terça-feira, maio 26, 2026

Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros... Corrupção Sistemática , e Violência sem fim...(Parte XVI)

 

A Suíça Brasileira e as Suas Sombras: Entre o Mito da Perfeição, a Corrupção Estrutural e o Sangue Invisível

Santa Catarina adora vender uma imagem de si mesma baseada na eficiência, na ordem e em uma espécie de "superioridade moral e econômica" em relação ao restante do país. Criou-se o mito de uma Suíça tropical, onde o trabalho resolve tudo e as instituições funcionam como relógios. No entanto, quando as cortinas da propaganda oficial são abertas, a realidade que emerge das investigações e dos relatórios sociais não é de perfeição, mas sim de uma profunda e sistêmica degradação ética e humanitária.

Maio de 2026 ficará marcado como o mês em que a farsa da blindagem moral catarinense ruiu diante dos fatos. O crime de colarinho branco e a barbárie contra as mulheres não são exceções; são sintomas de um estado que precisa, urgentemente, parar de se autoglorificar para começar a se curar.


1. A Anatomia da Propina: O Estado Fatiado pelo Crime Organizado

As recentes ações do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) do Ministério Público de Santa Catarina arrancaram o verniz da transparência na gestão pública de norte a sul do estado. Três operações simultâneas mostram que a corrupção por aqui não é um desvio de conduta isolado, mas um modelo de negócios criminoso altamente sofisticado.

>> Operação Ponto Final (O Cartel do Asfalto): Deflagrada para golpear um cartel estruturado de empresas de engenharia que atuava desde 2020. Em vez de livre concorrência, o que havia era um jogo de cartas marcadas: empresas dividiam obras entre si, combinavam vencedores e fraudavam licitações em Blumenau* (com foco inicial nos terminais urbanos Oeste e Norte) e em outras regiões. O preço da farsa? Propinas pagas a agentes públicos para garantir facilidades em medições, fiscalizações e aditivos contratuais. A teia é tão larga que alcançou 16 municípios, incluindo Florianópolis*, Joinville,* Itajaí*, Jaraguá do Sul* e Brusque*.

>>  Operação Regalo (A Taxa do Prefeito): Focada na prefeitura de Balneário Piçarras* — cujo prefeito foi preso preventivamente —, a investigação revelou a institucionalização da propina. Empresários pagavam uma "taxa de sucesso" fixa de 3% sobre o valor dos contratos para garantir benefícios municipais. A lama também respingou na prefeitura de São João Batista*, provando que a corrupção corre solta pelas veias das administrações litorâneas.

>> Operação Ponto de Corte (A Fraude do Mérito): Se no asfalto e nos contratos o dinheiro público era fatiado, esta operação provou que até a esperança do cidadão honesto de ingressar no serviço público era roubada. O esquema fraudava licitações para a escolha de bancas examinadoras de concursos públicos e processos seletivos. Utilizando empresas de fachada controladas por um mesmo núcleo familiar, o grupo simulava concorrência em cidades como Mirim Doce* e Caçador*, estendendo seus tentáculos até Caxias do Sul (RS)*, onde a farsa também operava.

* prefeituras bolsonaristas...

Quando a infraestrutura, a saúde financeira dos municípios e a lisura dos concursos públicos estão capturadas por quadrilhas, o discurso de "estado modelo" se transforma em piada de mau gosto.


2. O Sangue Oculto: A Barbárie que Destrói Nossos Lares

Se a corrupção mina a economia e a confiança nas instituições, há uma violência ainda mais devastadora e silenciosa ocorrendo dentro do espaço que deveria ser o mais seguro: os lares catarinenses. O Mapa do Feminicídio em Santa Catarina, lançado pelo MPSC, expõe a face mais cruel e vergonhosa da nossa sociedade.

Santa Catarina ostenta uma posição de destaque negativo no cenário nacional. Os dados mostram que o estado supera a média nacional nesse tipo de crime. O feminicídio aqui não é um raio em céu azul; ele é o desfecho trágico e previsível de um ciclo de violência doméstica alimentado pela omissão e pelo preconceito estrutural:

>>  A Ilusão do Lar Seguro: A esmagadora maioria dos crimes é cometida por parceiros ou ex-parceiros íntimos (maridos, companheiros, namorados) e ocorre dentro da residência da vítima. O lar catarinense, tantas vezes idealizado como o núcleo da família tradicional perfeita, tem sido o principal palco de matança de mulheres adultas, mães e em idade reprodutiva.

