Extremismo, Violência Cotidiana e Mofo Político em Santa Catarina
Parte 1: As Raízes Históricas da
Extrema-Direita e do Neonazismo em Santa Catarina
O avanço do extremismo de direita e a presença de
células neonazistas em Santa Catarina não são fenômenos espontâneos ou meros
"desvios individuais". Conforme analisa de forma precisa o professor
de História da UFSC, Adriano Luiz Duarte, trata-se de um processo de longa
duração, cujas raízes históricas e sociológicas explicam por que o estado se
tornou um terreno fértil para a proliferação dessas ideologias autoritárias.
Duarte aponta que o ecossistema extremista
catarinense se sustenta em eixos bem definidos:
Ø
O Mito da Racionalidade Exclusivamente Europeia: A construção da identidade
regional apoiou-se no apagamento das populações originárias (indígenas) e
negras, erguendo a narrativa de uma "excepcionalidade catarinense"
pautada na pretensa superioridade da imigração europeia. Essa visão de mundo
favorece discursos de pureza e eugenia.
Ø
A Sedimentação do Integralismo: Nas décadas de 1930 e 1940, Santa Catarina abrigou
uma das maiores bases do Ação Integralista Brasileira (AIB) e do próprio
Partido Nazista fora da Alemanha. Essa memória e esse repertório político não
desapareceram; foram transmitidos cultural e familiarmente ao longo das
gerações.
Ø
O Mofo Autoritário e a Cooptação das Elites: A convivência histórica com o
pensamento reacionário criou um ambiente em que a intolerância se naturalizou
no cotidiano, infiltrando-se nas instituições formais, nos discursos políticos
e nas dinâmicas de poder local.
Ø
A Conexão com o Extremismo Contemporâneo: As redes digitais e o bolsonarismo
recente não criaram a extrema-direita no estado; apenas reativaram e
organizaram um tecido social que já estava historicamente inclinado ao
reacionarismo, permitindo que células de ódio saíssem da sombra para a atuação
ostensiva.
Entender essa síntese histórica é crucial: sem
encarar as raízes coloniais e políticas do problema, a sociedade catarinense
continuará tratando o neonazismo como "caso isolado", enquanto o
vírus segue se multiplicando.
Parte 2: Anatomia da Barbárie
Humana: Da Rejeição Afetiva ao Crime Brutal
A barbárie política descrita no resgate histórico
não se limita às grandes narrativas de poder; ela se desdobra e se materializa
de forma cruel nas relações humanas mais íntimas. A violência que prega o
extermínio do "diferente" em praça pública é a mesma lógica que
destrói laços familiares dentro de casa.
Duas decisões recentes da Justiça de Santa Catarina
expõem as vísceras dessa perversão moral:
Ø
A Violência da Rejeição e do Preconceito: Em um caso emblemático, a
Justiça estadual condenou uma família a indenizar em R$ 100 mil um adolescente
expulso de casa após revelar sua orientação sexual. O abandono afetivo e
material promovido por aqueles que deveriam garantir proteção e acolhimento
revela a faceta assustadora do preconceito: a incapacidade de amar o próprio
filho diante do dogmatismo e da intolerância.
Ø
A Brutalidade Absoluta contra a Infância: Em outra frente da barbárie
humana, a condenação do padrasto que pesquisou na internet sobre enforcamento
de crianças antes de assassinar o próprio enteado de apenas 4 anos expõe o
ápice da crueldade. É o sadismo premeditado contra quem não possui qualquer
capacidade de defesa.
Seja pela expulsão afetiva fundamentada no ódio à
diversidade, seja pelo homicídio brutal no seio doméstico, o diagnóstico é o
mesmo: vivemos um colapso ético onde o valor da vida humana e o dever sagrado
de proteção dos vulneráveis foram tragados pelo egoísmo, pelo sadismo e pela
intolerância.
Parte 3: O Mofo da Corrupção e o
Desprezo pela Democracia em Santa Catarina
Para fechar o quadro da degradação social, a
violência contra a cidadania se expressa no achaque às instituições
democráticas. Enquanto discursos moralistas ecoam em palanques e redes sociais,
a prática política real em Santa Catarina continua manchada pelas velhas
oligarquias e pela barganha rasteira.
A cassação dos diplomas do prefeito e do
vice-prefeito de um município catarinense por compra de votos é mais um
lembrete incômodo da nossa realidade institucional. O esquema — que transforma
a miséria e a necessidade do eleitor em moeda de troca — demonstra o absoluto
desprezo do coronelismo local pelo processo democrático.
Comprar votos é uma forma silenciosa de violência.
É o assalto à soberania popular promovido por elites que enxergam a máquina
pública não como um instrumento de transformação social, mas como um balcão de
negócios privados.
Não há como dissociar a proliferação do extremismo,
a violência doméstica covarde e a corrupção eleitoral. Todas essas mazelas
brotam do mesmo solo: a falta de empatia, o desrespeito às leis e a certeza de
que a força, o dinheiro e o preconceito podem se sobrepor à dignidade e aos direitos
fundamentais. Cabe à sociedade civil consciente (nada esperem da mídia boca de
aluguel, corrompida até a medula) desmascarar esse mofo moral e exigir
reparação, justiça e civilidade.








Nenhum comentário:
Postar um comentário