terça-feira, junho 30, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... (Parte IX)

 O Mundo Planta Bilhões de Árvores; o Brasil Tenta Desarmar os Satélites

Enquanto o planeta corre contra o relógio das mudanças climáticas, desenhando megaprojetos de restauração ecológica, a política brasileira parece caminhar na contramão da história e da ciência. O contraste é violento. De um lado, nações investem fortunas e mobilizam exércitos de voluntários para cobrir a terra de verde. De outro, o Congresso Nacional brasileiro articula o enfraquecimento dos mecanismos tecnológicos de fiscalização ambiental.

O exemplo mais recente dessa desconexão com o futuro é a tramitação do Projeto de Lei (PL) 2.564/2025 na Câmara dos Deputados. Conhecido criticamente como o "PL dos Embargos Remotos", o projeto visa proibir ou dificultar as autuações automáticas feitas por órgãos ambientais (como Ibama e ICMBio) baseadas exclusivamente em imagens de satélite geoespaciais. Trata-se de um ataque direto ao coração da fiscalização moderna. Com fiscais de campo escassos, o monitoramento remoto é a única linha de defesa ágil para paralisar desmatamentos ilegais antes que o dano seja irreversível.


A Visão Global: O Esforço Coletivo pela Vida

Para entender o tamanho do nosso retrocesso, basta olhar para o cenário internacional. O mundo civilizado compreendeu que a segurança nacional e econômica do século XXI depende da estabilidade climática. Iniciativas integradas à Trillion Tree Campaign (Campanha Trilhão de Árvores) mostram governos agindo de forma radical pela restauração:

ü  Etiópia: Lançou em 2019 um projeto monumental com a meta de plantar 20 bilhões de árvores, tornando-se um dos líderes globais em reflorestamento massivo e restauração de ecossistemas.

ü  China: Financia megaprojetos históricos como o Grain for Green e a sua própria "Grande Muralha Verde", plantando bilhões de árvores para conter o avanço do Deserto de Gobi e mitigar tempestades de areia e erosões.

ü  Índia: Através de campanhas como o Van Mahotsava, mobiliza alianças voluntárias e regionais para plantar centenas de milhões de mudas, revitalizando paisagens rurais e urbanas.

ü  A Grande Muralha Verde da África: Liderada pela União Africana na região do Sahel, envolve múltiplos países em um esforço continental para restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas através de um mosaico transcontinental verde.

ü  Vietnã: Adotou um plano nacional rígido com a meta clara de plantar 1 bilhão de árvores para proteger seu solo e biodiversidade.

Esses países entenderam que dados de satélite, tecnologia e florestas em pé são ativos de sobrevivência. Mas, o que faz a bancada federal de Santa Catarina diante disso?


O Voto Catarinense: Quem Escolheu Desarmar a Fiscalização?

Sob o manto do "direito de defesa" e atendendo a pressões corporativistas do setor ruralista tradicional, a ampla maioria dos deputados federais de Santa Catarina votou A FAVOR do PL 2.564/2025, endossando a restrição da fiscalização por satélite:

Ø  Caroline de Toni (PL-SC)

Ø  Cobalchini (MDB-SC)

Ø  Coronel Armando (PP-SC)

Ø  Daniel Freitas (PL-SC)

Ø  Daniela Reinehr (PL-SC)

Ø  Geovania de Sá (PSDB-SC)

Ø  Gilson Marques (Novo-SC)

Ø  Luiz Fernando Vampiro (MDB-SC)

Ø  Pezenti (MDB-SC)

Ø  Ricardo Guidi (PL-SC)

Ø  Zé Trovão (PL-SC)

Em contrapartida, a resistência a esse retrocesso na bancada do estado foi minúscula, representada apenas pelos votos contrários de Ana Paula Lima (PT-SC) e Pedro Uczai (PT-SC).


