Neste final de semana de Carnaval, enquanto o país busca o refúgio da festa, um eco de agonia ressoa de forma mais nítida no Sul e Sudeste do Brasil. Casos como o do cão Orelha em Santa Catarina ou o arremesso de um animal do alto de um prédio não são incidentes isolados de "loucura juvenil" ou "maldade gratuita". São sintomas de um fenômeno mais profundo, enraizado em ideologias de exclusão e métodos de dominação psicológica.
A Crueldade como
Experimento Ideológico
Não é coincidência que o aumento de
casos de crueldade extrema contra animais ocorra paralelamente à proliferação
de células de inspiração nazifascista em estados como Santa Catarina, Paraná,
Rio Grande do Sul e São Paulo.
Historicamente, o fascismo se alimenta
da ideia de uma "hierarquia de seres". A violência contra o animal —
o ser mais vulnerável da cadeia social — funciona como um campo de treinamento.
Eric Fromm e outros teóricos da Escola de Frankfurt já alertavam: a
incapacidade de sentir empatia pelo "outro" (seja ele um animal, um
imigrante ou um opositor) é a base do caráter autoritário. Ao desumanizar o
bicho e tratá-lo como descarte, o agressor exercita o poder absoluto, um pilar
da estética e da prática supremacista.
Chomsky e a
"Mídia Boca Alugada"
Como essa barbárie se torna palatável
ou invisível? Noam Chomsky, em seus estudos sobre a Manufatura do
Consentimento, descreve como os grandes meios de comunicação operam para
manter o status quo.
A "mídia boca alugada"
contribui para essa onda de três formas principais:
- A
Fragmentação da Realidade: Os crimes são noticiados como fatos
policiais isolados. A mídia raramente conecta o "adolescente que
jogou o cachorro" com os fóruns de internet que frequentam ou com a
ideologia que consome. Trata-se o sintoma, mas esconde-se o vírus.
- A
Distração e o Entretenimento: Enquanto a violência estrutural avança,
o debate público é inundado por trivialidades. A indignação é momentânea e
"espetacularizada" para gerar cliques, mas não para gerar
mudança política ou educacional.
- A
Normalização do Ódio: Ao dar palanque a discursos que pregam o extermínio do
diferente, a mídia cria um caldo de cultura onde a vida — qualquer vida —
perde o seu valor sagrado.
Por que no Sul?
O mito da "Europa Brasileira"
criou, em certas franjas da sociedade sulista, um complexo de superioridade
que, ironicamente, descamba para a barbárie. Ao tentarem preservar uma pureza
imaginária, grupos extremistas utilizam a violência para marcar território. O
animal, no seu silêncio, é a primeira vítima dessa "limpeza" de
empatia.
Concluindo: O
Despertar da Consciência
Neste feriado, a reflexão que fica é:
que tipo de sociedade estamos construindo quando o grito de um animal não nos
mobiliza a atacar a raiz do problema? O combate à violência animal no Sul não
passa apenas por leis mais duras, mas pelo desmantelamento das redes de ódio e
pela denúncia do silêncio cúmplice de uma mídia que fatura com a tragédia sem
explicar o porquê dela existir.
Para que o Carnaval não seja apenas uma
máscara sobre o rosto de um Brasil que se torna, dia após dia, mais intolerante
e cruel.
Referências: Noam
Chomsky (Manufacturing Consent), Relatórios de monitoramento de grupos
neonazistas no Brasil.






