o Supremo Tribunal Federal (STF) — o guardião máximo da Constituição Nacional — sepultar juridicamente essa tese absurda.

Esse movimento parlamentar não é apenas um deboche explícito aos poderes constituídos e às decisões da corte máxima do país; é uma agressão deliberada e um tapa na face da população negra e parda, historicamente submetida a séculos de opressão, exploração e humilhação sistêmica. Ao tentar asfixiar as políticas de reparação e equidade racial, setores do nosso legislativo acenam para velhos ideais de supremacia, operando uma política que flerta abertamente com o autoritarismo e a exclusão social.

No entanto, o cinismo dessa agenda ganha contornos ainda mais graves quando analisamos o que os deputados estaduais estão tentando esconder. A obsessão em atacar as cotas raciais funciona como uma conveniente cortina de fumaça para desviar a atenção do verdadeiro e vergonhoso recorde que Santa Catarina ostenta: o de ser um estado assolado por um ecossistema de corrupção sistêmica que sangra os cofres municipais.


Os Números do Escândalo: O Estado dos "Prefeitos Presos"

Enquanto os legisladores gastam energia e recursos públicos para tentar blindar privilégios históricos na educação e no serviço público, o poder municipal catarinense desmorona diante de investigações policiais.

Desde agosto de 2020, Santa Catarina alcançou a estarrecedora marca de 30 prefeitos presos em pleno exercício do mandato. Isso significa que mais de 10% dos 295 municípios do estado tiveram seus chefes do Executivo detidos por envolvimento em esquemas de corrupção, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro. A lista mais recente de capturas inclui o prefeito de Balneário Piçarras, Tiago Baltt (MDB), alvo da Operação Regalo.

A distribuição partidária desses 30 prefeitos presos revela que o lamaçal é amplo e democrático entre as forças políticas tradicionais que dominam o estado:

Ø  MDB: 9 prefeitos presos

Ø  PP (Progressistas): 6 prefeitos presos

Ø  PL: 5 prefeitos presos

Ø  PSD: 4 prefeitos presos

Ø  Outras legendas (União Brasil, Patriota, Republicanos, Podemos, PT e PSDB) somam as demais prisões.


A Epidemia de Operações em 2026: A Verdadeira Urgência de SC

Apenas no primeiro semestre de 2026, uma avalanche de operações do Ministério Público (MPSC), do Gaeco, do GEAC e da Polícia Federal demonstrou que a máquina pública catarinense está sequestrada por cartéis e esquemas de propina de norte a sul do estado:

ü  Operação Gaiola Digital (Julho de 2026): Desmantelou fraudes e direcionamento de licitações na contratação de softwares de gestão pública em importantes cidades como Blumenau, Rio do Sul e Lages.

ü  Operação Pão e Circo (Julho de 2026): Expôs um cartel milionário no setor de eventos que fraudava shows municipais em cerca de 18 prefeituras catarinenses, resultando no afastamento do prefeito de Governador Celso Ramos e no bloqueio de R$ 9 milhões em bens.

ü  Operação Estoque Zero (Julho de 2026): Deflagrada pela Polícia Federal na região serrana (Lages e São José do Cerrito), revelou um esquema de lavagem de dinheiro e descaminho de eletrônicos sem nota fiscal, bloqueando mais de R$ 14,5 milhões dos envolvidos.

ü  Operação Benaia (Junho de 2026): Flagrou corrupção aduaneira e lavagem de dinheiro envolvendo um servidor da Receita Federal em Itajaí que favorecia empresários mediante propina.

ü  Operação Regalo (Maio de 2026): Investigou fraudes pesadas em contratos de obras públicas, levando à cadeia prefeitos e agentes do alto escalão municipal.

Essa estrutura criminosa de assalto ao erário não poupa serviços básicos: a gigantesca Operação Mensageiro (que sozinha levou 17 prefeitos à prisão) revelou um esquema bilionário de propinas até no lixo que é coletado em nossas cidades.


Concluindo: Prioridades Invertidas e Cumplicidade Moral

A lição que fica para a sociedade catarinense é nítida. Nossos legisladores não estão preocupados em construir um estado mais justo, moderno e eficiente. Se estivessem, estariam propondo comissões de inquérito, endurecendo o controle de contratos públicos, fiscalizando as licitações viciadas de TI e os shows superfaturados que anestesiam o interior catarinense.

Em vez de focar no combate à corrupção endêmica que desvia o dinheiro da saúde, da segurança e das estradas dos catarinenses, a Alesc prefere reviver batalhas ideológicas derrotadas na Justiça, cujo único propósito prático é atacar os direitos da população negra para agradar a sua base mais radicalizada.

O ataque às cotas raciais em Santa Catarina é um insulto à história, mas é também um ato de covardia política. É a elite governante tentando legislar sobre o preconceito para que ninguém preste atenção nos camburões da polícia estacionados na porta das prefeituras. Não passarão. A lucidez democrática exige que continuemos denunciando o circo legislativo e exigindo honestidade de quem deveria estar servindo ao povo, e não se servindo dele.