O Choque Jurídico e a Insegurança do Amanhã

O argumento dos defensores do projeto é de que os embargos remotos violam a ampla defesa. Trata-se de uma interpretação torpe e perigosa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), através da Súmula 618, já pacificou que o direito ambiental se rege pelo princípio da precaução (in dubio pro natura). Na dúvida, protege-se o ecossistema primeiro, investigando-se os detalhes depois. Afinal, uma floresta centenária derrubada não pode ser colada de volta após anos de litígio judicial.

Legislar para "cegar" o Estado diante de crimes ambientais não é defender o produtor; é blindar o infrator ilegal e queimar a reputação internacional das exportações brasileiras. Enquanto o mundo planta bilhões de árvores para segurar o deserto e as tempestades, a maioria dos parlamentares catarinenses preferiu assinar um salvo-conduto para o retrocesso.

O projeto agora aguarda apreciação no Senado. Resta saber se o bom senso e a visão de futuro vão prevalecer, ou se continuaremos isolados, assistindo ao mundo se reflorestar enquanto sabotamos nossas próprias defesas territoriais.

 

A Lista da Vergonha: Quem escolheu a flexibilização (Lei 15.190/2025)?

Observem (abaixo) que o elenco dos nomes daqueles deputados que votaram a favor do PL 2.564/2025 (acima); é praticamente o mesmo que votou a favor da flexibilização das regras de licenciamento ambiental no Brasil, que foi consolidada pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei Federal 15.190/2025), originada a partir do PL 2.159/2021. A legislação unificou as diretrizes do setor e entrou em vigor no início de 2026.

São representantes que, em vez de buscarem soluções para evitar desastres ambientais, preferiram facilitar o caminho para quem destrói o nosso bioma:

 Partido

Deputado(a)

PL

Caroline de Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão

MDB

Cobalchini, Luiz Fernando Vampiro, Pezenti

NOVO

Gilson Marques

PP

Coronel Armando

PSDB

Geovania de Sá

União

Fabio Schiochet




sábado, junho 27, 2026

PROJETO “VOZ ÚNICA”: Entre o Pragmatismo Útil e a Politicalha Manipuladora... ou... o Lado Bom e o Lado Podre desta iniciativa...

 O "Voz Única": Pragmatismo Produtivo ou Blindagem Política?

Em Santa Catarina, o projeto Voz Única, capitaneado pela FACISC e seus parceiros, apresenta-se como a bússola para o desenvolvimento do estado. A iniciativa propõe colher, na ponta, as demandas dos setores produtivos — comércio, indústria e agronegócio — para entregá-las como um roteiro aos governantes. À primeira vista, o discurso é de eficiência: diálogo entre municípios, estado e união, além da busca por soluções via Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Contudo, ao analisar a "voz" que o projeto ecoa, percebemos um silêncio ensurdecedor: não há ali a voz da sociedade civil organizada, dos movimentos sociais ou das classes trabalhadoras que, embora participem de conselhos e sindicatos, raramente detêm a caneta que dita a agenda do "Voz Única". O que temos, na verdade, é um projeto que atua na fronteira entre a necessidade real de infraestrutura e uma politicalha manipuladora.


1. A Mídia e o "Blindado" Catarinense

Sob a ótica de Noam Chomsky, a mídia catarinense cumpre o papel de "manter a ordem" através da fabricação do consentimento. É notável como a cobertura do projeto foca quase exclusivamente nas carências de rodovias federais — um problema inegável, mas estrategicamente eleito. Ao concentrar o desgaste na esfera federal, a mídia "boca alugada" poupa deliberadamente o governo estadual, que, municiado por um orçamento bilionário em propaganda, permanece imune a qualquer questionamento sério sobre suas próprias falhas de gestão.


2. O "Engenho da Consentimento" de Bernays

Seguindo Edward Bernays, a "preocupação" do empresariado com a mobilidade não é apenas filantropia econômica; é propaganda. Em anos eleitorais, o medo é um ativo valioso. O objetivo oculto não é apenas consertar estradas, mas gerar um desgaste calculado contra candidatos progressistas, rotulados como inimigos do desenvolvimento. Vende-se a ideia de que o "setor produtivo" (o "eu") é quem carrega o estado, e que qualquer visão de mundo diferente da sua é uma ameaça ao progresso.


