terça-feira, agosto 04, 2026

Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros... A Máscara que Cai... (Parte XXIV)

 O Racismo Estrutural e a Resistência em Santa Catarina

Existe uma narrativa higienizada que insiste em retratar Santa Catarina como um refúgio de bem-estar infenso aos conflitos sociais e raciais que marcam o Brasil. Contudo, a rotina dos acontecimentos insiste em rasgar esse véu. O que testemunhamos no estado quase todos os dias não são "casos isolados", mas sim as manifestações visíveis e violentas de um racismo estrutural que opera tanto nas interações interpessoais quanto nos gabinetes do poder público.

A discriminação cotidiana se revela sem constrangimentos nas ruas e nos serviços essenciais. Recentemente, em um episódio emblemático de intolerância interseccional, um paciente foi preso em flagrante após proferir ofensas abertamente racistas, xenofóbicas e antissemitas contra um médico venezuelano e judeu no exercício de sua profissão. Não muito distante dali, o Poder Judiciário catarinense precisou ser acionado para determinar a remoção de conteúdos racistas publicados na internet contra a Miss Santa Catarina, demonstrando como as redes digitais se tornaram extensões de uma violência que tenta desumanizar e retirar a dignidade de corpos negros que ocupam espaços de destaque.

Entretanto, o racismo estrutural em Santa Catarina ganha contornos ainda mais graves quando deixa a esfera individual e se consolida na sanha legislativa e no uso do aparelho repressivo do Estado.

O ápice dessa investida institucional refletiu-se na tentativa de extinguir as cotas raciais nas universidades e instituições de ensino do estado — uma afronta direta à Constituição e às conquistas do movimento negro. Sob o pretexto de uma "igualdade" abstrata e cínica, a legislação buscou desmantelar o principal instrumento de reparação histórica e democratização do acesso ao ensino superior. Como resposta legal e necessária, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Justiça reestabeleceram a ordem constitucional, reafirmando que as ações afirmativas são legítimas e cruciais para a construção de uma sociedade justa.

Mais do que a aprovação da lei inconstitucional em si, a postura do poder político diante do contraditório escancarou a face mais autoritária dessa dinâmica. A mobilização da força policial por parte de parlamentares para repreender e prender manifestantes e lideranças que protestavam pacificamente contra o fim das cotas raciais explicita a lógica do estado catarinense: criminalizar a resistência e usar a máquina pública para silenciar a voz daqueles que exigem justiça social. Quando a polícia é acionada não para conter o racista, mas para prender quem se levanta contra o racismo, o recado institucional é inequívoco.

Combater o racismo em Santa Catarina exige parar de tratar a discriminação como mero desvio comportamental. É preciso encarar que a negação da história, o ataque às cotas e a repressão aos movimentos sociais fazem parte de um mesmo projeto de manutenção de privilégios. Dar nome a essas violências e denunciar o uso do poder público contra a igualdade é o primeiro passo para que Santa Catarina seja, de fato, um lugar para todos.



Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros... O Preço da Indiferença... (Parte XXIII)

O que as Operações Recentes de Julho nos Ensinam Sobre a Ética no Voto

A política não é um espetáculo distante; ela bate à porta das nossas cidades, entra nos postos de saúde e decide o futuro dos recursos que deveriam servir à coletividade. Quando o voto é encarado com leviandade ou distanciamento crítico, o custo não é apenas abstrato: ele é pago com serviços públicos sucateados e com o enriquecimento ilícito daqueles que deveriam servir ao povo.

Apenas no último mês de julho de 2026, uma sequência de operações policiais e do Ministério Público em Santa Catarina escancarou a profundidade das redes de corrupção que se infiltram na gestão municipal. Os dados investigados revelam que o desvio de conduta não tem bandeira única, mas tem um alvo muito claro: o cofre público.

A Operação Pão e Circo, deflagrada pelo GAECO, revelou fraudes na contratação de shows e eventos por meio de um suposto cartel entre empresários e agentes políticos. Com 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios, bloqueio de R$ 9 milhões em bens e o afastamento de gestores municipais, o nome da operação não poderia ser mais emblemático. Enquanto a população recebe o "entretenimento" custeado pelo Estado, bastidores espúrios loteiam o orçamento da cultura e do lazer.