>>  A Barreira do Silêncio: O relatório traz um dado alarmante: uma parcela significativa das vítimas nunca havia registrado um Boletim de Ocorrência ou solicitado uma Medida Protetiva de Urgência (MPU). Isso evidencia as barreiras invisíveis do medo, da vergonha e do descrédito no sistema de proteção que impedem essas mulheres de buscar socorro antes que o pior aconteça.

>> A "Cegueira" Estatística: Mesmo com os esforços de transparência ativa do Observatório da Violência Contra a Mulher (OVCM), a subnotificação e o preenchimento incompleto de formulários policiais ainda criam uma "cegueira nos dados", mascarando a dimensão real de uma misoginia que mata diariamente.


3. Concluindo: É Hora de Retirar a Venda

O Mapa do Feminicídio não é apenas uma planilha estatística, assim como as operações do GAECO não são apenas relatórios policiais. Ambos são ferramentas de Governança Social (o 'S' do ESG) que deveriam cobrir de vergonha a nossa elite política e econômica.

Não podemos continuar aceitando o marketing da indignação seletiva nas redes sociais, onde grupos preferem debater boicotes infantis a marcas de consumo enquanto o patrimônio moral, financeiro e humano de Santa Catarina é dilapidado.

Combater a corrupção que assalta os cofres públicos e desconstruir as raízes culturais da misoginia que justificam o sentimento de posse sobre a mulher são duas faces da mesma moeda. Para que Santa Catarina seja, de fato, o estado grandioso que finge ser, precisamos primeiro ter a coragem de olhar no espelho, admitir nossas misérias e arrancar a venda da hipocrisia. Menos soberba, mais justiça e proteção à vida.


As Diferenças Fundamentais entre as Três Operações

A grande diferença está no setor da administração pública afetado e no mecanismo do crime:

Característica

Operação Ponto de Corte

Operação Ponto Final

Operação Regalo

Área Afetada

Educação / Recursos Humanos: Contratação de bancas para concursos e processos seletivos.

Infraestrutura / Obras: Construção civil, pavimentação e terminais urbanos.

Contratos Gerais e Urbanização: Licitações amplas da administração municipal.

Mecanismo da Fraude

Simulação de concorrência com empresas de fachada do mesmo grupo familiar para vencer bancas de concursos.

Cartel de grandes empreiteiras que combinavam previamente quem ganharia cada obra pública.

Propina institucionalizada (fixada em 3%) paga por empresários a agentes políticos em troca de contratos.

Cidades e Prefeituras Foco

Iniciou em Mirim Doce, estendendo-se para outras prefeituras de SC (com buscas em Caçador e Caxias do Sul-RS).

Foco em Blumenau e região do Vale, com mandados espalhados por 16 municípios catarinenses.

Foco concentrado na prefeitura de Balneário Piçarras e na de São João Batista.

Alvos Principais

Empresários de bancas de concurso e firmas de consultoria jurídica/concursos.

Empresários do setor de engenharia e secretários/servidores de obras.

O Prefeito (no caso de Balneário Piçarras, que foi preso) e o núcleo político das prefeituras.



Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola" Pastor Marcelo??? (Parte III)

 

A Matemática da Fé contra o Marketing da Exclusão: Por que Lages não precisa proibir a esmola


Introdução: O Mito da Escassez e a Criminalização da Miséria

O debate político e religioso em Lages ganhou contornos de crueldade institucional. Sob o pretexto de organizar o espaço urbano e defender um suposto "direito de ir e vir", lideranças da Câmara de Vereadores — capitaneadas por discursos como o do vereador Pastor Marcelo — insistem em criminalizar a solidariedade popular através de programas que desestimulam a doação de esmolas. A narrativa oficial tenta convencer o cidadão lageano de que a miséria visível nas calçadas é fruto da "comodidade" de quem pede e da "ingenuidade" de quem ajuda.

Trata-se de uma farsa sociológica e de uma heresia teológica. Ao transferir a culpa da desigualdade estrutural para o indivíduo vulnerável e para o bolso do trabalhador que estende a mão, o poder público e as cúpulas religiosas tentam ocultar a própria incompetência e omissão. O argumento de que "não há recursos para resolver o problema" desmorona quando confrontado com a realidade dos números e com a riqueza acumulada nos altares da cidade. Se houvesse o verdadeiro desejo de aplicar a ética do Sermão da Montanha, a comunidade religiosa de Lages teria, sozinha, condições de erradicar a miséria das ruas sem depender de um único centavo de orçamento público.