3. O Breviário da Bajulação

Como bem descreveu o Cardeal Mazzarino (ou Nazarin) em seu Breviário dos Políticos, a necessidade de bajulação é a arte da sobrevivência corporativista. O empresariado catarinense, em suas elites articuladas, cultiva o acesso aos candidatos de direita não por uma abstração ideológica, mas para garantir que o Estado continue sendo um balcão de negócios privados. É uma simbiose onde a "voz" da federação se confunde com a "voz" do poder executivo estadual.


4. A Assimetria como Método (Goebbels e o Mito dos 16%)

Por fim, não podemos ignorar a tática goebbeliana da repetição: a mentira de que a União devolve apenas 16% dos impostos recolhidos. Essa cifra, desprovida de rigor técnico e amplamente propagada pela base aliada ao governo estadual, serve a um propósito separatista e infantil. Ela desumaniza o debate, fomentando desde discursos que flertam com o separatismo ("O Sul é o meu país") até encenações patéticas de bravata contra o MST. O objetivo é claro: criar um inimigo externo para que o cidadão não veja o inimigo interno — a ineficiência administrativa e o uso político dos recursos públicos catarinenses.


Concluindo: Quem realmente fala por Santa Catarina?

O projeto "Voz Única" tem méritos técnicos no mapeamento de gargalos, mas falha gravemente ao se colocar como o porta-voz exclusivo de um estado plural. Enquanto a agenda for construída para poupar o "poder local" e demonizar a "esfera federal" (em nome de uma narrativa de classe), o desenvolvimento catarinense continuará sendo refém de uma visão de mundo estreita, corporativista e, acima de tudo, manipuladora.

Precisamos de uma "Voz Única"? Talvez. Mas, para ser autêntica, ela precisaria começar a ouvir quem, hoje, é obrigado a escutar em silêncio.




quarta-feira, junho 24, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... A Anatomia da Crença Cega... (Parte V)

 Entre as Vulnerabilidades Humanas e a Mecânica da Lavagem Cerebral

É um erro comum e elitista associar a crença em profetas apocalípticos, videntes de redes sociais ou líderes religiosos de impérios neopentecostais à falta de instrução formal ou à pobreza. 

Figuras tão distintas entre si — desde o misticismo popular de Vó Bahiana, passando pelas profecias geopolíticas de Baba Vanga, até o poderio de massas do Bispo Edir Macedo — arrastam multidões de todas as classes sociais. Empresários, intelectuais, políticos e cidadãos comuns dividem o mesmo teto quando o assunto é a busca por respostas no sobrenatural.

Para entender esse fenômeno, precisamos olhar para duas engrenagens que se encaixam perfeitamente: as necessidades psicológicas inerentes ao ser humano e a mecânica científica daquilo que chamamos popularmente de lavagem cerebral — um termo cunhado na década de 1950 pelo jornalista Edward Hunter para traduzir a expressão chinesa hsi-nao ("limpeza da mente").


Parte I: O Terreno Fértil – Por que Cremos?

Nossa mente não foi projetada para lidar bem com o caos. Diante disso, essas lideranças oferecem analgésicos existenciais para dores universais:

·         A Intolerância à Incerteza: O cérebro humano anseia por previsibilidade. Quando Baba Vanga dita o destino geopolítico do mundo ou Vó Bahiana prevê a vida de celebridades ou a abdução de 700  pessoas durante a copa do mundo, elas mitigam a ansiedade coletiva. Conforta mais crer em um futuro desenhado (mesmo que trágico) do que aceitar a aleatoriedade da vida.

·         A Simplificação dos Problemas: Crises financeiras, divórcios e doenças complexas exigem esforço e geram frustração. Atribuir esses reveses a "forças espirituais", "encostos" ou "carma" simplifica a narrativa. Se a causa é puramente espiritual, a solução também se torna mágica: um ritual, um amuleto ou um sacrifício financeiro específico.

