A Anatomia do Fascismo Cotidiano no Brasil
Existe uma ilusão confortável no
debate público de que regimes autoritários e práticas fascistas são obra
exclusiva de uma elite política conspiradora ou de líderes populistas. Contudo,
a história e a realidade contemporânea teimam em provar o contrário.
Em seu seminal livro Os Carrascos
Voluntários de Hitler, o cientista político Daniel Jonah Goldhagen defende
que o extermínio promovido pelo nazismo só foi possível porque cidadãos comuns
integraram o sistema de livre e espontânea vontade, movidos por um ódio
enraizado e culturalmente compartilhado. Não eram meros "burocratas
cumprindo ordens", mas agentes convictos.
Ao mesmo tempo, no documentário Orwell:
2+2=5, o cineasta Raoul Peck resgata o alerta de George Orwell para nos
mostrar como a distorção da verdade e a aceitação do absurdo () sustentam o avanço autoritário e
paralisam a consciência moral da sociedade.
Quando olhamos para os fatos recentes
que marcam a conjuntura brasileira, a junção dessas duas teses se revela
assustadoramente perfeita. O fascismo no Brasil não é um espectro abstrato: ele
é praticado diariamente na ponta por "carrascos voluntários"
devidamente anestesiados pelo engano orwelliano.
1. O Fascismo da Vida Cotidiana: A Perseguição aos Semelhantes
Como apontou o jurista Wálter
Maierovitch, a perseguição, a retaliação e a ameaça contra quem vota ou pensa
diferente não é mera "polarização político-partidária"; trata-se de fascismo
em estado puro.
Essa violência se desdobra nas
relações cotidianas, onde o cidadão comum assume o papel de punidor moral do
seu vizinho, colega ou cliente:
- O
Feudo Médico: Profissionais da saúde acusados de
perseguir colegas de profissão e sugerir o boicote a pacientes por motivo
de posicionamento político. O juramento de Hipócrates cede espaço ao
julgamento ideológico, transformando a relação de cuidado em instrumento
de chantagem.
- A
Armadilha na Fé e na Caridade: Líderes religiosos que defendem
abertamente cortar cestas básicas e assistência social a famílias
vulneráveis que votaram em determinado candidato, espalhando fake news
e usando a fome como punição política.
- O
Assédio Econômico: Boicotes a empresas, demissões
discriminatórias e intimidações comerciais que tentam sufocar a
subsistência financeira de quem recusa o alinhamento ideológico
hegemônico.
Assim como no estudo de Goldhagen,
esses atores não estão sob coerção física para praticar o mal: eles o fazem
voluntariamente, convictos de que estão cumprindo um "dever moral"
contra um inimigo fabricado.
2. A
Ilusão do e a Mutilação do Sentido de Nação
Para que um "carrasco
voluntário" atue contra sua própria comunidade, a sua percepção da
realidade precisa ser profundamente manipulada. É aqui que entra o paradoxo de
Orwell levado ao paroxismo:
a) Subserviência
Antinacional: Bolsonaristas e extremistas ocupando perfis digitais de
autoridades estrangeiras (como Donald Trump) para mendigar uma
"colonização" ou intervenção externa no próprio Brasil. Trata-se da
corrosão completa do conceito de soberania nacional, fruto de uma lavagem
cerebral onde entregar o próprio país é vendido como "patriotismo".
b) Contradições
Econômicas e Ceticismo Seletivo: Enquanto a massa é entretida por
contendas ideológicas e pautas de costumes, decisões com impacto financeiro
direto — como o aumento de impostos sobre combustíveis aprovado por
governadores — passam longe do escrutínio e da indignação dessa mesma base
fanatizada. A narrativa manipulada seleciona o que deve ser motivo de raiva e o
que deve ser ignorado.
3. A Urgência da Resistência Cívica
A aceitação do absurdo () é o combustível da barbárie. Quando
permitimos que a discriminação por opinião política contamine o hospital, a
igreja, o ambiente de trabalho e a mesa de jantar, estamos pavimentando o
caminho para a erosão definitiva da democracia.
O documentário de Raoul Peck nos faz
um chamado urgente à resistência cívica. Não podemos normalizar a
covardia institucional nem o ódio cotidiano. Reconhecer que o fascismo no
Brasil não é apenas uma figura política no topo da esfera pública, mas uma
mentalidade difusa em milhares de "carrascos voluntários", é o primeiro
passo para confrontar a mentira e exigir o resgate da dignidade humana e do
Estado Democrático de Direito.