1. O Cenário Inflacionado: Desmascarando o "Monstro" Urbano

Para justificar leis higienistas e aparatos de exclusão, o discurso político costuma inflacionar o tamanho do desafio, tratando a população em situação de rua como uma "ameaça incontrolável" à ordem pública. Mas o que dizem os dados reais?

Os monitoramentos da Secretaria de Assistência Social, do CadÚnico e do Centro POP apontam que Lages possui entre 120 e 150 pessoas vivendo de forma crônica nas ruas. Para que não haja qualquer acusação de que estamos minimizando o problema, façamos um teste de estresse matemático: vamos inflacionar esse número ao extremo. Suponhamos que existam 500 pessoas em situação de rua ou mendicância na cidade.

Mesmo nesse cenário exagerado, estamos falando de meros 0,30% da população lageana. Isolar 0,30% dos habitantes e transformá-los nos grandes "responsáveis pelas mazelas brasileiras" e pela degradação do centro urbano não é gestão; é aporofobia pura e simples — o horror ao pobre transformado em plataforma eleitoral.


2. A Operação Matemática da Solidariedade: O Potencial Oculto do Dízimo

Se o tamanho do desafio é perfeitamente delimitável, qual é a real capacidade financeira da comunidade que se propõe a debater a moralidade da ajuda? Vamos aos dados econômicos da força de trabalho baseados nos cruzamentos demográficos do município:

  • A Força de Trabalho Evangélica: De acordo com o último Censo IBGE, Lages conta com cerca de 61.000 pessoas gerando renda. Sendo a população evangélica correspondente a 24% do município, temos um contingente de 14.640 trabalhadores evangélicos ativos.
  • A Massa Salarial do Altar: Considerando a renda média do trabalho individual em Lages, que é de R$ 3.143,00, a comunidade evangélica local movimenta, sozinha, uma massa salarial mensal de R$ 46.013.520,00.
  • O Faturamento da Fé: Sob a premissa bíblica e estatística do dízimo (10%), as igrejas evangélicas de Lages arrecadam mensalmente cerca de R$ 4.601.352,00. Ao longo de um ano (contabilizando o impacto do 13º salário na economia), o montante transferido aos cofres eclesiásticos atinge a impressionante marca de R$ 59.817.576,00.

Agora, cruzemos a riqueza dos templos com a miséria das calçadas. Se o conjunto das igrejas evangélicas de Lages decidisse cumprir o mandamento de "adotar" os 500 necessitados do nosso cenário inflacionado, garantindo-lhes uma renda básica de dignidade equivalente a um salário mínimo por mês (R$ 1.621,00), o custo total dessa operação seria de R$ 810.500,00 mensais, ou R$ 10.536.500,00 por ano (com 13º incluso).

O veredito é avassalador: com apenas 17,61% do valor total dos dízimos arrecadados, todas as pessoas em situação de rua e pedintes de Lages teriam uma vida digna. Sobrariam mais de 82% dos recursos (cerca de R$ 49 milhões anuais) para manter os templos, pagar salários pastorais e custear eventos. O problema, portanto, nunca foi a escassez de dinheiro; é a escolha política de onde aplicá-lo.


3. O Espelho do Bolsa Família e a Opacidade da Fé

Para compreender a magnitude do "orçamento da fé" em Lages, é preciso compará-lo com a estrutura estatal de combate à pobreza. O programa Bolsa Família atende atualmente 8.507 famílias em Lages — consolidando o município como o terceiro maior em volume de assistência no estado, atrás apenas de Joinville e Florianópolis. Esse programa injeta na economia local cerca de R$ 5,75 milhões por mês, garantindo a subsistência de famílias chefiadas, em sua esmagadora maioria, por mulheres da periferia.

Perceba o paralelo: a arrecadação estimada do dízimo evangélico em Lages (R$ 4,6 milhões/mês) equivale a 80% de todo o recurso do Bolsa Família que o Governo Federal envia para a cidade. Se o volume de dinheiro movimentado pelas igrejas empata em grandeza com o maior programa de transferência de renda do país dentro do município, por que o impacto social dessas instituições na proteção da alta complexidade (os moradores de rua) é invisível a ponto de o cidadão precisar implorar por moedas na calçada?