·         O Desespero nos Limiares da Vida: Quando o dinheiro, a medicina tradicional ou a ciência falham, o pensamento racional perde o monopólio. Diante de uma falência iminente ou de um diagnóstico terminal, a necessidade de esperança faz qualquer promessa milagrosa parecer viável.


Parte II: A Mecânica Científica do Controle Mental

Diferente do que o cinema sugere, o controle mental não envolve poções ou hipnose mística; trata-se da aplicação sistemática e cruel de pressões sociais e psicológicas. Cientificamente, esse processo de reforma do pensamento estrutura-se em três etapas fundamentais:

[Desestruturação]    [Mudança]    [Consolidação]
(Quebra da identidade)  (Introdução de dogmas)  (Nova rotina/Defesa ativa)

1.    Desestruturação (Descongelamento): O primeiro passo é fragilizar a base da vítima. Através do isolamento de sua rede de apoio tradicional (família e amigos), o grupo ou líder ataca a autoestima e o senso de realidade do indivíduo. Em cultos extremistas ou relacionamentos abusivos, isso é potencializado por exaustão física, medo e indução de culpa.

2.    Mudança (Introdução de Novas Crenças): Com as referências do mundo exterior desfeitas, a pessoa é apresentada a uma "nova verdade". O manipulador alterna punições severas (ameaças de castigo divino ou rejeição) com demonstrações intensas de afeto e recompensa. Esse bombardeio emocional cria o chamado vínculo traumático.

3.    Consolidação (Recongelamento): A nova identidade é cimentada por meio de rotinas rígidas, repetição exaustiva de dogmas e a sensação de pertencimento ao novo grupo. A pessoa deixa de ser uma vítima passiva e passa a defender ativamente aquela realidade artificial, passando a policiar os outros membros.


O Alento da Ciência: O Controle não é Permanente

Apesar do impacto devastador sofrido por indivíduos que entregam suas fortunas, autonomias e decisões a esses "gurus", a literatura científica traz um dado reconfortante. Revisões de pesquisas (como as publicadas na rede SciELO) comprovam que os efeitos da lavagem cerebral não alteram a biologia anatômica do cérebro e não são irreversíveis.

Trata-se de uma modulação severa do comportamento baseada em estresse, medo e recompensa. Quando o indivíduo é retirado do ambiente coercitivo, quebra o isolamento e é acolhido por um convívio social saudável e racional, o seu senso crítico original e suas antigas crenças tendem a retornar gradativamente.

(Nota curiosa: Enquanto na psicologia o termo carrega essa carga de manipulação, na biologia médica a "lavagem cerebral" refere-se a algo vital e positivo: o processo natural do sistema glinfático, que limpa toxinas do nosso cérebro durante o sono profundo).

Concluindo

Videntes, clarividentes e bispos midiáticos não operam milagres; eles operam a psicologia humana. Eles conhecem as nossas faltas e montam palcos perfeitos para as nossas necessidades de pertencimento e controle. Compreender que o controle mental é uma técnica terrena e sistemática é o primeiro passo para blindar nossa mente e proteger nossa liberdade de escolha contra os mercadores da fé e da ilusão.



Enquanto isso... no mais Nazifascista e Corrupto dos Estados Brasileiros...... As Duas Faces da Mesma Degradação... (Parte XXI)

 A Captura Institucional pela Corrupção e a Escalada do Extremismo em Santa Catarina

Santa Catarina frequentemente se orgulha de seus índices econômicos, de seu IDH e de uma narrativa de eficiência e ordem. No entanto, por trás da vitrine da prosperidade, o Estado enfrenta um paradoxo angustiante e desmotivador. Duas crises paralelas, mas profundamente conectadas pela falência ética, corroem a sociedade catarinense: de um lado, a sofisticação de esquemas de corrupção que assaltam cofres públicos; de outro, a face violenta e constrangedora do preconceito, do racismo e das células neonazistas que insistem em florescer em solo catarinense.

