segunda-feira, agosto 17, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... As Raízes da Obsessão... (Parte X)

 Uma Análise Histórica e Geopolítica do Antipetismo Visceral

O debate político brasileiro recente é atravessado por um fenômeno que transcende a simples divergência partidária ou ideológica: a consolidação de uma rejeição obsessiva, frequentemente rotulada como "antipetismo visceral". Para compreender como esse sentimento se transformou em uma força mobilizadora central no país, é necessário descalçar os determinantes históricos que o constituem em camadas de longa, média e curta duração.

Na camada de longa duração, o antipetismo não nasceu do nada. Ele herda e reconfigura o velho anticomunismo do século XX, ajustado para atacar a emergência do Partido dos Trabalhadores a partir dos anos 1980. A essa base ideológica, soma-se um indisfarçável ressentimento de classe. A ascensão social de parcelas historicamente marginalizadas da população ao consumo, à universidade e a direitos básicos gerou um choque moral e cultural em setores tradicionais que viam na manutenção das hierarquias uma garantia de distinção social.

Na média duração, os eventos políticos e institucionais das últimas duas décadas serviram como combustível para transformar a antipatia em uma identidade coletiva. Episódios como o Mensalão (2005) e, de forma avassaladora, a Operação Lava Jato (2014) foram assimilados e amplificados pela cobertura midiática de modo a singularizar a corrupção como um traço exclusivo do PT, eclipsando a natureza sistêmica das práticas políticas do país. Quando a “crise econômica”  de 2014–2016 se instalou, a insatisfação material uniu-se perfeitamente ao repúdio moral, selando uma "coalizão negativa" — um pacto onde liberais, conservadores e elites econômicas se articulam não por um projeto de país, mas pela simples negação do inimigo comum.

Por fim, no horizonte de curta duração e na esfera geopolítica internacional, o antipetismo visceral desdobrou-se em um fenômeno ainda mais grave: a alienação da soberania nacional. Conforme pontuado pelo jornalista Marcos Augusto Gonçalves, a necessidade neurótica de combater o governo federal fez com que setores expressivos da direita brasileira adotassem um alinhamento automático e servil à figura de Donald Trump e à extrema-direita norte-americana. Imersos na lógica de um "mundo bárbaro" e de disputas autocráticas globais, esses grupos preferem a submissão ideológica a lideranças estrangeiras do que a construção de um diálogo soberano em solo pátrio.

O antipetismo visceral, portanto, revela-se menos como uma crítica programática às políticas públicas do Partido dos Trabalhadores e mais como uma construção sociopolítica baseada no ressentimento, na negação do outro e na abdicação da própria autonomia do desenvolvimento nacional.



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