A resposta reside no mecanismo de opacidade e na "terceirização do amor ao próximo". Quer-se o dízimo no altar, mas delega-se o corpo do pobre à burocracia do Estado ou, pior, tenta-se fazê-lo desaparecer através de canetadas higienistas na Câmara de Vereadores.


Concluindo: O Desafio Profético a Lages

Defender o fim da esmola direta sob o pretexto de que ela "vicia" ou "atrapalha o sistema" é o comportamento que a própria Escritura define como sepulcro caiado: uma fachada de ordem e boa gestão que esconde um interior vazio de misericórdia.

Se as igrejas e os vereadores que se elegem usando o nome de Cristo estivessem genuinamente preocupados com a dignidade humana, não estariam propondo leis de exclusão nas salas climatizadas da Câmara. Estariam organizando um consórcio de intercooperação social para que os recursos isentos de impostos que entram nos templos saíssem em forma de aluguel social, tratamento de saúde e reinserção produtiva para os 150 lageanos que sofrem no asfalto frio.

Fazer dos moradores de rua os bodes expiatórios das mazelas brasileiras é um ato de covardia política. Em Lages, a matemática prova que a miséria só continua nas ruas porque a hipocrisia e o marketing da exclusão ainda rendem mais votos do que a coragem de partilhar o pão. É hora de escolher se seguiremos o Deus dos dízimos acumulados ou o Cristo de Mateus 25, que ainda hoje nos espera, faminto e invisível, em alguma esquina da nossa cidade.



domingo, maio 24, 2026

Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros... Imoralidade, Corrupção, e Violência sem fim...(Parte XV)

 

O Avesso do Cartão-Postal: As Contradições e as Faces Ocultas de Santa Catarina

Santa Catarina costuma ocupar o imaginário nacional como o reflexo da eficiência, do pleno emprego e de elevados índices de desenvolvimento. É o Estado do cartão-postal bucólico, do empreendedorismo dinâmico e da ordem. Contudo, quando raspamos a superfície dourada dessa narrativa oficial, a realidade nua e crua dos fatos recentes nos obriga a encarar uma face profundamente sombria. Entre as engrenagens do poder, do mercado e das salas de aula, emergem sintomas de uma crise humanitária, moral e civilizatória que o otimismo oficial não consegue mais esconder.


1. A Barbárie na Intimidade: A Escravidão Moderna

A face mais cruel de qualquer sociedade se revela na forma como ela trata os mais vulneráveis. Recentemente, a confirmação de que um casal admitiu ter mantido uma mulher estrangeira em condições análogas à escravidão em solo catarinense corta o discurso da "terra das oportunidades". Não se trata de um caso isolado, mas de um sintoma de um sistema que, por vezes, confunde a busca pelo lucro com a coisificação do ser humano. Ver a dignidade de trabalhadores imigrantes estilhaçada na clandestinidade de lares ou lavouras expõe um traço de crueldade que remonta aos períodos mais escuros da nossa história.


2. A Burocracia Armada contra o Futuro: O Desmonte Ambiental

Enquanto o ecossistema clama por socorro, a representação política catarinense em Brasília parece marchar na direção oposta. A aprovação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 2.564/2025 — que limita embargos e sanções baseadas em imagens de satélite — contou com a articulação e a defesa entusiasmada de parlamentares do Estado ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária (como Caroline de Toni, Zé Trovão, Daniel Freitas, Júlio Garcia, Rafael Peixer e Jorge Goetten). Em uma votação simbólica, que blinda o registro nominal de votos, o que se vê é a tentativa de enfraquecer a fiscalização técnica e científica. É o Estado que deveria proteger o bioma capitulando diante de interesses que comprometem o amanhã.


3. A Ideologia do Esmagamento: A Negação do Descanso

Esse mesmo alinhamento ideológico radical se reflete na pauta dos direitos trabalhistas. A reação virulenta de parlamentares catarinenses contra a PEC que propõe o fim da escala de trabalho 6x1 ilustra a total desconexão com a saúde mental e física da classe trabalhadora. Ao sugerir, de forma cínica, que aqueles que buscam uma jornada mais humana deveriam apenas "abrir o próprio negócio", a bancada governista e bolsonarista local ignora a realidade de milhões de catarinenses que sustentam a economia do Estado sob o preço do esgotamento severo. O trabalho, aqui, deixa de ser um meio de emancipação freireana e passa a ser uma ferramenta de domesticação.


