quarta-feira, janeiro 14, 2026

O Brasil nas Páginas de "Como as Democracias Morrem"

 

Muitos leitores, ao folhearem o best-seller de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, sentem uma estranha sensação de déjà vu. Embora os autores foquem inicialmente na ascensão de figuras como Donald Trump, os paralelos com a política brasileira recente são tão nítidos que o livro se tornou essencial para entender o Brasil atual.

O Novo Rosto do Autoritarismo

A tese central da obra é que as democracias hoje não morrem mais por golpes de Estado clássicos, com tanques nas ruas e militares no poder de um dia para o outro. Elas morrem "por dentro", através de líderes eleitos que subvertem as instituições que os colocaram lá.

No Brasil, vimos essa dinâmica se manifestar de formas muito similares às descritas pelos autores de Harvard.

Os Quatro Indicadores de Comportamento Autoritário

O livro apresenta um "teste de diagnóstico" com quatro sinais de alerta. Vamos ver como eles se aplicam à realidade brasileira recente:

1.    Rejeição das regras democráticas (ou compromisso fraco com elas): No Brasil, isso ficou evidente nos constantes questionamentos ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, mesmo sem evidências de fraude, criando uma base de desconfiança institucional.

2.    Negação da legitimidade dos oponentes políticos: A prática de tratar o adversário não como um competidor legítimo, mas como um "inimigo da pátria" ou "criminoso", foi uma marca forte da última década, alimentando a polarização extrema.

3.    Tolerância ou encorajamento à violência: Episódios como os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 são o exemplo máximo de quando a retórica política ultrapassa o limite da civilidade e flerta com a insurreição.

4.    Tendência a cercear liberdades civis da mídia e oponentes: Os ataques diretos a jornalistas e o uso do aparato estatal para pressionar críticos são comportamentos que o livro identifica como o início do fim da saúde democrática.

O Rompimento das "Grades de Proteção"

Para Levitsky e Ziblatt, uma democracia não sobrevive apenas com leis escritas (a Constituição), mas com normas informais, que eles chamam de "grades de proteção":

·         Tolerância Mútua: Aceitar que o outro lado tem o direito de governar se vencer. No Brasil, o questionamento sistemático de resultados eleitorais abalou essa grade.

·         Reserva Institucional (Cura): A ideia de que políticos não devem usar o poder total de suas prerrogativas contra os adversários apenas porque "podem". O uso excessivo de pedidos de impeachment e a judicialização extrema da política mostram que essa reserva foi deixada de lado por todos os espectros políticos.

O Brasil em Encruzilhada

O livro termina com um alerta: as democracias sobrevivem quando os políticos priorizam a democracia em vez do partido ou da ideologia.

A realidade brasileira atual mostra que as instituições (STF, Congresso, TSE) agiram como freios, mas a sociedade civil ainda lida com as cicatrizes de uma polarização que transformou vizinhos em inimigos. O desafio do Brasil, assim como o das democracias citadas no livro, é reconstruir o diálogo e a confiança antes que as "grades de proteção" desapareçam por completo.

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