terça-feira, janeiro 20, 2026

A Ética do Oportunismo: O Brasil que Pega "Carona" e Esconde o Motorista

 

No cenário político catarinense, assistimos a um espetáculo de ilusionismo administrativo. Prefeitos, vereadores e o próprio Governo do Estado têm se especializado em uma modalidade exótica de gestão: a "Carona Institucional". O método é simples: utiliza-se o recurso, a logística, a licitação e o orçamento do Governo Federal e, na hora da entrega, cola-se um adesivo local sobre a marca da União.

É o triunfo da Ética do Oportunismo sobre os princípios constitucionais da administração pública.


1. A Anatomia da Carona: O PAA e as Cirurgias

Seja na adesão às Atas de Registro de Preços do FNDE para kits escolares, seja no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) por adesão, ou nos repasses bilionários para cirurgias eletivas, o padrão é o mesmo. O Governo Federal desenha a política, arrecada o imposto (como o Salário-Educação) e oferece a plataforma. O ente local adere ("pega a carona") para ganhar celeridade e preço.

O problema não está no mecanismo da "carona" em si — que é legal e busca eficiência — mas na desonestidade intelectual de vender o resultado como um feito isolado da gestão local. Quando um prefeito diz "eu entreguei" escondendo que o dinheiro veio de Brasília, ele não está apenas omitindo; ele está praticando uma fraude informativa contra o cidadão.


2. O Atropelo aos Princípios do Artigo 37

A Constituição Federal não é um menu onde o gestor escolhe o que seguir. O Princípio da Impessoalidade exige que a obra não seja "da prefeita" ou "do governador", mas do Estado.

Ao utilizar música emocional, linguagem de "solicitação pessoal" e esconder logomarcas federais, o gestor local viola a Moralidade Administrativa. A ética pública exige lealdade entre os entes federados. Oportunismo político não é eficiência; é desvio de finalidade publicitária para fins eleitorais.


3. A "Festa" dos Vereadores Oportunistas

Acompanhando o Executivo, vemos legisladores locais que, em vez de fiscalizarem a transparência e a correta aplicação dos recursos, tornam-se "animadores de auditório" de entregas que não ajudaram a viabilizar. Celebram o kit, o asfalto e a cirurgia como se fossem frutos de sua "articulação", quando, na verdade, são direitos automáticos garantidos por repasses federais obrigatórios.


4. O Risco da Desmemória

A Ética do Oportunismo prospera no silêncio e na desinformação. Ela precisa que o cidadão acredite que o recurso "caiu do céu" ou que é um presente da bondade do governante de plantão. Esconder que 100% de um kit escolar vem do FNDE, ou que o mutirão de cirurgias é financiado pelo SUS federal, é uma tentativa de criar uma dependência messiânica do eleitor para com o político local.


Concluindo: O "Copo Meio Vazio" da Honestidade

Retomando nossa reflexão sobre o "copo meio cheio", o avanço tecnológico e social que buscamos exige, acima de tudo, grandeza ética.

Não se constrói uma "Lages Educadora" ou um "Estado Forte" sobre a base da mentira institucional. A verdadeira inovação na política seria os gestores terem a humildade de dizer: "Este benefício é fruto de uma parceria republicana com o Governo Federal". Enquanto a "carona" for usada para o esquecimento proposital, teremos uma política pequena, movida por figuras que, incapazes de criar, especializaram-se em apenas rotular o trabalho alheio.

Este texto é uma reflexão sobre o uso ético da publicidade oficial e o respeito ao pacto federativo.

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