4. A Sangria na Escola: A Violência Interrompendo Vidas

A violência que se propaga nos discursos políticos inevitavelmente ecoa nos espaços que deveriam ser de acolhimento e emancipação. A trágica morte de um adolescente, atacado com canivete dentro de uma escola no Estado, choca mas não deveria surpreender. As salas de aula tornaram-se caixas de ressonância de uma sociedade adoecida pelo ódio, pela falta de escuta e pela falência dos canais de mediação de conflitos. Quando a juventude perde a vida onde deveria encontrar o futuro, é a própria viabilidade social do Estado que está em xeque.


5. A República dos Prefeitos Presos: A Corrupção Institucionalizada

A retórica da moralidade e da "gestão eficiente" desmorona por completo quando olhamos para as páginas policiais da política local. Santa Catarina assiste a um fenômeno assustador: a Operação Regalo, deflagrada pelo GAECO e pelo GEAC, resultou na prisão preventiva do prefeito de Balneário Piçarras e investiga fraudes e propinas de 3% em contratos de obras que se estendem por 11 municípios. Esta ação marca a impressionante marca de 30 prefeitos catarinenses presos por investigações de corrupção desde agosto de 2020 (97% deles, bolsonaristas de carteirinha)

A fuga trágica e subsequente internação na UTI do vice-prefeito de Lages, ao tentar escapar de outra operação do GAECO, funciona como uma metáfora literal da elite política correndo de suas próprias responsabilidades diante da lei.


Concluindo: A Urgência da Conscientização e do Controle Social

Unir esses pontos nos mostra que os impressionantes dados econômicos de Santa Catarina convivem com uma profunda miséria ética e social. Existe um abismo intransponível entre o Estado que se promove nas propagandas governamentais (amplamente divulgada pela mídia boca alugada) e o Estado real — onde prefeitos são presos em massa, o meio ambiente é flexibilizado, trabalhadores são explorados até o limite e o sangue de jovens é derramado nas escolas.

Acompanhar os desdobramentos de casos como o do PIC no portal da ALESC, a tramitação das leis ambientais no Senado ou os inquéritos no Ministério Público de Santa Catarina não é mero passatempo: é uma urgência democrática. Para além do orgulho regionalista, Santa Catarina precisa urgentemente descer do para-brisa das suas ilusões de grandeza e sentar-se à mesa da autocrítica. Só assim poderá curar suas feridas e humanizar suas estruturas.



A Epidemia Silenciosa do Vazio...

 

O Paradoxo da Solidão Conectada

Há um fantasma que ronda as grandes avenidas, os aeroportos lotados, as salas de reuniões corporativas e as universidades mais concorridas do mundo. Ele não faz barulho, não quebra objetos e não deixa rastros visíveis. Trata-se da solidão moderna — ou, como bem definiu o escritor e jornalista Fabrício Carpinejar num artigo recente, a "epidemia silenciosa do vazio".

No século XXI, a solidão mudou de endereço. Ela deixou de habitar exclusivamente os asilos esquecidos ou as casas isoladas no campo para se instalar no centro da hiperconectividade. Nunca estivemos tão expostos, nunca comunicamos tanto através dos ecrãs e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão invisíveis.


1. O Paradoxo da Presença Ausente

O diagnóstico trazido por Carpinejar é cirúrgico: passamos o dia a trocar mensagens, a emitir opiniões nas redes sociais e a acumular conexões digitais. No entanto, essa engrenagem técnica falhou em preencher o abismo do abandono humano. Há um excesso de comunicação burocrática e uma escassez gritante de presença real. As pessoas estão ligadas à rede, mas desligadas umas das outras.

Esta crise deixou de ser um drama puramente existencial ou poético para se transformar numa emergência de saúde pública global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que uma em cada seis pessoas no planeta sofre de isolamento social persistente, uma condição associada a cerca de 871 mil mortes anuais. O vazio, literalmente, está a adoecer-nos.


