O Exemplo do Nordeste na Educação e a Lição que o Sul Precisa Aprender
É recorrente observar na sociedade do Sul do
Brasil, por razões históricas, culturais e políticas, a perpetuação de um
preconceito velado — e por vezes ruidoso — em relação à região Nordeste.
Manifestações de arrogância cultural ou de superioridade socioeconômica
costumam tratar o Nordeste sob estereótipos de dependência, atraso ou escassez.
Trata-se de uma grande injustiça social que
ignora a riqueza cultural, a capacidade de inovação e, acima de tudo, o
protagonismo público que a região vem construindo nas últimas décadas.
O resultado mais recente do Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) oferece um choque de realidade nesses
preconceitos. Enquanto muitos discursos no Sul se amparam em indicadores do
passado, o Nordeste consolidou-se
como a principal referência nacional em políticas públicas de educação básica,
alfabetização na idade certa e gestão escolar de excelência.
Cidades e redes municipais nordestinas — com
orçamentos frequentemente inferiores aos de grandes municípios do Sul e Sudeste
— vêm dando uma verdadeira aula de eficiência, engajamento comunitário,
continuidade de políticas públicas de Estado e valorização docente.
Abaixo, republicamos na íntegra a reportagem
que detalha esse marco histórico da educação brasileira:
Os resultados do Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, principal indicador de qualidade de
educação do Brasil, mostraram que cidades do Nordeste estão com os melhores
resultados no ranking de ensino fundamental, incluindo os anos iniciais e anos
finais.
Quatro estados do Nordeste
figuraram entre as cidades com maiores notas nos índices de ensino fundamental,
tanto nos anos iniciais quanto nos anos finais. Contudo, quando se trata da
etapa ensino médio, o Nordeste surge um pouco mais tímido entre os estados com
melhores notas, sendo o Piauí com 4,9 em 3 º lugar, dividido com o Espírito
Santo; seguido de Pernambuco com 4,8; e o Ceará em 6º com 4,7.
Ao mesmo tempo, o Paraná é
quem ocupa o primeiro lugar no Ensino Médio, seguido de Goiás com notas
próximas. De todos os estados, o Distrito Federal foi o único que apresentou
uma retração de 0.1 no resultado entre 2023 e 2025.
Ensino Fundamental Anos
Iniciais
De acordo com os
resultados, apenas oito cidades de todo o país alcançaram nota 10 no Ideb 2025,
sendo todas divididas entre dois estados do Nordeste, sendo o Ceará com cinco
municípios, seguido de Alagoas, com três. O resultado mostra uma concentração
regional de desempenho na educação dos anos iniciais do ensino fundamental, que
correspondem do 1º ao 5º ano.
Entre as cidades com o
maior crescimento entre 2023 e 2025, destaca-se Novo Oriente de Minas, em Minas
Gerais, que teve o aumento de 4,6 pontos percentuais, subindo de 4,7 em 2023
para 9,3 em 2025, figurando nos melhores resultados do levantamento. O segundo
maior aumento foi em Araguairnha (MT), que migrou de 4,4 para 8,0, seguido de
Japurá (AM), de 4,4 para 7,6 em 2025.
Municípios com maior Ideb
no Ensino Fundamental - Anos iniciais
Coruripe (AL) - 10,0
Santana do Mundaú (AL) -
10,0
União dos Palmares (AL) -
10,0
Catunda (CE) - 10,0
Coreaú (CE) - 10,0
Cruz (CE) - 10,0
Pedra Branca (CE) - 10,0
Pires Ferreira (CE) - 10,0
Ensino Fundamental Anos
Finais
Quanto à etapa ensino
fundamental anos finais, que corresponde do 6º ao 9º ano, nenhuma cidade no
país conseguiu atingir a nota máxima. Contudo, Ceará e Alagoas também foram os
líderes em municípios com notas mais altas no Ideb 2025, com Deputado de Irapuan
Pinheiro em 1º lugar, seguido de Santana do Mundaú.
Vale destacar que Santana
do Mundaú figura em ambos os recortes com as notas mais altas do país do ensino
fundamental, apesar de ter tido uma retração de 0,1 entre 2023 e 2025 no
resultado dos anos finais.
O maior crescimento foi
apresentado em Cristino Castro, no Piauí, que teve o avanço de 3,6 pontos
percentuais, escalando de 3,0 para 6,6. Em sequência está Murici (AL) com 2,8
(subindo de 5,2 para 8,0).
Municípios com maior Ideb
no Ensino Fundamental - Anos finais
Deputado Irapuan Pinheiro
(CE) - 9,3
Santana do Mundaú (AL) -
9,2
Custódia (PE) - 7,5
Bom Jesus (PI) - 7,3
Santa Maria do Herval (RS)
- 7,0
Iporã do Oeste (SC) - 7,0
Conchal (SP) - 7,0
Reflexões
Finais: O Que Precisamos Aprender
Diante
dos fatos e dos dados apresentados pela matéria, cabem a nós, no Sul do Brasil,
três reflexões fundamentais:
1.
Humildade
Pedagógica e Institucional:
O verdadeiro progresso nasce do reconhecimento do mérito alheio. Em vez de
olhar para o Nordeste através das lentes do preconceito, as gestões públicas e
as comunidades do Sul deveriam enviar comitivas para estudar e replicar os
modelos de gestão educacional desenvolvidos em municípios como Sobral (CE) e em
tantas outras redes nordestinas.
2.
A Superação
do Preconceito pelo Conhecimento:
Os dados do Ideb mostram que talento, dedicação e inteligência governamental
não têm CEP. O estigma de "região atrasada" desmorona quando
confrontado com a realidade das salas de aula, onde crianças nordestinas
alcançam os melhores índices de aprendizagem do país.
3.
A Força da
Cooperação Interregional:
O Brasil só atingirá seu pleno desenvolvimento quando superarmos as divisões
regionais estéreis e o ufanismo local. O sucesso da educação no Nordeste é uma
vitória de todo o povo brasileiro e deve servir de inspiração para que todas as
regiões melhorem suas políticas públicas.
Reconhecer a grandeza e a liderança do Nordeste na educação não é apenas um dever de justiça histórica e moral; é o primeiro passo para que possamos edificar um país verdadeiramente integrado, civilizado e ético.








