sábado, abril 04, 2026

Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola" Pastor Marcelo???

 

Páscoa, Mateus 25 e a Estética da Exclusão: Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola"?

Nesta véspera de Páscoa, enquanto muitos celebram a ressurreição e a renovação da esperança, um debate incômodo surge em nossa região. De um lado, temos o texto sagrado que fundamenta a fé cristã; do outro, a proposta de um "programa para mostrar que esmola não resolve", defendida por lideranças religiosas locais. O contraste não poderia ser mais violento.


1. O Imperativo de Mateus 25:35-40

As palavras de Jesus no Evangelho de Mateus são o "padrão ouro" da ética cristã. Ele não condiciona o auxílio à eficiência administrativa ou ao mérito do necessitado. Ele diz, de forma seca e direta:

"Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram [...] Sempre que o fizeram a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeram."

Para Mateus, o encontro com o vulnerável é o encontro com o próprio Sagrado. Não há "triagem", não há "aplicativo de controle" e não há a desculpa de que "ajudar na rua atrapalha o sistema". Existe apenas a urgência do faminto.


2. A Proposta do "Pastor": Higienismo travestido de Gestão

Ao analisarmos a proposta do Pastor Marcelo de criar um programa para desestimular a esmola direta, percebemos uma tentativa de burocratizar a compaixão. O argumento comum é de que a esmola "vicia" ou "mantém a pessoa na rua".

No entanto, sob o verniz de "organização assistencial", o que se busca muitas vezes é uma limpeza estética das áreas comerciais. Quer-se o conforto de não ser interrompido por um pedido de ajuda enquanto se consome. É a substituição da caridade (o amor em ação) pela filantropia de gabinete, que só ajuda se o indivíduo se enquadrar nas regras de um sistema que, muitas vezes, é o mesmo que o excluiu.


3. A Incoerência Ética: Onde está a Solidariedade?

Como estudioso da Economia Solidária, entendo que a esmola realmente não é a solução estrutural para a pobreza. A solução passa por políticas públicas, emprego e renda. Contudo, usar a estrutura religiosa para dizer que o cidadão não deve estender a mão a quem tem fome hoje é uma contradição teológica profunda.

ü  Mateus 25 convida à proximidade.

ü  O "Programa do Pastor" convida à distância.

Trata-se do mecanismo de opacidade que já discutimos em outros artigos: quer-se delegar a "ajuda" a uma instituição para que o corpo do pobre desapareça da nossa vista. É a "terceirização do amor ao próximo".


4. Páscoa: Ressurreição ou Sepulcro Caiado?

Celebrar a Páscoa apoiando projetos que estigmatizam quem pede ajuda nas ruas é o que a própria Bíblia chama de "sepulcro caiado": bonito por fora, mas vazio de vida por dentro. Se a igreja se torna o braço que aponta o dedo em vez da mão que sustenta, ela perde sua função messiânica e torna-se apenas um clube de interesses sociais.

Neste domingo de Páscoa, a pergunta que fica para os fiéis e para os gestores públicos é: se Cristo estivesse hoje sentado em uma calçada da nossa cidade, com fome e sede, o "programa do pastor" permitiria que você o alimentasse, ou você teria que esperar a abertura de um processo administrativo para exercer sua fé?

 

5. Concluindo:  Cristo ou Marketagem?

"Em uma região que se orgulha de seus valores cristãos, é preciso decidir se seguiremos o Cristo de Mateus 25 ou o marketing da exclusão que tenta limpar as ruas sob o pretexto de 'ajudar melhor'."






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