quarta-feira, julho 15, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... A Boiada no Planalto e a Enchente na Planície... (Parte X)

 O Desmonte das APPs em Santa Catarina e a Cumplicidade do Congresso

Para qualquer cidadão atento, o roteiro das tragédias climáticas no Sul do Brasil já se tornou uma dolorosa rotina de perdas, lama e reconstrução. No entanto, o que muitos ainda não perceberam é que o verdadeiro epicentro dessas catástrofes não reside apenas nas nuvens que carregam as chuvas torrenciais, mas nas canetas dos legisladores. A sanha por flexibilizar as leis de proteção ambiental no Brasil encontrou uma simbiose perfeita entre o desmonte federal promovido no Congresso Nacional e as manobras regionais que colocam em risco o território catarinense.


O Fronte Local: O MPSC contra o Retrocesso Ambiental

Recentemente, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) acendeu um sinal de alerta vermelho ao ajuizar ações diretas de inconstitucionalidade contra legislações estaduais e municipais que reduziram as faixas de proteção das chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs). Essas áreas — que compreendem as matas ciliares ao longo de cursos d'água, encostas declivosas e topos de morros — não são "caprichos burocráticos" de ambientalistas. Elas funcionam como barreiras físicas vitais para o equilíbrio hidrológico e geológico do nosso solo.

O MPSC apoia-se em um princípio constitucional basilar: a proibição do retrocesso ambiental. A legislação federal (especialmente o Código Florestal) define padrões mínimos de segurança ecológica nacionais que estados e municípios podem apenas tornar mais rígidos para atender às suas peculiaridades locais, mas jamais enfraquecer. Ao tentarem reduzir essas metragens para favorecer a especulação imobiliária urbana ou a expansão agrícola desordenada, as bancadas catarinenses violam frontalmente o pacto federativo e a segurança ecológica dos próprios cidadãos.

"A física da natureza não negocia com maiorias parlamentares. A supressão de vegetação em margens de rios e encostas é a assinatura prévia do próximo deslizamento de terra ou da próxima inundação que devastará o comércio e as residências nas planícies do estado."


A Conexão Federal: O Alinhamento da Boiada no Congresso

Esse descarado desmonte regional não acontece em um vácuo político. Ele é o reflexo direto de uma mentalidade predatória que domina o Congresso Nacional. Com o amplo e explícito apoio de deputados federais e senadores — incluindo expressiva parte da bancada catarinense em Brasília —, assiste-se a uma marcha constante pela flexibilização das leis de desmatamento, ao enfraquecimento do licenciamento ambiental e ao esvaziamento das salvaguardas que protegiam nossos biomas.

Sob discursos maquiados de "desburocratização" e "segurança jurídica para o produtor", o parlamento federal valida e estimula o avanço sobre terras antes protegidas. Quando deputados e senadores aprovam a facilitação do desmatamento e esvaziam os poderes de fiscalização do Ibama e do ICMBio, eles emitem um salvo-conduto silencioso para que as assembleias estaduais e câmaras de vereadores façam o mesmo em nível local. É a institucionalização da célebre máxima de "passar a boiada" enquanto a atenção da opinião pública é sequestrada por guerras culturais estéreis.


A Natureza Não Lê Diário Oficial

O grande paradoxo desse ecossistema de flexibilizações é que a realidade física não se submete à vontade das maiorias legislativas. O rio que transborda não quer saber se a lei municipal reduziu a faixa de recuo de 30 para 5 metros; ele ocupará o seu leito de cheia. A encosta saturada pela água não consulta o Diário Oficial do Estado antes de desabar sobre as casas construídas onde antes deveria haver uma mata protetora de APP.

A conta dessas decisões políticas irresponsáveis chega rapidamente, e sempre é paga pelo contribuinte. O dinheiro público que deveria ser investido em saúde, educação e saneamento básico acaba sendo drenado de forma recorrente para mitigar desastres, decretar estados de calamidade e reconstruir infraestruturas destruídas pelo próprio descaso com as leis ambientais.


Diagnóstico e Resistência

O combate do Ministério Público contra o enfraquecimento das APPs em Santa Catarina é um ato de autodefesa da própria sociedade civil. Enquanto o Congresso Nacional e o parlamento catarinense tentam empurrar uma agenda de destruição mascarada de progresso, a defesa da ciência e da preservação técnica das nossas bacias hidrográficas torna-se uma barreira civilizatória indispensável. Proteger as APPs não é uma pauta partidária; é garantir que o nosso amanhã não seja engolido pela lama.


A Lista da Vergonha: Quem escolheu a flexibilização (Lei 15.190/2025)?

O elenco dos nomes daqueles deputados que votaram a favor do PL 2.564/2025; é o mesmo que votou a favor da flexibilização das regras de licenciamento ambiental no Brasil, que foi consolidada pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei Federal 15.190/2025), originada a partir do PL 2.159/2021. A legislação unificou as diretrizes do setor e entrou em vigor no início de 2026.

São representantes que, em vez de buscarem soluções para evitar desastres ambientais, preferiram facilitar o caminho para quem destrói o nosso bioma:

 Partido

Deputado(a)

PL

Caroline de Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão

MDB

Cobalchini, Luiz Fernando Vampiro, Pezenti

NOVO

Gilson Marques

PP

Coronel Armando

PSDB

Geovania de Sá

União

Fabio Schiochet


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