Em paralelo, a Operação Gaiola Digital escancarou como a modernização e a tecnologia também podem ser instrumentalizadas para a fraude. As investigações apontam para a manipulação de editais de sistemas de gestão pública e pagamento de propina para favorecer empresas de tecnologia, com esquemas mantidos ao longo de anos. Alcançando prefeituras e empresários, a ação demonstra como a burocracia e a inovação são pervertidas quando a ética é deixada de fora da administração.

Ainda mais doloroso é o cenário revelado pelas investigações sobre fraudes na saúde em Timbó, onde esquemas estruturados na Secretaria Municipal de Saúde, atuantes ao longo de anos, fraudavam licitações no Vale do Itajaí e no Norte catarinense. Quando a corrupção atinge a saúde pública, ela deixa de ser apenas um crime financeiro para se tornar um atentado direto contra a vida e a dignidade das pessoas mais vulneráveis.

Esses episódios não devem servir ao desencanto ou ao cinismo de achar que "todos são iguais". Pelo contrário: devem funcionar como um alerta severo sobre o peso de cada escolha nas urnas.

Votar em candidatos éticos, com histórico transparente e compromisso real com a justiça social, não é uma opção moralista ou secundária. É a única salvaguarda democrática que possuímos para garantir que o dinheiro da saúde vá para os hospitais, que a tecnologia sirva à eficiência do serviço público e que a cultura não seja balcão de negócios para cartéis.

O combate à corrupção começa muito antes da chegada da polícia ou da emissão de mandados judiciais. Ele começa no momento em que depositamos nossa confiança em um projeto de sociedade. Escolher representantes comprometidos com o bem comum é o primeiro e mais fundamental ato de defesa da dignidade humana. 



segunda-feira, agosto 03, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... As Raízes da Desesperança... (Parte VIII)

 A Tragédia de Ceuta e a Sombra Inacabada do Colonialismo

Há acontecimentos que expõem, de forma nua e crua, as feridas não cicatrizadas da história. A tragédia humanitária registrada nesta primeira semana de agosto em Ceuta — com a corrida desesperada de mais de 50 mil pessoas tentando atravessar as fronteiras do enclave espanhol no norte da África — não é um evento isolado. Trata-se de um sintoma dramático de um processo estrutural profundo, cujas raízes remontam diretamente ao domínio e ao retalhamento europeu sobre o continente africano.

Para compreender o desespero de quem arrisca a própria vida nas águas de El Tarajal ou contra as cercas da fronteira, é preciso encarar a história sem eufemismos. Ceuta não é um acaso geopolítico; a sua própria existência como enclave europeu encravado no território africano é um fóssil vivo do colonialismo. Desde a tomada da cidade pelas forças portuguesas em 1415 até a posterior transferência para a coroa espanhola, a presença europeia no norte da África foi erguida sobre a lógica do domínio militar, da exploração econômica e do controle de rotas estratégicas.

O que a Europa assiste hoje nas suas fronteiras sul é a conta de um modelo de exploração que perdura sob novas roupagens. As dinâmicas do colonialismo não se encerraram com a independência formal dos países africanos no século XX. Elas se desdobraram em um sistema global de trocas desiguais, onde a riqueza e os recursos naturais continuam fluindo do Sul para o Norte, enquanto a miséria, o desemprego, a instabilidade institucional e a falta de perspectivas permanecem retidos no continente africano.

Quando dezenas de milhares de jovens marroquinos e subsaarianos se lançam ao mar ou às grades de Ceuta, eles não estão apenas buscando "melhores condições de vida"; estão fugindo da inviabilidade existencial criada por séculos de intervenções, espoliação e dominação econômica. Tratar essa tragédia apenas como uma questão de "segurança nacional", com muros mais altos, barreiras no mar ou repressão de fronteira, é ignorar deliberadamente a causalidade histórica.

A Europa ergueu os seus padrões de bem-estar social e infraestrutura sobre pilares edificados em terras ultramarinas. Ignorar a responsabilidade histórica dos processos coloniais no empobrecimento do Norte da África é um ato de cegueira moral.

