segunda-feira, janeiro 19, 2026

A "Carona" do Esquecimento: Quando a Prefeitura de Lages Pega o Ônibus Federal e Cospe no Motorista

 

A Prefeitura de Lages quebrou o silêncio. Em uma nota oficial que transborda arrogância e tecnicismos, a gestão municipal tentou "esclarecer" a denúncia sobre o ocultamento da marca do Governo Federal nos kits escolares. O resultado? Uma confissão de culpa travestida de esclarecimento.

1. A Confissão da "Carona"

A prefeitura admite que adquiriu os 15 mil kits através da modalidade de "carona" na Ata de Registro de Preços (ARP) do FNDE. Para quem não é do ramo, a prefeitura "pegou carona" em uma licitação gigantesca feita pelo Governo Federal.

Sem o trabalho do FNDE, Lages teria que fazer sua própria licitação, o que levaria meses e, provavelmente, custaria muito mais caro. A prefeitura usou a inteligência, a logística e o poder de compra do Governo Federal, mas na hora da propaganda, "esqueceu" de mencionar o parceiro. É a política da conveniência: usa-se o Estado Federal, mas esconde-se o logotipo.

2. A Falácia do "Recurso Próprio"

A nota afirma que o pagamento foi feito com "recursos próprios". Aqui mora a maior desfaçatez. O Salário-Educação é uma contribuição social federal, recolhida pela Receita Federal e gerida pelo FNDE.

Dizer que esse dinheiro é "próprio" da prefeitura porque ele caiu na conta do município é como um filho dizer que o dinheiro da mesada é "recurso próprio" e que o pai não tem nada a ver com isso. Sem a estrutura federal de arrecadação e repasse, esse dinheiro sequer existiria no caixa municipal.

3. O Atropelo aos Princípios Constitucionais

A nota da prefeitura ignora solenemente dois pilares da nossa democracia:

ü  Princípio da Impessoalidade: A propaganda da prefeitura, ao esconder o FNDE e focar na "solicitação da prefeita", transformou um direito do aluno em um marketing pessoal. A nota tenta validar essa personalização, ferindo a neutralidade exigida de um gestor público.

ü  Princípio da Publicidade: A publicidade deve ser transparente. Ao esconder a origem do kit (que é um modelo federal, com logomarcas federais internas), a prefeitura sonega informação ao cidadão. Transparência não é apenas publicar no Diário Oficial; é dizer a verdade na rede social.

4. A Arrogância como Escudo

O encerramento da nota municipal, sugerindo que o denunciante "fiscalize o rombo do INSS" em vez de "escrever bobagens", é um ataque direto à liberdade de fiscalização cidadã. É a tática clássica do "desviar o foco".

Ora, se a prefeitura se sente no direito de usar a estrutura federal para economizar (a carona), ela tem a obrigação moral e legal de dar crédito a quem de direito. Esconder o logotipo do Governo Federal com um panfleto da "Lages Educadora" não é apenas um erro estético; é uma tentativa deliberada de enganar o eleitor sobre quem realmente viabilizou o benefício.

Concluindo

A prefeitura de Lages pegou carona no governo federal, sentou na janela e agora quer dizer que é a dona do ônibus. A "Lages Educadora" precisa, antes de tudo, aprender a lição número um da administração pública: A verdade não aceita carona.

Este texto é uma análise fundamentada nos princípios constitucionais da administração pública e nos fatos narrados pela própria municipalidade.

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