Artigo 1: O
Grito de 1988: "Temos Ódio à Ditadura"
O dia 5 de
outubro de 1988 não foi apenas uma data de transição burocrática; foi o
nascimento de um novo ethos para uma nação que ainda sentia o cheiro do gás
lacrimogéneo e o silêncio imposto pela censura. No centro do palco, na Praça
dos Três Poderes, um homem de voz ríspida e gestos decididos personificava a
transição: Ulysses Guimarães.
O Cenário da
Assembleia Constituinte
O Brasil
emergia de vinte e um anos de trevas. A economia estava em frangalhos e a
inflação galopava, mas o que movia os constituintes era algo mais visceral: o
medo do passado. A redação da nova Carta Magna foi um exercício de
"autodefesa nacional". Cada parágrafo, cada inciso sobre direitos
fundamentais, foi escrito como uma barreira física contra o retorno do arbítrio.
Ulysses, o
"Senhor Diretas", não estava apenas a ler um documento; ele estava a
exorcizar fantasmas. Ao levantar o exemplar da Constituição, ele não
apresentava apenas leis, mas o antídoto para a tortura, para o desaparecimento
de opositores e para a calúnia institucionalizada.
A Anatomia
do Discurso
O discurso
de promulgação é um dos textos mais poderosos da história lusófona. Quando
Ulysses declarou: "Temos
ódio à ditadura. Ódio e nojo", ele não estava a ser meramente
retórico. Ele estava a estabelecer uma linha na areia.
Neste Artigo,
analisamos três pilares fundamentais daquela fala:
1.
A
Identificação do Inimigo Interno: Ulysses
previu que a ameaça à democracia não viria apenas de tanques nas ruas, mas de
dentro do sistema. Ele definiu o "traidor da pátria" como aquele que
atenta contra a Constituição, pois trair a lei máxima é trair o próprio povo
que nela depositou a sua soberania.
2.
A
Constituição como Proteção contra o Estado: Ao contrário de cartas anteriores, a de 1988
inverteu a lógica: o Estado passava a servir o cidadão, e não o contrário. A
dignidade da pessoa humana tornava-se o sol em torno do qual todo o sistema
jurídico deveria orbitar.
3.
O Caráter
"Cidadão": A alcunha
"Constituição Cidadã" não foi um golpe de marketing. Foi o
reconhecimento de que, sem a participação ativa da sociedade, o papel seria
apenas letra morta.
O Presságio
de Ulysses
Este Artigo
encerra com uma análise da premonição de Ulysses. Ele sabia que o documento
enfrentaria tempestades. "A
Constituição não é perfeita. Mas quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim.
Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca".
Esta
distinção entre a crítica legítima e o ataque golpista é o coração da crise que
o Brasil enfrentaria décadas depois. Ulysses sabia que o veneno do
autoritarismo era resiliente e que a "Vila Militar" da mente de
alguns homens não seria demolida apenas com palavras, mas com a vigilância
eterna das instituições.
Análise para
o leitor: Este Artigo
estabelece que a resiliência demonstrada em 2023 não foi um acaso, mas o resultado
direto da engenharia institucional desenhada em 1988 por homens que sabiam
exatamente o que era viver sem liberdade.







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