A Ilusão dos Bilhões: Para Onde Vai a Renúncia Fiscal de Santa Catarina?
Quando se debate a gestão do dinheiro público, os
números costumam ser abstratos demais para a maioria das pessoas. Mas, em Santa
Catarina, há uma cifra que exige atenção urgente de qualquer um preocupado com
o futuro econômico e social do nosso estado: R$ 126 bilhões. Esse é o
montante acumulado das renúncias, subsídios e benefícios fiscais que o Governo
de SC concedeu e projeta conceder ao longo de um curto intervalo de cinco anos.
A Escalada da Renúncia Fiscal
(TCE/SC & Sef/SC)
A curva das desonerações tributárias estaduais
revela uma aceleração impressionante:
ü 2022: R$ 14,02 bilhões
ü 2023: R$ 20,20 bilhões
ü 2024: R$ 21,80 bilhões
ü 2025: R$ 28,00 bilhões
ü 2026 (Projeção prevista na LDO): R$ 31,00 bilhões
(Nota: A partir de 2022, o
governo alterou a metodologia e passou a computar o valor integral das
desonerações).
Apenas no ano de 2026, a previsão é de o Estado
abrir mão de inacreditáveis R$ 31 bilhões. A pergunta inevitável que ecoa nas
sabatinas do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE/SC) e nos debates da
Alesc é simples: qual é o retorno social e econômico real dessa dinheirama
para a população catarinense?
Grandes Corporações vs. Quem
Realmente Emprega
A justificativa oficial para abrir mão de um valor
equivalente a quase um orçamento estadual inteiro é sempre a mesma: atrair
grandes corporações do setor portuário, industrial e agronegócio para
"gerar empregos e renda". No entanto, estudos e órgãos de controle
apontam que a maioria desses benefícios de ICMS não possui contrapartidas
claras, proporcionais ou de exigência transparente quanto à criação e
manutenção de postos de trabalho. O Estado abre mão da arrecadação no presente
confiando em uma promessa incerta para o futuro.
Enquanto isso, a economia real de Santa Catarina
acontece na ponta de baixo da pirâmide produtiva.
Dados do Sebrae/SC mostram que as Micro e
Pequenas Empresas (MPEs) foram responsáveis por gerar 43.668 novos
postos diretos de trabalho no último ano — o que representa expressivos 74%
de todo o saldo líquido de empregos formais criados no estado. Em um
universo com um estoque estimado em mais de 2,3 milhões de vínculos ativos
de emprego formal em Santa Catarina, é o pequeno empresário — da padaria,
da confecção, do pequeno mercado de bairro — quem efetivamente carrega a força
de trabalho do estado nas costas.
Uma Provocação sobre Proporções e
Escala
Não existe um cálculo oficial consolidado sobre
quantos empregos diretos e indiretos seriam gerados se essa renúncia bilionária
fosse redirecionada ou se transformasse em incentivo direto para as MPEs.
Porém, podemos fazer uma provocação lógica baseada na realidade do setor
produtivo local.
No setor de varejo (supermercados e comércio), por
exemplo, a métrica operacional média aponta a necessidade de 1 colaborador
para cada R$ 33.000 de faturamento.
Se imaginarmos o volume inacreditável de R$ 31
bilhões circulando no consumo, no crédito ou no fomento das micro e
pequenas empresas locais, o efeito multiplicador na cadeia de valor de serviços
e comércio seria avassalador. Ao contrário de uma grande corporação que muitas
vezes utiliza a isenção para aumentar suas margens ou importar insumos, o
recurso na mão do pequeno negócio vira salário local, que vira consumo no
bairro e gera novos postos de trabalho em cadeia.
O Que Precisa Mudar?
Como defendem entidades do setor produtivo, como a
Fecomércio-SC, apoiar as MPEs e gerar empregos de verdade não exige
necessariamente a distribuição de benesses fiscais obscuras a apadrinhados.
Passa por:
- Redução da Burocracia e
Carga Tributária Geral: Atualizar os limites de enquadramento das faixas
de faturamento das MPEs.
- Transparência Absoluta: Exigir que cada centavo
divulgado no Portal da Transparência e no Painel da Sef/SC tenha um
indicador claro de contrapartida em empregos.
- Investimento na Base: Garantir que o orçamento
público financie infraestrutura, saúde e educação de qualidade para a
sociedade civil, e não apenas facilidades para grandes conglomerados.
Santa Catarina não pode continuar refém de uma
lógica onde os pequenos pagam a conta inteira dos impostos enquanto os bilhões
em renúncias beneficiam poucos sem uma prestação de contas transparente. É hora
de perguntar com firmeza: quantos empregos o seu município deixou de ver
nascer para financiar a renúncia fiscal de 126 bilhões de reais?








Nenhum comentário:
Postar um comentário