Examinar essa realidade não é um ato de desamor ao Estado, mas um dever cívico urgente. A impunidade e a barbárie caminham juntas, e os desdobramentos recentes mostram que o verniz da ordem está rachando.


A Sangria Administrativa: A Corrupção que Ataca os Mais Vulneráveis

O cenário da corrupção em Santa Catarina tem se mostrado sistêmico, alcançando desde pequenas prefeituras até a capital do Estado. A recente Operação Backstage, conduzida pela Polícia Civil (por meio da DEIC) como desdobramento direto da Operação Pecados Capitais, revelou um enredo cruel. O esquema, que envolve contratos na ordem de R$ 21 milhões na Secretaria Municipal de Assistência Social de Florianópolis, mirou justamente os serviços destinados à população de rua e ao Restaurante Popular.

O modus operandi desmascarado expõe o conluio entre servidores públicos, ex-gestores e organizações sociais (como a NURREVI e a AMINC). Valendo-se de pareceres ideologicamente falsos para desclassificar concorrentes legítimos, o grupo direcionava chamamentos públicos. Trata-se da corrupção em sua face mais perversa: aquela que retira o prato de comida do faminto e o teto do desamparado para inflar bolsos privados.

Esse cenário de fraude generalizada não é isolado. A Operação Tríade, deflagrada pelo GAECO e pelo GEAC, escancarou uma rede de três empresários e agentes públicos operando em 13 municípios catarinenses para impedir a concorrência em licitações, resultando no bloqueio judicial de milhões em bens. A mensagem que essas operações deixam é clara: a administração pública catarinense vem sendo sistematicamente loteada por máfias corporativas.


A Barbárie Social: Do Racismo Judicializado ao Extremismo Neonazista

Enquanto o patrimônio público é saqueado nos bastidores, as ruas e as redes sociais catarinenses testemunham o avanço de comportamentos nazifascistas e de uma violência cega, alimentada pelo ódio e pela intolerância.

A hostilidade que se disseminou no Estado reflete-se em episódios cotidianos e institucionais. Recentemente, a Justiça de Santa Catarina precisou intervir para ordenar a remoção de comentários racistas desferidos contra uma Miss, expondo o preconceito escancarado que criminosos destilam na internet sob o manto do anonimato. A violência também transborda para o cotidiano de forma desproporcional, como no caso do cliente que tentou matar o dono de uma loja em razão do preço de uma cerveja, demonstrando a banalização absoluta da vida humana.

O diagnóstico mais alarmante, contudo, está na articulação estruturada do extremismo. A denúncia do Ministério Público contra 14 integrantes de uma célula neonazista no Estado revelou um dado estarrecedor: o grupo contava com a participação de advogados e, inclusive, de policiais. Quando agentes da lei — que deveriam jurar proteção à sociedade e à Constituição — alinham-se a ideologias de supremacia e ódio, a segurança pública perde sua legitimidade e o Estado flerta com o abismo.


O Nexo da Degradação: A Crise do Pacto Civilizatório

Não há separação real entre o empresário que frauda uma licitação de assistência social e o extremista que ostenta símbolos nazistas ou comete atos racistas. Ambos partilham da mesma premissa nefasta: a convicção de que existem cidadãos de "primeira classe" que podem tudo, e "os outros", que podem ser explorados, roubados ou eliminados. A corrupção enfraquece as instituições, e instituições fracas não conseguem conter o avanço do fascismo e da violência.

Para Santa Catarina reencontrar a sua dignidade, é preciso ir além do discurso do crescimento econômico. O combate à corrupção promovido pelo Ministério Público e pelas delegacias especializadas deve ser implacável, mas precisa ser acompanhado por um processo profundo de autocrítica social. É intolerável aceitar o neonazismo e o racismo como "exceções folclóricas".