O horror testemunhado em Ceuta exige mais do que notas oficiais de lamento ou reforço militar. Exige o reconhecimento de que o fluxo migratório é o espelho de um mundo que insiste em globalizar capitais e mercadorias, enquanto criminaliza a busca humana pelo direito mais fundamental: a sobrevivência.




quarta-feira, julho 29, 2026

As Insanidades Nossas de Cada Dia... A Aberração Orçamentária.... (Parte III)

 Como o Brasil Transformou as Emendas Parlamentares em uma Anomalia Mundial

Há práticas na política que desafiam a lógica e testam os limites da decência pública. No Brasil, poucas coisas exemplificam tão bem o colapso do planejamento governamental quanto o ecossistema criado em torno das emendas parlamentares. O que deveria ser um instrumento pontual de representação regional transformou-se em um monstro orçamentário que sequestrou os cofres públicos e ultrapassou todos os limites da civilidade.

Para compreender o tamanho do disparate, basta olhar para o resto do mundo. A destinação de recursos para bases eleitorais existe em outras nações, mas o modelo brasileiro é uma anomalia sem paralelo no planeta. Nos Estados Unidos, os chamados earmarks chegaram a ser banidos em 2011 por excessos de lobby e voltaram sob regras rígidas e limites financeiros estreitos. Em democracias europeias como a Alemanha, o parlamento propõe alterações marginais ou cortes, sem retalhar o orçamento. Já em países como Austrália e Chile, os parlamentares sequer possuem a prerrogativa de propor emendas que aumentem ou redirecionem despesas discricionárias.

No Brasil, porém, criou-se uma jabuticaba perversa sustentada por dois pilares destrutivos:

  1. A Impositividade Cega: O Poder Executivo é obrigado por lei a pagar o valor das emendas, o que retira do Estado a capacidade de planejar investimentos estratégicos de longo prazo para a nação.
  2. O Volume Desproporcional: Estudos do Insper apontam que a fatia do orçamento sob controle direto de deputados e senadores brasileiros supera, com folga, qualquer outra democracia rica ou emergente.

Como se o volume bilionário e a impositividade não bastassem, a criatividade fisiológica gestou aberrações ainda maiores, como as "Emendas Pix". O resultado dessa pulverização sem controle e sem projetos técnicos é o óbvio: irregularidades crônicas. Recentemente, o próprio Tribunal de Contas da União (TCU) identificou graves falhas na transparência e rastreabilidade dessas transferências diretas, dando prazos ao governo para tentar impor ordem em um sistema desenhado para ser opaco.

Trata-se de um sequestro do orçamento público. Enquanto áreas vitais como saúde, infraestrutura e restauração ambiental sofrem com a falta crônica de contingenciamento e planejamento de longo prazo, bilhões de reais são fatiados e distribuídos para atender ao mero paroquialismo e à reeleição de ocasião.

A humanidade e a gestão pública exigem rigor, planejamento e ética. Aceitar a captura do orçamento nacional por um balcão de negócios impositivo e descontrolado é aceitar a falência do próprio projeto de país. É preciso dizer basta a essa anomalia.



VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... A Conta da Insensatez.... (Parte XIII)

 A Urgência Climática e o Desmonte Ambiental no Congresso

A Terra não envia recados com cortesia; ela responde com fatos. A sucessão estarrecedora de tragédias climáticas que devasta o Sul do país — desde os ciclones devastadores de 2023 e a catástrofe sem precedentes de maio de 2024 (que atingiu 95% do território gaúcho) até as novas cheias e tornados que voltaram a atingir o Rio Grande do Sul — deixou de ser uma anomalia esporádica para se tornar um padrão assustador.

No entanto, insistir em culpar apenas fenômenos naturais como o El Niño é uma covardia intelectual. O El Niño pode ser o gatilho, mas a pólvora é fabricada pela mão humana. O que presenciamos no Brasil é a trágica aliança entre o aquecimento global e a deliberada omissão legislativa.

