O que a “passagem da boiada” tem a ver com a fúria do El Nino ?
A resposta para a sua dúvida é sim, existe uma
conexão direta e profunda, mas a forma como esses elementos se conectam
precisa ser dividida em duas engrenagens que se reforçam mutuamente:
- A engrenagem climática
global (o
El Niño propriamente dito).
- A engrenagem da
vulnerabilidade local (o estado dos nossos biomas e leis).
O El Niño não é provocado pelo desmatamento no
Brasil; ele é um fenômeno climático global natural. No entanto, o descaso
com os biomas e a fragilidade das leis funcionam como um "amplificador de
danos", transformando o que seria apenas uma variação do clima em um
desastre recorrente e devastador.
1. O El Niño: A
"Faísca" Global
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano
Pacífico Equatorial se aquecem acima da média. Isso altera a circulação dos
ventos em todo o planeta:
- No Sul do Brasil: Costuma bloquear as frentes
frias, acumulando massas de ar quente e úmido e provocando chuvas
volumosas e tempestades severas.
- No Norte e Nordeste do
Brasil: Bloqueia
a chegada de umidade, provocando secas severas e ondas de calor extremo.
O El Niño é a faísca. Mas o impacto real
dessa faísca depende do combustível que ela encontra no chão.
2. A Destruição dos Biomas: O
"Combustível" Local
Os biomas (Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado,
Pampa, Caatinga, Pantanal) funcionam como sistemas de amortecimento natural.
Quando os degradamos pelo superuso de recursos e substituição desordenada do
solo, destruímos a capacidade da natureza de regular o clima:
Ø
Efeito "Esponja" Perdido (Enchentes no Sul): Uma floresta preservada atua
como uma grande esponja. As copas das árvores amortecem a queda da chuva, e as
raízes e a matéria orgânica facilitam a infiltração da água no solo. Quando a
vegetação nativa é removida ou compactada pelo uso intensivo, a água da chuva
não infiltra: ela corre rapidamente pela superfície (escoamento superficial),
enchendo rios de uma só vez e causando enxurradas e deslizamentos muito mais
violentos durante episódios de El Niño.
Ø
Quebra da "Bomba de Umidade" (Secas na Amazônia/Cerrado): A Amazônia e o Cerrado
transpiram bilhões de litros de água por dia na atmosfera (os chamados Rios
Voadores), regulando as chuvas do país. O desmatamento desregula essa
umidade. Quando o El Niño traz uma seca natural, ele encontra uma floresta já
estressada e fragmentada, tornando-a vulnerável a incêndios de grandes
proporções que não ocorreriam em uma mata fechada e úmida.
3. Fragilidade das Leis e
Fiscalização: O Licenciamento do Risco
A legislação ambiental e a fiscalização (órgãos
como IBAMA, ICMBio e órgãos estaduais) são a linha de defesa jurídica do
patrimônio natural. Quando ocorrem retrocessos legais, flexibilização excessiva
do licenciamento ou sucateamento da fiscalização:
ü
Ocorre a ocupação de áreas de risco: Apagamento ou desrespeito às Áreas de Preservação
Permanente (APPs) — como topos de morros e matas ciliares ao longo dos rios —
permite que construções e lavouras avancem para locais que deveriam estar
protegidos para conter a erosão e a força das águas.
ü
Superuso de Recursos sem Mitigação: A exploração intensiva sem critérios de
sustentabilidade (como manejo inadequado do solo e retirada excessiva de água
de aquíferos) esgota a resiliência dos ecossistemas antes mesmo do evento
climático severo chegar.
Como entender a síntese de tudo
isso?
A forma mais simples de integrar esses fatores é
pensar em um sistema de proteção e estresse:
Impacto
do Desastre = Ameaça Climática (El Niño
/ Mudanças Climáticas)
Resiliência do Bioma X Proteção Legal/Governança
- O El Niño intensifica
a ameaça (chuva extrema ou seca extrema).
- O superuso e descaso com
os biomas destroem os mecanismos naturais de proteção do ecossistema.
- A fragilidade das leis
permite que a destruição continue e que as populações fiquem expostas nas
áreas de vulnerabilidade.
O resultado é que eventos climáticos que ocorrem há
milênios (como o El Niño) passam a ter efeitos desproporcionalmente mais
graves, frequentes e caros em termos de vidas humanas, perdas econômicas e
destruição ambiental.