2. A Ditadura do Desempenho e o Medo do Silêncio

Para compreender como chegamos aqui, o debate ganha eco no pensamento do filósofo contemporâneo Byung-Chul Han. Vivemos na chamada "Sociedade do Cansaço", onde o desempenho se tornou uma obrigação tirânica. O indivíduo moderno é pressionado a parecer produtivo, feliz, atualizado e criativo vinte e quatro horas por dia.

Essa busca incessante por validação transforma a vida numa montra (vitrine) contínua. Até os momentos que deveriam ser de ócio, descanso ou introspeção passaram a ser colonizados pela culpa de "não estar a produzir". Perdemos a capacidade de tolerar o silêncio. Quando o telemóvel vibra ou o ecrã (superfície eletrônica de dispositivos como Smartfones, televisões e computadores) se ilumina, procuramos uma distração imediata para não termos de encarar os nossos próprios pensamentos. Mas, como o texto nos alerta: distração não produz pertença.


3. A Falência das Âncoras Coletivas

Outro ponto crucial para compreendermos esta epidemia é o colapso das nossas estruturas de continuidade. Apoiando-se nas teses do filósofo Charles Taylor, percebemos que as antigas âncoras sociais — como a vida de bairro, os laços comunitários de proximidade, os rituais partilhados e as crenças tradicionais — perderam força num mundo hiperveloz.

Numa sociedade onde tudo circula a alta velocidade, muito pouco permanece para oferecer raízes. Sem projetos comuns a longo prazo e sem espaços de convivência genuína, o indivíduo fica isolado na sua própria busca por performance.


Concluindo: O Abismo entre Dados e Significado

A grande ironia da nossa era é termos sido capazes de criar inteligências artificiais sofisticadas, algoritmos que processam trilhões de dados em segundos e máquinas que simulam a empatia humana, enquanto falhamos no básico: a capacidade de escutar quem está ao nosso lado.

O que falta à sociedade atual não é informação, largura de banda ou ferramentas de conexão técnica. Falta-nos significado, tempo e presença. Combater a "epidemia silenciosa do vazio" exige a coragem de desacelerar, de largar o ecrã por alguns instantes e de resgatar o valor do olhar, do abraço e da escuta desinteressada. No final das contas, a tecnologia pode aproximar quem está longe, mas só o afeto real impede que nos percamos de quem está perto.

Qualquer semelhança com o avanço do nazifascismo e da ultra extrema direita intolerante e violenta no mundo, pode não ser uma mera coincidência...



quinta-feira, maio 21, 2026

Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola" Pastor Marcelo??? (Parte II)

 

Lages e o Corpo Oculto de Cristo: O Higienismo no Tapete de Corpus Christi


Introdução: A Adoração Institucional vs. a Presença Real do Pobre

O debate que assombra Lages neste dia de Corpus Christi, 4 de junho de 2026, expõe uma contradição teológica e social insuportável na ética da nossa comunidade. Enquanto os fiéis católicos se reúnem em solenidade pública para adorar a "Presença Real" de Jesus no mistério da Eucaristia — o sacramento no qual o pão e o vinho se transubstanciam substancialmente em Seu Corpo e Sangue —, vozes influentes na Câmara de Vereadores e em lideranças religiosas insistem em políticas higienistas que buscam ocultar e criminalizar o corpo do pobre.

A insistência dos vereadores em adotar o falso discurso do "direito de ir e vir" para fazer dos moradores de rua os responsáveis pelas mazelas brasileiras não é uma política de gestão assistencial, mas uma política de "gestão do espaço urbano" que prioriza o conforto de quem consome em detrimento do direito à sobrevivência de quem é marginalizado. Trata-se do higienismo travestido de testemunho público de fé.


1. O Imperativo de Mateus 25:35-40: O Corpo Que Interrompe o Tapete

Para Mateus 25, o encontro com o vulnerável é o encontro com o próprio Sagrado. Jesus é seco e direto: "Sempre que o fizeram a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizeram." Ele não condiciona o auxílio à eficiência administrativa, à triagem burocrática ou ao mérito do necessitado. Existe apenas a urgência do faminto. Na solenidade de Corpus Christi, que celebra a partilha do pão na Última Ceia, Mateus nos lembra que adorar o Corpo de Cristo significa estender a mão ao corpo de quem tem fome hoje, sem esperar a morosidade de um processo administrativo.

