Como o Teatro Político Corrói a Democracia em Santa Catarina
Para
os cidadãos lúcidos — aqueles que se recusam a deixar o discernimento ser
contaminado pelas paixões cegas e pelo ódio —, o cenário político atual em
Santa Catarina tem emitido sinais profundamente alarmantes. O que testemunhamos
de forma recorrente em diversas esferas públicas do nosso estado não é o livre
exercício do debate democrático, mas sim um desvio crônico do propósito
fundamental do serviço público.
Esse
fenômeno nos remete diretamente ao clássico Breviário dos Políticos, obra atribuída ao Cardeal
Mazarino no século XVII, que mapeia com precisão cirúrgica a bajulação e a
subserviência como táticas de autopreservação, manutenção de privilégios e
blindagem corporativista. No entanto, para além do mero ridículo institucional,
é preciso dar o nome correto a essa engrenagem. Trata-se de corrupção.
Para
além da corrupção "clássica" — aquela que envolve o desvio direto de
dinheiro público e o pagamento de propinas —, existe uma variante mais sutil,
invisível aos portões dos tribunais de contas, mas igualmente corrosiva para o
tecido republicano. Abaixo, anatomizamos os quatro eixos dessa degradação
institucional:
1. Corrupção Moral e do Caráter Político
Esta
é a camada mais evidente da crise de representatividade. Ela deforma o próprio
sentido e a dignidade do mandato outorgado pelo voto popular.
ü O
Abandono do Mandato:
O parlamentar municipal é eleito e pago para legislar sobre a realidade local e
fiscalizar o Executivo em prol de sua comunidade. Quando vereadores utilizam a
tribuna, o tempo regimental e a estrutura da Casa para aprovar moções de
"louvor" a figuras externas sem qualquer relevância local comprovada,
ou para declarar autoridades federais como persona non grata por pura divergência ideológica,
opera-se o abandono do mandato real. A política de resultados é substituída por
um teatro infantiloide.
ü A
"Insanidade" da Vassalagem:
A necessidade de prestar vassalagem a líderes políticos ou às suas dinastias
familiares atinge contornos delirantes. O agente público corrompe a própria
biografia e rebaixa a estatura da instituição que representa na expectativa de
ser mantido na órbita de influência, garantindo favores e a perpetuação de suas
benesses corporativas.
2. Corrupção Simbólica e das Honrarias
Públicas
As
distinções, medalhas e títulos de um Estado servem para chancelar o mérito
extraordinário e o serviço prestado à coletividade. Quando esses símbolos são
capturados, a própria história das instituições é aviltada.
ü A
Concessão de Honrarias sem Mérito:
O uso de condecorações centenárias de corporações de Estado para agraciar
figuras políticas sem qualquer folha de serviços prestados à segurança pública
local — ou ao estado de Santa Catarina — esvazia o significado da própria
comenda. É um ato que desonra diretamente os profissionais de carreira que
sacrificam suas vidas diariamente e que de fato mereceriam tal distinção.
ü A
Moeda da Impessoalidade Rompida:
O galardão público passa a funcionar como moeda de troca privada para a compra
de prestígio partidário. Esse movimento atropela frontalmente os preceitos
constitucionais da moralidade e da impessoalidade, transformando o patrimônio
simbólico do povo em um balcão de negócios de vaidades.
3. Corrupção do Debate Público e
Desinformação
A
retórica política é o canal pelo qual a sociedade civil se organiza. Quando a
mentira e a distorção técnica passam a balizar as justificativas oficiais, o
discurso público é corrompido.
ü A
Manipulação Deliberada da Verdade:
Em vez de pautar as discussões em dados técnicos, critérios legais, orçamentários
ou logísticos — como exige a complexa gestão de grandes ativos logísticos e
infraestruturas do estado —, as decisões administrativas são deliberadamente
traduzidas sob o manto de "revanche" ou perseguição. Cria-se uma
narrativa ficcional que alimenta o ressentimento em detrimento da verdade.
ü A
Violência contra a Civilidade:
A intolerância e a difusão do pânico moral convertem-se em ferramentas
metodológicas de gestão da narrativa. O ódio substitui o argumento,
interditando o diálogo civilizado e impedindo que o foco retorne para onde
deveria estar: a resolução dos problemas reais enfrentados pelos contribuintes.
4. Corrupção da Eficiência e do Uso de
Recursos
Muitos
argumentam que atos meramente simbólicos não geram danos ao erário. Trata-se de
um erro crasso de contabilidade pública e de eficiência administrativa.
ü O
Custo do Tempo Público:
O tempo de uma sessão legislativa, as horas trabalhadas por equipes técnicas e
assessores, o aparato burocrático e os custos operacionais de produção e
entrega de moções e cerimônias são integralmente custeados com o dinheiro dos
impostos pagos pelo cidadão. Desviar a finalidade desse aparato para palanque
ideológico e bajulação personalista configura, na essência, uma grave
dilapidação do princípio da eficiência, tipificando o desvio de finalidade dos
recursos públicos.
O Diagnóstico Necessário
Precisamos
rejeitar categoricamente a normalização dessas práticas sob o rótulo de que
isso é "apenas a política como ela é". O diagnóstico é
consideravelmente mais severo: estamos diante de uma manifestação de corrupção
profunda. Ela pode não perfurar diretamente os cofres, mas perfura e esvazia a
integridade, a ética e a própria finalidade da existência do Estado.
A
verdadeira política — aquela voltada para o bem comum e para a construção
coletiva — é sufocada por uma corte de vassalos modernos que ignoram as
demandas urgentes da sociedade em nome de uma necessidade insana de agradar os
detentores do poder de turno. Manter a capacidade de se indignar contra esse
cenário não é apenas um direito; é o primeiro sinal de saúde cívica e de
resistência democrática.













