Como o Brasil Transformou as Emendas Parlamentares em uma Anomalia Mundial
Há práticas na política que desafiam a lógica e
testam os limites da decência pública. No Brasil, poucas coisas exemplificam
tão bem o colapso do planejamento governamental quanto o ecossistema criado em
torno das emendas parlamentares. O que deveria ser um instrumento pontual de
representação regional transformou-se em um monstro orçamentário que sequestrou
os cofres públicos e ultrapassou todos os limites da civilidade.
Para compreender o tamanho do disparate, basta
olhar para o resto do mundo. A destinação de recursos para bases eleitorais
existe em outras nações, mas o modelo brasileiro é uma anomalia sem paralelo no
planeta. Nos Estados Unidos, os chamados earmarks chegaram a ser banidos
em 2011 por excessos de lobby e voltaram sob regras rígidas e limites
financeiros estreitos. Em democracias europeias como a Alemanha, o parlamento
propõe alterações marginais ou cortes, sem retalhar o orçamento. Já em países
como Austrália e Chile, os parlamentares sequer possuem a prerrogativa de
propor emendas que aumentem ou redirecionem despesas discricionárias.
No Brasil, porém, criou-se uma jabuticaba perversa
sustentada por dois pilares destrutivos:
- A Impositividade Cega: O Poder Executivo é
obrigado por lei a pagar o valor das emendas, o que retira do Estado a
capacidade de planejar investimentos estratégicos de longo prazo para a
nação.
- O Volume Desproporcional: Estudos do Insper apontam
que a fatia do orçamento sob controle direto de deputados e senadores
brasileiros supera, com folga, qualquer outra democracia rica ou
emergente.
Como se o volume bilionário e a impositividade não
bastassem, a criatividade fisiológica gestou aberrações ainda maiores, como as
"Emendas Pix". O resultado dessa pulverização sem controle e sem
projetos técnicos é o óbvio: irregularidades crônicas. Recentemente, o próprio
Tribunal de Contas da União (TCU) identificou graves falhas na transparência e
rastreabilidade dessas transferências diretas, dando prazos ao governo para
tentar impor ordem em um sistema desenhado para ser opaco.
Trata-se de um sequestro do orçamento público.
Enquanto áreas vitais como saúde, infraestrutura e restauração ambiental sofrem
com a falta crônica de contingenciamento e planejamento de longo prazo, bilhões
de reais são fatiados e distribuídos para atender ao mero paroquialismo e à
reeleição de ocasião.
A humanidade e a gestão pública exigem rigor,
planejamento e ética. Aceitar a captura do orçamento nacional por um balcão de
negócios impositivo e descontrolado é aceitar a falência do próprio projeto de
país. É preciso dizer basta a essa anomalia.








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