"Amanhã completa-se um mês do Dia Nacional da Araucária (24 de Junho). Em 2023 escrevi este texto para refletir sobre o tempo profundo da Terra vs. a velocidade da devastação humana. Em uma escala onde a Terra teria 1 ano de vida, bastaram menos de 1 segundo para colocarmos a Araucária na lista de espécies criticamente ameaçadas..."
ARAUCÁRIA... Teu nome é
RESISTÊNCIA
No final do
período Permiano (que teve início a 299 milhões de anos) ocorreu a terceira e
maior extinção em massa na história do planeta Terra, que dizimou a vida no
planeta: estimativas apontam que até 95% de todas as espécies desapareceram. É
a única que se sabe ter atingido até mesmo animais considerados mais
resistentes, como os insetos, e todos os seres vivos hoje existentes descendem
justamente dos apenas 4% que sobreviveram à apelidada “Grande Morte”. O
desastre foi tamanho que demorou 50 milhões de anos para a biodiversidade se
recuperar em terra e 100 milhões de anos no mar (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA,
2009; TOMASSI, 2011; SANTOS, 2022).
A flora que surgiu após a “Grande Morte” é caracterizada pelo
surgimento e pela proliferação das coníferas[1], que se tornam as plantas dominantes a partir
deste período e se mantém até o período Cretáceo, quando se dá a proliferação
das angiospermas[2] (MARTINS-NETO, 2006;
CARNEIRO et al., 2015).
A história evolutiva das araucárias se entrelaça com a própria
evolução dos vegetais, há milhões de anos atrás, quando as plantas passaram a
dominar a superfície do planeta (FERRI, 2019).
A araucária é um gênero arbóreo das coníferas, de
crescimento dependente da profundidade e da fertilidade do solo, são capazes de
alcançar mais de 35 metros de altura no seu habitat (KÄFFER, 2017). Podem
ser cultivadas tanto no exterior como em vasos interiores como plantas
ornamentais. Como tal, é uma árvore muito versátil. Mas se há algo notável
neste gênero, é a sua longevidade. A araucária é conhecida como um fóssil
vivo, de fato, há provas de que existe desde a Era Mesozóica (ou seja, uns 251
milhões de anos). Portanto, muito, muito tempo (CARVALHO, 2012; FERRI, 2019).
Fósseis de araucárias primitivas de Faxinal do Soturno (RS) devem
ser representantes do último momento em que os grupos de coníferas que hoje
apresentam grande porte ainda eram arbustivas (RAMOS, 2023).
Pelo tamanho de seus lenhos, esses exemplares de primitivas
araucárias estavam mais para arbustos do que para árvores de grande porte. Sua
altura era de cerca de 2 metros e os troncos tinham entre 15 e 20 centímetros
de diâmetro e se parecem anatomicamente com formas primitivas de araucária
descobertas na Índia e na Argentina, que viveram entre o final do período
Permiano e o Triássico Superior (entre 260 e 200 milhões de anos). Por mais de
duas centenas de milhões de anos, a terra abrigou e se encarregou de preservar
os vestígios de um ser primitivo. Entretanto, fósseis de araucárias com
aproximadamente 220 milhões de anos atestam a transição dessa espécie para
árvores de grande porte (CARVALHO, 2012; CERVATO & FRODEMAN, 2015; RAMOS,
2023).
A Araucária resistiu e sobreviveu à fragmentação do
supercontinente Pangeia com início no período Triássico, há,
aproximadamente, 230 milhões de anos (PRESTES, 2006; LAMANA, 2009).
Provavelmente, a Araucária sobreviveu à quarta extinção em massa:
no fim do período Triássico (cerca de 205 milhões de anos), onde novamente uma
grande variedade de répteis dominavam a terra e os oceanos. As marcas da Grande
Morte, no entanto, ainda estavam presentes, e estes animais em nada lembravam
os que existiam no Permiano. Não havia grandes predadores. Árvores coníferas
primitivas também já tinham se desenvolvido, assim como os sapos, lagartos e
até mesmo os primeiros mamíferos (CARVALHO, 2012; EVANS, 2020; OLIVEIRA et al.,
2020).
A Araucária sobreviveu, também, a quinta extinção em massa: O fim
dos dinossauros: A mais conhecida e estudada extinção em massa, ocorreu no fim
do período Cretáceo, há 65 milhões de anos, e foi responsável pelo
desaparecimento dos dinossauros. Praticamente todos os animais terrestres com
mais de cinco quilos de massa foram dizimados (CERVATO & FRODEMAN, 2015;
FERRI, 2019; BIERNATH, 2022).
No Brasil, até o século XIX a área original, de formato irregular
nas regiões Sul e Sudeste, o ecossistema original da Floresta Ombrófila Mista,
ocupava cerca de 20 milhões de hectares (200 mil km2). A Araucária distribui-se
nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, em aproximadamente
25%; 40% e 31% de suas superfícies, respectivamente. Também ocorre em manchas
esparsas no sul de São Paulo (3%); e no sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro,
em áreas com altitude superior a 500 metros (1%) (ALMEIDA, 2008; (LIEBSCH et
al., 2009).
