Uma Análise Histórica e Geopolítica do Antipetismo Visceral
O debate político brasileiro recente é atravessado
por um fenômeno que transcende a simples divergência partidária ou ideológica:
a consolidação de uma rejeição obsessiva, frequentemente rotulada como
"antipetismo visceral". Para compreender como esse sentimento se
transformou em uma força mobilizadora central no país, é necessário descalçar
os determinantes históricos que o constituem em camadas de longa, média e curta
duração.
Na camada de longa duração, o antipetismo
não nasceu do nada. Ele herda e reconfigura o velho anticomunismo do século XX,
ajustado para atacar a emergência do Partido dos Trabalhadores a partir dos
anos 1980. A essa base ideológica, soma-se um indisfarçável ressentimento de
classe. A ascensão social de parcelas historicamente marginalizadas da
população ao consumo, à universidade e a direitos básicos gerou um choque moral
e cultural em setores tradicionais que viam na manutenção das hierarquias uma
garantia de distinção social.
Na média duração, os eventos políticos e
institucionais das últimas duas décadas serviram como combustível para
transformar a antipatia em uma identidade coletiva. Episódios como o Mensalão
(2005) e, de forma avassaladora, a Operação Lava Jato (2014) foram assimilados
e amplificados pela cobertura midiática de modo a singularizar a corrupção como
um traço exclusivo do PT, eclipsando a natureza sistêmica das práticas
políticas do país. Quando a “crise econômica” de 2014–2016 se instalou, a insatisfação
material uniu-se perfeitamente ao repúdio moral, selando uma "coalizão
negativa" — um pacto onde liberais, conservadores e elites econômicas se
articulam não por um projeto de país, mas pela simples negação do inimigo comum.
Por fim, no horizonte de curta duração e na
esfera geopolítica internacional, o antipetismo visceral desdobrou-se em um
fenômeno ainda mais grave: a alienação da soberania nacional. Conforme pontuado
pelo jornalista Marcos Augusto Gonçalves, a necessidade neurótica de combater o
governo federal fez com que setores expressivos da direita brasileira adotassem
um alinhamento automático e servil à figura de Donald Trump e à extrema-direita
norte-americana. Imersos na lógica de um "mundo bárbaro" e de disputas
autocráticas globais, esses grupos preferem a submissão ideológica a lideranças
estrangeiras do que a construção de um diálogo soberano em solo pátrio.
O antipetismo visceral, portanto, revela-se menos
como uma crítica programática às políticas públicas do Partido dos
Trabalhadores e mais como uma construção sociopolítica baseada no
ressentimento, na negação do outro e na abdicação da própria autonomia do
desenvolvimento nacional.








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