O verdadeiro desenvolvimento de um povo não se mede pelo PIB, mas pela integridade de seus governantes e pelo respeito absoluto aos direitos humanos e à diversidade de sua gente.




terça-feira, junho 23, 2026

VERGONHA... VERGONHA... VERGONHA: A Bajulação Delirante que manchou... para sempre... a HONRA do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina... (Parte VI)

 

A Desvalorização da Honra: O Fisiologismo Político e o Resgate de Mazarino nas Condecorações Militares


A história do Corpo de Bombeiros Militar no Brasil carrega uma tradição de honra que remonta ao Império. Oficialmente, o ato de condecorar aqueles que se destacaram por serviços relevantes ou atos de bravura nasceu com o Decreto Imperial nº 1.775, de 2 de julho de 1856, que instituiu a Medalha de Bravura e Bons Serviços. Desde então, as medalhas militares sempre foram tratadas como o ápice do reconhecimento público: um símbolo carregado de moral, ética e critérios estritamente meritocráticos. No entanto, quando a concessão de uma honraria rompe com essa tradição secular para servir de moeda de troca política, o que deveria ser um tributo à história transforma-se em um espetáculo de bajulação.

A recente outorga da Medalha Comemorativa dos 100 Anos do CBMSC ao vereador carioca Carlos Bolsonaro, assinada pelo então Comandante-Geral (e atual Secretário de Proteção e Defesa Civil), Coronel Fabiano de Souza, acendeu um legítimo debate sobre os limites da impessoalidade na administração pública. A ausência crônica de qualquer histórico de serviços prestados pelo parlamentar fluminense à segurança pública de Santa Catarina ou à própria corporação militar gerou indignação interna, críticas no parlamento estadual e, inevitavelmente, uma ação popular na Justiça buscando a anulação do ato.


O Critério Técnico Subordinado ao Padrinho Político

Os manuais e regulamentos do CBMSC, unificados pela Lei Estadual nº 13.385/2005, são claros: para ser agraciado, o indivíduo deve ter se destacado no desenvolvimento da Corporação ou prestado serviços de notável relevância para a sociedade catarinense. Ao ignorar o trâmite ético e técnico em favor de um agente político sem vínculos com o estado, a atual gestão estadual demonstra um alinhamento que ultrapassa a barreira da confiança institucional e adentra o terreno do fisiologismo.

O Coronel Fabiano de Souza, homem de estrita confiança operacional do Governador Jorginho Mello, parece ter utilizado a prestigiosa medalha centenária não para condecorar o mérito, mas para agradar diretamente ao seu padrinho político, usando a máquina do Estado para chancelar simpatias partidárias e familiares do chefe do Executivo.


A Atualidade do Cardeal Mazarino e a Política da Dissimulação

Esse comportamento encontra perfeito diagnóstico na literatura política clássica. No século XVII, o Cardeal Mazarino imortalizou em seu Breviário dos Políticos as máximas do "simula e dissimula" como pilares para a manutenção do poder. Mazarino ensinava que, para sobreviver e ascender no tabuleiro político, o cortesão deve saber manipular o consenso e praticar a adulação sistemática daqueles que detêm a caneta ou a influência regional.

A entrega desta medalha é a aplicação prática e anacrônica do preceito de Mazarino: bajula-se o aliado do superior e dissimula-se a ausência de interesse público sob o manto de uma falsa solenidade institucional. O objetivo real não é homenagear o progresso da segurança catarinense, mas angariar a simpatia e o apoio das esferas de poder que orbitam o governador.


O Custo para a Instituição

Quando uma corporação que goza de altíssima credibilidade perante a sociedade permite que suas condecorações sejam instrumentalizadas como mimos políticos, o prejuízo reputacional é imenso. Humilha-se o bombeiro de linha de frente que arrisca a vida em atos de bravura real e rebaixa-se o valor de uma medalha que deveria ser ostentada com orgulho inestimável.

