Muitos
leitores, ao folhearem o best-seller de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt,
sentem uma estranha sensação de déjà
vu. Embora os autores foquem inicialmente na ascensão de figuras
como Donald Trump, os paralelos com a política brasileira recente são tão
nítidos que o livro se tornou essencial para entender o Brasil atual.
O
Novo Rosto do Autoritarismo
A
tese central da obra é que as democracias hoje não morrem mais por golpes de
Estado clássicos, com tanques nas ruas e militares no poder de um dia para o
outro. Elas morrem "por dentro", através de líderes eleitos que
subvertem as instituições que os colocaram lá.
No
Brasil, vimos essa dinâmica se manifestar de formas muito similares às
descritas pelos autores de Harvard.
Os
Quatro Indicadores de Comportamento Autoritário
O
livro apresenta um "teste de diagnóstico" com quatro sinais de
alerta. Vamos ver como eles se aplicam à realidade brasileira recente:
1.
Rejeição
das regras democráticas (ou compromisso fraco com elas): No Brasil, isso ficou evidente nos constantes
questionamentos ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, mesmo sem
evidências de fraude, criando uma base de desconfiança institucional.
2.
Negação
da legitimidade dos oponentes políticos: A prática de tratar o adversário não como um competidor
legítimo, mas como um "inimigo da pátria" ou "criminoso",
foi uma marca forte da última década, alimentando a polarização extrema.
3.
Tolerância
ou encorajamento à violência:
Episódios como os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 são
o exemplo máximo de quando a retórica política ultrapassa o limite da
civilidade e flerta com a insurreição.
4.
Tendência
a cercear liberdades civis da mídia e oponentes: Os ataques diretos a jornalistas e o
uso do aparato estatal para pressionar críticos são comportamentos que o livro
identifica como o início do fim da saúde democrática.
O
Rompimento das "Grades de Proteção"
Para
Levitsky e Ziblatt, uma democracia não sobrevive apenas com leis escritas (a
Constituição), mas com normas informais, que eles chamam de "grades de
proteção":
·
Tolerância
Mútua: Aceitar
que o outro lado tem o direito de governar se vencer. No Brasil, o
questionamento sistemático de resultados eleitorais abalou essa grade.
·
Reserva
Institucional (Cura):
A ideia de que políticos não devem usar o poder total de suas prerrogativas
contra os adversários apenas porque "podem". O uso excessivo de
pedidos de impeachment e a judicialização extrema da política mostram que essa
reserva foi deixada de lado por todos os espectros políticos.
O
Brasil em Encruzilhada
O
livro termina com um alerta: as democracias sobrevivem quando os políticos
priorizam a democracia em vez do partido ou da ideologia.
A
realidade brasileira atual mostra que as instituições (STF, Congresso, TSE)
agiram como freios, mas a sociedade civil ainda lida com as cicatrizes de uma
polarização que transformou vizinhos em inimigos. O desafio do Brasil, assim
como o das democracias citadas no livro, é reconstruir o diálogo e a confiança
antes que as "grades de proteção" desapareçam por completo.







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