Asfalto de Papel: Como o Marketing do “Estrada Boa” Tenta Apagar o Passado e o Governo Federal
O cenário político de Santa Catarina tem sido
marcado por uma tática antiga, mas perigosa: a blindagem por meio da propaganda
institucional. O exemplo mais recente dessa conduta se reflete na postura do
governador Jorginho Mello ao atacar o presidente Lula, acusando-o de faltar com
a verdade sobre a proposta de investimentos de R$ 25 bilhões destinados à
infraestrutura do estado. Essa narrativa demagógica cumpre uma função clara:
tentar manipular a opinião pública para mascarar a ausência de protagonismo
próprio e o isolamento institucional da gestão estadual perante o governo
federal.
Enquanto o governador gasta energia em embates
retóricos, a máquina publicitária de Santa Catarina opera a pleno vapor. Sob o
manto de campanhas milionárias — inseridas no montante que já atinge a marca
histórica de R$ 444 milhões de dinheiro público investidos em publicidade
ao longo de seu mandato —, o governo tenta fixar a imagem de um realizador
obstinado através do programa “Estrada Boa”.
Contudo, ao confrontarmos os comerciais de
televisão com os relatórios técnicos e o histórico financeiro do estado, a
propaganda desmorona, revelando-se uma colcha de retalhos feita com o trabalho
alheio e sustentada por dívidas.
A Ilusão das Telas: Drones,
Concreto e Inflação Estatística
A estratégia de marketing do “Estrada Boa” segue
uma cartilha agressiva de comunicação. Os comerciais de rádio, televisão e
redes sociais são verdadeiras superproduções. Imagens aéreas de alta definição
captadas por drones mostram retroescavadeiras, rolos compressores e operários
em ritmo acelerado, aplicando asfalto ou concreto fresco sobre rodovias
antigas. O objetivo é transmitir uma sensação de dinamismo absoluto e urgência.
Essa estética é acompanhada por um discurso de
"reconstrução". Jorginho Mello aparece caminhando pelas rodovias
estaduais (SCs), conversando com caminhoneiros e afirmando ter tido "a
coragem de tirar as obras do papel", sugerindo que o estado viveu décadas
de abandono absoluto. Para impressionar o eleitorado, o marketing oficial infla
as estatísticas, propagando que o programa saltou o índice de rodovias em boas
condições de meros 20% para expressivos 95%, anunciando um pacote de R$ 5
bilhões.
O que a Propaganda Omite: A
Herança de Carlos Moisés
O que os comerciais de trinta segundos omitem de
forma deliberada é a continuidade administrativa. O programa “Estrada
Boa” não nasceu do zero; ele herdou uma robusta base técnica e financeira da
gestão anterior, comandada por Carlos Moisés.
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Projetos Prontos e Pagos: Muitas das ordens de serviço assinadas com pompa
pela atual gestão utilizaram exatamente os mesmos projetos executivos de
engenharia que foram licitados, elaborados e pagos entre 2021 e 2022.
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O Confisco do Plano 1000: Na gestão anterior, o "Plano 1000"
pulverizava recursos transferindo dinheiro diretamente para as prefeituras
executarem as obras. Jorginho Mello extinguiu esse modelo, cancelou os repasses
aos municípios e concentrou todo esse dinheiro no caixa central do Estado para
financiar as obras sob a sua própria marca, centralizando o dividendo político.
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O Caixa das Operações de Crédito: Os recursos estruturais que financiam as frentes
de trabalho já haviam sido engatilhados no passado. A atual gestão revisou
esses contratos e se apropriou dos fundos para carimbar o selo do novo governo.
O Contraponto dos Fatos:
Empréstimos, Rachaduras e Investigação
Ao contrário do que a publicidade faz parecer, as obras
não são custeadas por "economias próprias" da arrecadação do
governador. O programa é sustentado por pesados endividamentos públicos. O
marketing esconde que o “Estrada Boa” depende diretamente de financiamentos
de R$ 631,9 milhões junto ao BNDES (recurso do Governo Federal que Jorginho
tanto critica) e de negociações de US$ 300 milhões com o Banco Mundial.
Além disso, a realidade das rodovias passa longe da
perfeição exibida nas telas:
- Suspensão pelo Tribunal de
Contas (TCE/SC): O
órgão fiscalizador interveio e chegou a suspender pagamentos de contratos
que somavam R$ 150 milhões devido a graves falhas de sinalização,
fiscalização precária e, pior, trechos de asfalto novos que apresentaram rachaduras
e buracos poucos meses após a entrega.
- Inquéritos por Corrupção no
MPSC: A
27ª Promotoria de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina
instaurou inquéritos civis para apurar supostas práticas de corrupção
passiva e irregularidades contratuais envolvendo a Secretaria de Estado da
Infraestrutura e empreiteiras em trechos do programa, como as obras de
concreto na SC-477.
- As Obras Eternas: Enquanto a propaganda
celebra metas, parlamentares da oposição na ALESC e comunidades locais
expõem trechos esquecidos que se arrastam desde 2021 (como na SC-281),
exibindo menos de 10% de execução física e gerando isolamento logístico
real.
Concluindo: O Programa "Boa
Propaganda"
Recentemente, para se esquivar das reclamações
sobre a péssima durabilidade do asfalto entregue, o governo passou a divulgar
um novo jargão: um modelo de manutenção desenvolvido com o Banco Mundial,
apelidado de “coisa de primeiro mundo”, onde as empresas só recebem se a via
estiver impecável. Trata-se de mais uma cortina de fumaça para transferir a
responsabilidade.
Como bem ironizam os deputados de oposição na
tribuna da ALESC, o único programa que funciona perfeitamente e sem atrasos em
Santa Catarina é o "Boa Propaganda". Trocar a diplomacia institucional
com o governo federal e a execução transparente de engenharia por R$ 444
milhões em maquiagem publicitária pode até render belos vídeos de campanha, mas
o catarinense que de fato trafega pelas SCs sabe que o asfalto real não aceita
filtros de internet.











