O Legado Trágico da Operação Ouvidos Moucos e a Sombra da Lava Jato
Em 2 de outubro de 2017, o Brasil testemunhava um
dos episódios mais dolorosos de sua história recente. O professor e reitor da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier de Olivo,
tirava a própria vida aos 59 anos. No bolso de sua roupa, um bilhete resumia o
tamanho do abuso perpetrado pelo Estado: "A minha morte foi decretada
quando fui banido da universidade".
Cancellier não foi vítima de uma fatalidade
privada. Sua morte foi o desfecho trágico e anunciado de um "suicídio
moral" provocado pela sanha punitivista e pela busca desenfreada por
manchetes. Alvo da efêmera e truculenta Operação Ouvidos Moucos, o reitor foi
submetido a um espetáculo de humilhação pública: preso temporariamente sem denúncia
formal, conduzido a um presídio de segurança máxima, submetido a revista
íntima, trajando uniforme de presidiário e algemado. Solto no dia seguinte por
absoluta falta de fundamentação para sua custódia, foi cautelarmente proibido
de pisar no campus da instituição que liderava e amava.
Essa metodologia de destruição prévia da dignidade
humana não nasceu por acaso. A Operação Ouvidos Moucos foi gestada pela mesma
matriz ideológica e operacional que governou a Operação Lava Jato. A liderança
da operação na Polícia Federal coube à delegada Erika Mialik Marena — figura
central no consórcio de Curitiba. O modus operandi replicou com precisão
cirúrgica a tática lavajatista: instrumentalizar a prisão cautelar para
arrancar delações ou impor punições antecipadas, linchar reputações na imprensa
antes de qualquer instrução probatória e atropelar garantias fundamentais sob o
pretexto de uma cruzada moral.
O tempo, contudo, é implacável com os abusos do
arbítrio. Em julho de 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu, de
forma categórica, que não houve qualquer superfaturamento ou irregularidade nos
contratos investigados sob a gestão de Cancellier. Mais recentemente, em agosto
de 2026, a 1ª Vara Federal de Florianópolis absolveu sumariamente os réus
remanescentes do processo por manifesta insuficiência de provas. O Judiciário e
os órgãos de controle atestaram o que o bom senso e a dor da família já
gritavam: a Operação Ouvidos Moucos acusou sem provas, destruiu sem critério e
puniu sem processo.
A responsabilização institucional pelos excessos
cometidos — evidenciada pelo posterior afastamento da juíza federal juíza
federal Janaina Cassol Machado (da 1ª Vara Federal de Florianópolis na
época) a responsável pelo caso pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — atesta
que o sistema reconhece a gravidade do que produziu, embora nada possa devolver
a vida de um homem honrado.
O suicídio de Cancellier não foi um ato de
fraqueza; foi um gesto político desespero, um grito extremo contra a violência
de um Estado que se travestiu de justiça para cometer barbárie. O repúdio a
essa forma de atuar deve ser veemente e permanente. Lembrar do Reitor
Cancellier é um dever ético de todos que defendem a Constituição, a presunção
de inocência e o Estado Democrático de Direito contra os messianismos
punitivistas que mancham a história do país.













