O
martírio fabricado: o desespero de uma campanha aos cacos e a pedagogia do medo
de Chomsky
Até onde pode ir o jogo sujo, o devaneio e os
delírios de quem não tem um projeto de país para apresentar, mas apenas o caos
para oferecer? A história política recente nos mostra que, quando as urnas e o
debate racional falham para o extremismo, a última trincheira do populismo é a
fabricação do medo e a simulação do martírio. As recentes declarações de
Eduardo Bolsonaro, sugerindo um suposto "risco de assassinato" de seu
irmão Flávio Bolsonaro no contexto de uma campanha eleitoral visivelmente
fragilizada, ultrapassam as fronteiras do absurdo e nos convidam a decifrar a
engrenagem fria dessa manipulação.
Não é coincidência que teorias conspiratórias dessa
magnitude surjam justamente quando uma candidatura se encontra "aos
cacos". Trata-se de uma cortina de fumaça clássica. Na falta de conquistas
reais para apresentar ao eleitor, e diante da incapacidade de contrapor os
dados de uma economia real que respira e avança, a estratégia é apelar para o
estômago, para o fígado e para o pânico coletivo.
O linguista e filósofo Noam Chomsky, ao dissecar os
mecanismos de controle social, detalha a eficácia de fazer uso do aspecto
emocional muito mais do que da reflexão racional. Chomsky explica que
implantar o medo, a paranoia e o sentimento de ameaça contínua na mente das
massas é uma técnica psicológica poderosa para paralisar o pensamento crítico.
Quando o eleitor é bombardeado com a narrativa de que seus líderes correm risco
de morte por forças ocultas, ele é induzido a abandonar qualquer análise lógica
sobre propostas, gestão ou competência. O debate político é intencionalmente
rebaixado a um roteiro de filme de perseguição.
Essa pedagogia do medo opera em duas frentes
desesperadas: primeiro, tenta coesionar uma base eleitoral que está se
esfacelando, usando o afeto da proteção e da solidariedade à suposta vítima;
segundo, busca blindar preventivamente a candidatura de investigações,
questionamentos e do próprio fracasso nas urnas, já que qualquer revés futuro
poderá ser empacotado como parte de uma grande "conspiração
criminosa".
O delírio e a petulância desse discurso revelam o
tamanho do desprezo que essa ala política nutre pela democracia e pela
inteligência do cidadão comum. O "jogo sujo" não se resume a atacar
adversários; consiste em tentar adoecer psicologicamente a sociedade,
mantendo-a sob um estado de sobressalto e vigilância paranoica permanente para
justificar a própria existência política.
Contra a fábrica de fantasmas e o oportunismo da
vitimização, a resposta precisa ser a soberania dos fatos e a lucidez da
análise. O Brasil real não pode ficar refém dos espasmos de desespero de quem
vê o poder escapar pelas mãos. Expor a farsa do martírio fabricado, à luz da
teoria de Chomsky, é um dever de higiene mental e de responsabilidade
democrática para qualquer plataforma que se pretenda séria e independente.