No entanto, a proposta dos vereadores e do "Pastor Marcelo" de criar um "programa para mostrar que esmola não resolve" busca burocratizar a compaixão e criar um mecanismo de opacidade urbana. Quer-se delegar a caridade a uma instituição para que o corpo do pobre desapareça da nossa vista e não "atrapalhe" a estética dos tapetes ornamentais coloridos que adornam nossas ruas comerciais. É a "terceirização do amor ao próximo".


2. O Falso Testemunho Público: Adoração ou Marketing da Exclusão?

As tradições públicas de Corpus Christi, com missas e procissões onde o Santíssimo Sacramento é conduzido pelas ruas, são formas de testemunho público de fé. Contudo, em Lages, esse testemunho corre o risco de se tornar um "sepulcro caiado" se a adoração ao ostensório for acompanhada da rejeição ao pobre. O "Programa Contra a Esmola" é um mecanismo de distância; Mateus convida à proximidade. Trata-se da substituição da caridade (o amor em ação) pela filantropia de gabinete, que só ajuda se o indivíduo se enquadrar nas regras de um sistema que muitas vezes é o mesmo que o excluiu.

Celebrar o Corpo de Cristo apoiando projetos que estigmatizam e criminalizam quem pede ajuda nas ruas é o que a Bíblia chama de incoerência ética. Se a igreja e a Câmara de Vereadores se tornam o braço que aponta o dedo em vez da mão que sustenta, elas perdem sua função messiânica e transformam-se apenas em um clube de interesses sociais.


Concluindo: Cristo ou Marketing da Exclusão?

Neste feriado municipal de adoração ao Santíssimo Sacramento, Lages precisa escolher entre o Cristo de Mateus 25, que nos chama à ação imediata e à proximidade, ou o marketing da exclusão, que tenta limpar as ruas sob o pretexto de "ajudar melhor". A pergunta teológica que fica para os fiéis e para os gestores públicos é: se Cristo estivesse hoje sentado em uma calçada da nossa cidade, com fome e sede, sobre um dos tapetes de serragem, o "programa do vereador" permitiria que você o alimentasse, ou você teria que esperar a burocracia do sistema administrativo para exercer sua fé? Lages precisa decidir se segue o Corpo Partilhado ou a Higienização de Gabinete que busca terceirizar a compaixão.



quarta-feira, maio 20, 2026

Quem sequestrou Jesus?

 

O Cristianismo sem o Nazareno: O Sequestro de Jesus e a Antítese do Sermão da Montanha


Introdução: O Paradoxo do Túmulo Vazio

Séculos atrás, Friedrich Nietzsche chocou o Ocidente ao proclamar que "Deus está morto". No entanto, ao observarmos o cenário religioso e político do Brasil contemporâneo, percebemos que o diagnóstico para o nosso tempo é diferente, talvez mais doloroso: Deus não está morto, mas a figura histórica, ética e espiritual de Jesus de Nazaré foi sequestrada. E os sequestradores, ironicamente, usam o Seu nome no púlpito para legitimar estruturas de poder que colidem frontalmente com tudo o que Ele pregou.

Assistimos hoje à consolidação de um cristianismo puramente nominal. Uma religião de massa que esvaziou a essência dos ensinamentos práticos do Cristo e ergueu, em seu lugar, um sistema de intolerância, exclusão e alinhamento partidário ideológico. É a institucionalização do "cristianismo sem o Nazareno".


1. O Sermão da Montanha Esquecido no Altar

A maior evidência desse sequestro está no abandono deliberado da ética do Sermão da Montanha (Mateus 5 a 7). Considerado o coração do ensinamento de Jesus, o texto bíblico exalta os mansos, os misericordiosos, os pacificadores e os que sofrem perseguição por amor à justiça. Ele ordena o amor aos inimigos e o perdão incondicional.

Contudo, a práxis de grandes corporações religiosas neopentecostais e pentecostais tem tomado o caminho inverso. O púlpito, que deveria ser o espaço do anúncio da graça e do acolhimento, transformou-se em palanque de trincheira ideológica. Em vez da busca pela paz, incita-se a rejeição raivosa; em vez da misericórdia, adota-se a demonização do espectro político contrário. Priorizam-se pautas conservadoras de fachada moralista enquanto se negligencia a justiça social e o cuidado com os vulneráveis — justamente aqueles que Jesus priorizou em sua trajetória histórica.


