Enquanto o Estado Sangra com a Corrupção, a Alesc Propõe um Retrocesso Civilizatório
Para qualquer catarinense lúcido e comprometido com
a justiça social, é impossível assistir ao atual cenário político do nosso
estado sem um misto de perplexidade e profunda indignação. Em uma afronta
direta à história, à dignidade humana e à própria ordem constitucional, a
Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) volta a articular uma
tentativa de desmantelar a política de cotas raciais, poucos meses após o
Supremo Tribunal Federal (STF) — o guardião máximo da Constituição Nacional —
sepultar juridicamente essa tese absurda.
Esse movimento parlamentar não é apenas um deboche
explícito aos poderes constituídos e às decisões da corte máxima do país; é uma
agressão deliberada e um tapa na face da população negra e parda,
historicamente submetida a séculos de opressão, exploração e humilhação
sistêmica. Ao tentar asfixiar as políticas de reparação e equidade racial,
setores do nosso legislativo acenam para velhos ideais de supremacia, operando
uma política que flerta abertamente com o autoritarismo e a exclusão social.
No entanto, o cinismo dessa agenda ganha contornos
ainda mais graves quando analisamos o que os deputados estaduais estão tentando
esconder. A obsessão em atacar as cotas raciais funciona como uma conveniente cortina
de fumaça para desviar a atenção do verdadeiro e vergonhoso recorde que
Santa Catarina ostenta: o de ser um estado assolado por um ecossistema de
corrupção sistêmica que sangra os cofres municipais.
Os Números do Escândalo: O Estado
dos "Prefeitos Presos"
Enquanto os legisladores gastam energia e recursos públicos
para tentar blindar privilégios históricos na educação e no serviço público, o
poder municipal catarinense desmorona diante de investigações policiais.
Desde agosto de 2020, Santa Catarina alcançou a
estarrecedora marca de 30 prefeitos presos em pleno exercício do mandato.
Isso significa que mais de 10% dos 295 municípios do estado tiveram seus
chefes do Executivo detidos por envolvimento em esquemas de corrupção, fraudes
em licitações e lavagem de dinheiro. A lista mais recente de capturas inclui o
prefeito de Balneário Piçarras, Tiago Baltt (MDB), alvo da Operação Regalo.
A distribuição partidária desses 30 prefeitos
presos revela que o lamaçal é amplo e democrático entre as forças políticas
tradicionais que dominam o estado:
Ø
MDB: 9
prefeitos presos
Ø
PP (Progressistas): 6 prefeitos presos
Ø
PL: 5
prefeitos presos
Ø
PSD: 4
prefeitos presos
Ø
Outras legendas (União Brasil, Patriota, Republicanos, Podemos, PT e PSDB) somam as
demais prisões.
A Epidemia de Operações em 2026:
A Verdadeira Urgência de SC
Apenas no primeiro semestre de 2026, uma avalanche
de operações do Ministério Público (MPSC), do Gaeco, do GEAC e da Polícia
Federal demonstrou que a máquina pública catarinense está sequestrada por
cartéis e esquemas de propina de norte a sul do estado:
ü
Operação Gaiola Digital (Julho de 2026): Desmantelou fraudes e
direcionamento de licitações na contratação de softwares de gestão pública em
importantes cidades como Blumenau, Rio do Sul e Lages.
ü
Operação Pão e Circo (Julho de 2026): Expôs um cartel milionário no setor de eventos que
fraudava shows municipais em cerca de 18 prefeituras catarinenses, resultando
no afastamento do prefeito de Governador Celso Ramos e no bloqueio de R$ 9
milhões em bens.
ü
Operação Estoque Zero (Julho de 2026): Deflagrada pela Polícia Federal na região serrana
(Lages e São José do Cerrito), revelou um esquema de lavagem de dinheiro e
descaminho de eletrônicos sem nota fiscal, bloqueando mais de R$ 14,5 milhões
dos envolvidos.
ü
Operação Benaia (Junho de 2026): Flagrou corrupção aduaneira e lavagem de dinheiro
envolvendo um servidor da Receita Federal em Itajaí que favorecia empresários
mediante propina.
ü
Operação Regalo (Maio de 2026): Investigou fraudes pesadas em contratos de obras
públicas, levando à cadeia prefeitos e agentes do alto escalão municipal.
Essa estrutura criminosa de assalto ao erário não
poupa serviços básicos: a gigantesca Operação Mensageiro (que sozinha
levou 17 prefeitos à prisão) revelou um esquema bilionário de propinas até no
lixo que é coletado em nossas cidades.
Concluindo: Prioridades
Invertidas e Cumplicidade Moral
A lição que fica para a sociedade catarinense é
nítida. Nossos legisladores não estão preocupados em construir um estado mais
justo, moderno e eficiente. Se estivessem, estariam propondo comissões de inquérito,
endurecendo o controle de contratos públicos, fiscalizando as licitações
viciadas de TI e os shows superfaturados que anestesiam o interior catarinense.
Em vez de focar no combate à corrupção endêmica que
desvia o dinheiro da saúde, da segurança e das estradas dos catarinenses, a
Alesc prefere reviver batalhas ideológicas derrotadas na Justiça, cujo único
propósito prático é atacar os direitos da população negra para agradar a sua
base mais radicalizada.
O ataque às cotas raciais em Santa Catarina é um
insulto à história, mas é também um ato de covardia política. É a elite
governante tentando legislar sobre o preconceito para que ninguém preste
atenção nos camburões da polícia estacionados na porta das prefeituras. Não
passarão. A lucidez democrática exige que continuemos denunciando o circo
legislativo e exigindo honestidade de quem deveria estar servindo ao povo, e
não se servindo dele.












