O Racismo Estrutural e a Resistência em Santa Catarina
Existe
uma narrativa higienizada que insiste em retratar Santa Catarina como um
refúgio de bem-estar infenso aos conflitos sociais e raciais que marcam o
Brasil. Contudo, a rotina dos acontecimentos insiste em rasgar esse véu. O que
testemunhamos no estado quase todos os dias não são "casos isolados",
mas sim as manifestações visíveis e violentas de um racismo estrutural que
opera tanto nas interações interpessoais quanto nos gabinetes do poder público.
A
discriminação cotidiana se revela sem constrangimentos nas ruas e nos serviços
essenciais. Recentemente, em um episódio emblemático de intolerância
interseccional, um paciente foi preso em flagrante após proferir ofensas
abertamente racistas, xenofóbicas e antissemitas contra um médico venezuelano e
judeu no exercício de sua profissão. Não muito distante dali, o Poder
Judiciário catarinense precisou ser acionado para determinar a remoção de
conteúdos racistas publicados na internet contra a Miss Santa Catarina,
demonstrando como as redes digitais se tornaram extensões de uma violência que
tenta desumanizar e retirar a dignidade de corpos negros que ocupam espaços de
destaque.
Entretanto,
o racismo estrutural em Santa Catarina ganha contornos ainda mais graves quando
deixa a esfera individual e se consolida na sanha legislativa e no uso do
aparelho repressivo do Estado.
O
ápice dessa investida institucional refletiu-se na tentativa de extinguir as
cotas raciais nas universidades e instituições de ensino do estado — uma
afronta direta à Constituição e às conquistas do movimento negro. Sob o
pretexto de uma "igualdade" abstrata e cínica, a legislação buscou
desmantelar o principal instrumento de reparação histórica e democratização do
acesso ao ensino superior. Como resposta legal e necessária, o Supremo Tribunal
Federal e o Tribunal de Justiça reestabeleceram a ordem constitucional,
reafirmando que as ações afirmativas são legítimas e cruciais para a construção
de uma sociedade justa.
Mais
do que a aprovação da lei inconstitucional em si, a postura do poder político
diante do contraditório escancarou a face mais autoritária dessa dinâmica. A
mobilização da força policial por parte de parlamentares para repreender e
prender manifestantes e lideranças que protestavam pacificamente contra o fim
das cotas raciais explicita a lógica do estado catarinense: criminalizar a resistência
e usar a máquina pública para silenciar a voz daqueles que exigem justiça
social. Quando a polícia é acionada não para conter o racista, mas para prender
quem se levanta contra o racismo, o recado institucional é inequívoco.
Combater
o racismo em Santa Catarina exige parar de tratar a discriminação como mero
desvio comportamental. É preciso encarar que a negação da história, o ataque às
cotas e a repressão aos movimentos sociais fazem parte de um mesmo projeto de
manutenção de privilégios. Dar nome a essas violências e denunciar o uso do
poder público contra a igualdade é o primeiro passo para que Santa Catarina
seja, de fato, um lugar para todos.