Enquanto a ciência grita que a conservação da cobertura vegetal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) é a única barreira capaz de amortecer enxurradas, conter deslizamentos e regular o microclima, o Congresso Nacional insiste em caminhar no sentido oposto. Nos últimos anos, assistimos a uma marcha acelerada para afrouxar o Código Florestal, flexibilizar o licenciamento ambiental e criar mecanismos que dificultam a aplicação e a cobrança de multas por infrações ambientais.

Criou-se no país uma sensação perigosa de impunidade para quem devasta. Ao enfraquecer o poder de fiscalização dos órgãos ambientais e anistiar passivos de desmatamento, parlamentares atuam como verdadeiros cupins da legislação de proteção da natureza. Cada hectare de floresta nativa derrubada, cada mata ciliar destruída e cada restrição fiscalizatória aprovada no Brasília têm um custo direto e imediato: o agravamento das enxurradas e o transbordamento dos rios que deixam milhares de famílias desabrigadas nos Vales, na Serra e nas regiões metropolitanas.

Não se trata de mero debate ideológico entre desenvolvimento e preservação. É uma questão elementar de sobrevivência econômica e humana. Negar a emergência climática e enfraquecer as leis de proteção ambiental em nome do lucro imediato de poucos é um ato de irresponsabilidade com as presentes e futuras gerações.

Enquanto os gabinetes em Brasília continuarem facilitando o desmatamento e inviabilizando as punições ambientais, o povo continuará pagando a conta com suas casas, suas memórias e suas vidas. A natureza já deixou claro que não negocia com o fisiologismo. Ou reconstruímos o rigor das nossas leis ambientais e a responsabilidade ecológica, ou continuaremos a contar os mortos e os destroços a cada nova tempestade.

A Lista da Vergonha: Quem escolheu a flexibilização (Lei 15.190/2025)?

O elenco dos nomes daqueles deputados catarinenses que votaram a favor do PL 2.564/2025; é o mesmo que votou a favor da flexibilização das regras de licenciamento ambiental no Brasil, que foi consolidada pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei Federal 15.190/2025), originada a partir do PL 2.159/2021. A legislação unificou as diretrizes do setor e entrou em vigor no início de 2026.

São representantes que, em vez de buscarem soluções para evitar desastres ambientais, preferiram facilitar o caminho para quem destrói o nosso bioma:

 Partido

Deputado(a)

PL

Caroline de Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão

MDB

Cobalchini, Luiz Fernando Vampiro, Pezenti

NOVO

Gilson Marques

PP

Coronel Armando

PSDB

Geovania de Sá

União

Fabio Schiochet




terça-feira, julho 28, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... De MANDELA a milei... (Parte VII)

O Ocaso da Grandeza e o Delírio da Insanidade

A história humana é um pêndulo que oscila entre a genialidade construtiva e a barbárie destrutiva. Houve tempos em que a arena política, mesmo em meio a conflitos profundos, era habitada por gigantes. Homens como Nelson Mandela, que transformaram o cárcere em um altar de reconciliação, provaram que a verdadeira grandeza humana reside na capacidade de transcender o próprio ego em nome do bem comum, da paz e do respeito institucional.

Hoje, porém, ao olharmos para o cenário sul-americano, somos forçados a questionar: o que aconteceu com a humanidade? Como permitimos que o espaço da alta política fosse capturado por figuras que substituem a diplomacia pelo insulto, a razão pelo delírio e a liturgia do cargo pela mais absoluta insanidade?

A recente passagem do presidente argentino, javier milei (letras minúsculas... não merece ser tratado como gente), pelo Brasil é um monumento a essa decadência. Comportando-se não como o chefe de Estado de uma nação irmã, mas como um militante insano e descontrolado, milei utilizou um evento partidário em São Paulo para agredir verbalmente o presidente do Brasil e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Não se trata de divergência ideológica, algo natural e saudável na democracia. O que assistimos foi um espetáculo de grosseria sem precedentes na história diplomática entre os dois países. Ao xingar o presidente Lula de "ladrão" e atacar o ministro Alexandre de Moraes, milei não demonstrou força ou coragem; demonstrou, sim, uma profunda "insanidade delirante".