2. Os Engenheiros do Púlpito e a Instrumentalização da Fé

Essa dinâmica de poder não ocorre no vácuo; ela possui rostos, emissoras de televisão, impérios financeiros e mandatos parlamentares bem definidos na geopolítica evangélica brasileira:

ü  Edir Macedo (IURD / Record): Ilustra a fusão entre fé, mídia e política, utilizando megaestruturas e canais de comunicação para reduzir o debate social a uma guerra santa, associando o pensamento progressista ao comunismo e à destruição da família.

ü  R. R. Soares (Igreja da Graça): Utiliza o alcance da televisão aberta para moldar a opinião pública dos fiéis, alinhando a mensagem religiosa à oposição sistemática a governos de esquerda.

ü  Marco Feliciano e Sóstenes Cavalcante: Operam na intersecção direta entre a igreja e o parlamento. Usam a imunidade e a visibilidade política para rotular agendas de direitos civis e pluralidade como nocivas ao Evangelho, convertendo a fé em uma barreira de exclusão.

ü  Abner Ferreira (CONAMAD): Representa o peso institucional das cúpulas denominacionais que, especialmente em períodos eleitorais, transformam a estrutura eclesiástica em comitês partidários de forte rejeição à pluralidade do próprio rebanho.

ü  O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), é amplamente reconhecido como um dos principais articuladores do voto evangélico conservador no Brasil. Sua atuação é marcada por uma retórica combativa, focada na confrontação direta e no uso estratégico dos meios de comunicação.

A atuação do pastor Silas Malafaia destaca-se por dinâmicas específicas:

a)    Discurso de polarização: Malafaia utiliza frequentemente as redes sociais e os púlpitos para pregar que a esquerda busca perseguir igrejas, destruir a família tradicional e implantar o comunismo. Teólogos e críticos indicam que essa abordagem de "nós contra eles" fomenta a intolerância política e religiosa dentro do ambiente de fé.

b)    Batalha Cultural: O pastor centraliza suas pregações no combate aos direitos LGBTQIA+, à descriminalização do aborto e a pautas identitárias. Essa postura prioriza a moralidade comportamental em detrimento de temas de assistência social e acolhimento previstos no Sermão da Montanha.

c)     Aliança e Mobilização Política: Atua como um dos conselheiros mais próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro, financiando e organizando grandes manifestações públicas com tom político-religioso. Ele defende abertamente que a liderança cristã deve ditar os rumos ideológicos do país.

d)    Confronto Institucional: Malafaia acumula polêmicas e disputas com o Poder Judiciário. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou uma denúncia da Procuradoria-Geral da República, tornando-o réu por crime de injúria após o pastor proferir ataques verbais à cúpula do Exército Brasileiro. Em seus cultos, ele alega ser alvo de "perseguição religiosa" instituciona

O que esses líderes promovem é a transformação da fé cristã em uma ferramenta de disputa ideológica e manutenção de privilégios. Quando a fé se torna balcão de negócios ou arma de arremesso político, ela trai o exemplo histórico do Nazareno.


3. As Tensões Internas e o Risco da Ideologia Vazia

Sociologicamente, como apontam estudos do Observatório Evangélico, essa militância político-partidária agressiva tem cobrado o seu preço. Há uma crescente tensão teológica e comunitária no seio das igrejas. Fiéis que buscam o estrito seguimento de Jesus encontram-se órfãos em comunidades que passaram a exigir fidelidade cega a cartilhas partidárias.

Ao demonizar o "outro" por suas convicções políticas ou sociais, essas lideranças ferem de morte o mandamento do amor ao próximo. Criam uma religião estéril, onde a retórica moralista esconde a total ausência de compaixão e partilha.


Concluindo: O Chamado ao Resgate

A crise do cristianismo contemporâneo não é uma crise de falta de templos, de dinheiro ou de influência política — disso, as cúpulas evangélicas têm de sobra. A crise é de ausência de Jesus.

Faz-se urgente um chamado à autocrítica e um retorno radical à essência do Evangelho. O verdadeiro cristianismo não pode ser medido pela capacidade de lotar arenas ou de influenciar votações no Congresso Nacional, mas sim pela fidelidade prática aos valores do Cristo histórico. 

Se a igreja quiser recuperar sua relevância espiritual e sua legitimidade ética, ela precisará libertar Jesus do cativeiro ideológico em que o colocaram e voltar a caminhar pelas estradas empoeiradas da simplicidade, do amor e da justiça.