A segurança pública e as instituições militares pertencem ao Estado e ao povo de Santa Catarina, não aos humores, interesses ou projetos de poder de governantes de ocasião. Que a Justiça restabeleça o império da moralidade administrativa, pois a história heróica do CBMSC não merece ser balcão de negócios para o compadrio político.




É o Custo BOLSONARO... Estúpido... (Parte IV)

 

A Ilusão Ideológica bolsonarista: Como a Submissão ao Trumpismo Cobrou o Seu Preço no Comércio Exterior Brasileiro

O pragmatismo e a defesa irrestrita dos interesses nacionais deveriam ser as bússolas de qualquer política externa de Estado. No entanto, a história recente do Brasil nos mostra o custo amargo de quando a diplomacia é sequestrada por um alinhamento ideológico cego. O recuo histórico das exportações brasileiras para os Estados Unidos não é apenas um reflexo da agressividade comercial norte-americana; é a evidência clara do fracasso estratégico promovido pelo clã Bolsonaro, que escolheu a submissão pessoal em detrimento da soberania econômica do país.

Análises recentes da jornalista Miriam Leitão revelam um cenário preocupante: a participação dos EUA nas exportações brasileiras despencou para irrisórios 9,3% do total comercializado pelo Brasil — atingindo o menor nível em 30 anos. Essa retração acelerada joga por terra a narrativa de que a proximidade ideológica com Donald Trump traria benefícios reais para o setor produtivo nacional.

A Influência Negativa do Clã Bolsonaro: Silêncio Obsequioso e Comércio Assimétrico

O motor imediato dessa derrocada foi o pacote de pesadas barreiras e tarifas alfandegárias de importação impostas pelo governo de Donald Trump, que chegaram a atingir o patamar de 50% sobre produtos estratégicos. Essa barreira tarifária tornou os produtos manufaturados e semi-elaborados do Brasil proibitivos e sem competitividade na fronteira americana.

A ironia reside no comportamento do clã Bolsonaro diante desse ataque direto à nossa economia. Em vez de uma reação altiva e da busca por salvaguardas junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), o que se viu foi a manutenção de uma postura de vassalagem. O resultado dessa passividade foi um comércio profundamente assimétrico: enquanto as nossas exportações para a maior potência do mundo desabaram, o Brasil continuou aumentando as importações de produtos vindos dos EUA, operando um crônico e agravado déficit comercial com os norte-americanos.


Da Liderança à Margem: Os Números do Recuo

Para entender a gravidade do colapso, basta olhar o retrocesso histórico em curto intervalo de tempo. No início dos anos 2000, o mercado norte-americano chegou a concentrar entre 25% e 26% de tudo o que o Brasil exportava. Antes do recente impacto protecionista, essa participação ainda resistia em 12,4%. Cair para 9,3% significa que o Brasil perdeu um espaço vital de valor agregado.

Paralelamente, como aponta Miriam Leitão, há um fator estrutural de longo prazo: a nossa pauta exportadora acabou empurrada e cada vez mais dependente da China e do fornecimento de commodities. Ao abrir mão de disputar o mercado americano com produtos industriais de maior margem de lucro por pura incompetência diplomática, o país acelerou sua reprimarização econômica.


Concluindo: O Custo de Confundir Diplomacia com Idolatria

O caso das tarifas de Trump e do silêncio cúmplice da extrema-direita brasileira deixa uma lição pedagógica para o empresariado, para as cooperativas e para a gestão pública: governos passam, mas as relações comerciais de um país devem ser perenes e baseadas em dados frios, soberania e reciprocidade.

O clã Bolsonaro ofereceu aplausos e palanque político a um projeto ultranacionalista ("America First") que, por definição, visava estrangular concorrentes comerciais como o próprio Brasil. Ao confundir amizade pessoal e idolatria ideológica com política externa, o antigo governo entregou submissão e recebeu em troca a destruição de três décadas de inserção comercial no mercado americano. A reconstrução da nossa relevância global exige
profissionalismo, diversificação e, acima de tudo, o fim da diplomacia de joelhos.