A reação foi imediata e proporcional à gravidade do fato. O Itamaraty, em um gesto firme de defesa da soberania e do respeito institucional, convocou o embaixador argentino para explicações e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires. Até mesmo dentro da Argentina, a repulsa foi nítida: mais de 30 deputados de oposição assinaram um documento repudiando os ataques de milei ao Brasil, classificando-os como irresponsáveis.

O comportamento de milei é o sintoma de uma era onde a civilidade foi jogada no lixo e o toma-lá-dá-cá do fisiologismo internacional — simbolizado por sua fralda imunda e por Flavio Bolsonaro  — substituiu os projetos de Estado. Quando a insanidade delirante de um louco ocupa o lugar que deveria ser da genialidade e da grandeza humana, toda a humanidade perde. O silêncio diante de tamanha barbárie não é uma opção.



segunda-feira, julho 27, 2026

QUANDO ÁGUIAS VIRAM GALINHAS...

 Do Voo das Águias ao Chão do Cais: A Decadência Histórica do MDB

A história política do Brasil moderno poucas vezes assistiu a uma metamorfose tão trágica quanto a do MDB (antigo PMDB). O partido que um dia foi a alma da Redemocratização, o escudo da resistência democrática e o arquiteto da Constituição Cidadã de 1988 hoje se reduz a um condomínio de interesses regionais. Costumo dizer que o MDB foi gestado por águias que sabiam encarar os ventos fortes da história, mas que, ao longo do tempo, aceitaram o adestramento das conveniências rasteiras e terminaram no chão do fisiologismo.

Para compreender a gravidade do que ocorreu, é preciso olhar para a envergadura do seu ponto de partida. Nos anos mais duros do bipartidarismo imposto pela ditadura militar, homens da estatura de Oscar Passos — general da reserva que presidiu o MDB nos momentos de maior escuridão —, Tancredo Neves, Mario Covas, Teotônio Vilela, Dirceu Carneiro e Fernando Henrique Cardoso não faziam da política um balcão de negócios. Faziam dela um sacerdócio.

O ápice moral desse percurso esteve na figura do "Dr. Ulysses", Ulysses Guimarães. Erguendo o texto da Carta de 1988 contra os fantasmas do autoritarismo, Ulysses encarnou uma política feita de retidão, coerência e horizontes largos. Havia ali um projeto de país, um compromisso inegociável com as liberdades civis e a transformação social.

No entanto, à medida que a democracia se consolidou, o MDB passou por uma mutação silenciosa e devastadora. A legenda, que nascera como a grande frente ampla da cidadania, progressivamente abriu mão de qualquer identidade ideológica ou doutrinária para se converter em um "partido guarda-chuva". Trocou o protagonismo ético pela técnica da adesão a qualquer governo, à esquerda ou à direita, contanto que o preço cobrado em cargos, ministérios e orçamentos fosse pago.

Essa perda gradual de dignidade atingiu o seu ápice sob a liderança de Michel Temer e o grupo de cúpula que assumiu o comando da sigla. O MDB deixou de ser o motor da história para se transformar no símbolo máximo do "presidencialismo de coalizão" em sua versão mais degradada: o toma lá, dá cá. Denúncias de corrupção, operações policiais e a prisão de proeminentes caciques partidários sacramentaram o abismo moral. A sigla que antes abrigava os grandes oradores e construtores da República virou réu nas páginas policiais.

O golpe de misericórdia nessa trajetória histórica reflete-se na sua posição atual. Ao liberar os diretórios estaduais e renunciar a apoiar qualquer candidato à Presidência da República no cenário nacional, o MDB oficializou o seu próprio apequenamento. O partido que já teve a vocação de guiar a Nação agora admite, sem qualquer pudor, que não tem projeto para o Brasil. Virou uma colcha de retalhos fisiológica, preocupada apenas com a sobrevivência das suas oligarquias regionais e com as negociações do dia a dia no Congresso.

A história é implacável com as instituições que desonram a sua própria memória. O MDB jogou no lixo o legado inestimável dos seus fundadores. As águias de 1988 deram lugar ao pragmatismo rasteiro, deixando aos brasileiros que prezam a memória republicana apenas a indignação e a saudade de uma política que um dia soube voar alto.