Contudo, nos últimos 120 anos... a partir de 1910 (num reduzido
fragmento de tempo diante da vida das Araucárias) essa maravilha da natureza
foi levada... graças a insensatez humana... a condição de “Espécie ameaçada de
extinção[3]”.
Á Araucária... símbolo máximo da resistência e da generosidade...
manifesto a minha solidariedade... o meu respeito... e a minha admiração...
Tabelas do tempo[4]...
Tabela 1:
Escala Temporal a partir do Big Bang (13,5 bilhões de anos)
Proporção:
13,5 bilhões de anos = 365 dias (1 ano)
|
Acontecimento |
Tempo Estimado |
Proporção no Ano (365 dias) |
|
Big Bang |
13.500.000.000 anos |
365 dias (01 de janeiro, 00:00) |
|
Formação da Via Láctea |
13.000.000.000 anos |
351 dias, 11 horas |
|
Formação do Sistema Solar |
4.600.000.000 anos |
124 dias, 10 horas |
|
Formação da Crosta Terrestre |
4.500.000.000 anos |
121 dias, 16 horas |
|
Surgimento dos Procariontes |
4.000.000.000 anos |
108 dias, 3 horas |
|
Início da Existência das Araucárias |
250.000.000 anos |
6 dias, 18 horas |
|
Primeiras Espécies Humanas (Homo erectus) |
2.000.000 anos |
1 hora, 17 minutos |
|
1908: Início da Grande Destruição (Lumber) |
120 anos |
0,28 segundos (~16,8 milésimos de min) |
Tabela 2:
Escala Temporal a partir da Crosta Terrestre (4,5 bilhões de anos)
Proporção:
4,5 bilhões de anos = 365 dias (1 ano)
|
Acontecimento |
Tempo Estimado |
Proporção no Ano (365 dias) |
|
Formação da
Crosta Terrestre |
4.500.000.000
anos |
365 dias (01 de janeiro,
00:00) |
|
Surgimento dos
Procariontes |
4.000.000.000
anos |
324 dias, 10
horas |
|
Início da
Existência das Araucárias |
250.000.000 anos |
20 dias, 6 horas |
|
Primeiras
Espécies Humanas (Homo erectus) |
2.000.000 anos |
3 horas, 53
minutos |
|
1908: Início da
Grande Destruição (Lumber) |
120 anos |
0,84 segundos (~50,45
milésimos de min) |
[1]
São assim chamadas porque suas sementes têm a forma de cones
ou pinhas. Essas sementes, por sua vez, ficam expostas, sem nenhum fruto ou
casca para protegê-las. As folhas geralmente são pequenas e em forma de agulha,
conservando-se verdes todo o ano (Wikipédia, 2022).
[2] No Período Cretáceo (145
milhões a 65 milhões de ano), surgiram as angiospermas, caracterizadas
pela presença de flores e frutos. Essas características contribuíram para que
essas plantas ocupassem rapidamente diversos ambientes em nosso planeta
(Wikipédia, 2022).
[3] Pela legislação ela é CR
– Critically Endangered (CR): É a categoria de maior risco atribuída pela
Lista Vermelha da IUCN para espécies selvagens. São aquelas que enfrentam
risco extremamente elevado de extinção na natureza. Há 2.169 animais e 1,957
plantas com essa avaliação (O ECO, 2014).
[4] Elaboradas pelo autor do
Texto, com auxílio de planilha Excel, aplicação de regra de três simples, e
fórmulas de conversão de unidades em medida de tempo.
[5] Estrada de Ferro São Paulo/Rio Grande: Em
1908 Percival Farquhar, através de sua holding Brazil Railway Company, adquiriu
o controle da Companhia de Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG).
Antevendo o enorme potencial de lucro que poderia obter com a exportação de
madeira das densas florestas milenares de araucária existentes na região (sob a
copa das araucárias havia imbuias com mais de 10 metros de circunferência) - em
terras que viria a receber como doação do governo federal e estadual no caso de
Santa Catarina (15 km de cada lado da ferrovia), nos termos do contrato de
concessão da ferrovia - já fundara, anteriormente, a Southern Brazil Lumber
& Colonization Company, que se tornou conhecida como a Lumber (FRAGA et
al., 2021).
[6] Procariontes: São seres
unicelulares, ou seja, formados por uma única célula. Esses organismos podem
ocorrer de maneira individual ou formar colônias. Em geral, são pequenos. As
bactérias, por exemplo, medem, com algumas exceções, de 0,2 µm (mícron:
milésima parte do milímetro) a 2 µm de diâmetro e de 2 µm a 8 µm de comprimento
(SANTOS, n.d.).









