A Tragédia de Ceuta e a Sombra Inacabada do Colonialismo
Há acontecimentos que expõem, de forma nua e crua,
as feridas não cicatrizadas da história. A tragédia humanitária registrada
nesta primeira semana de agosto em Ceuta — com a corrida desesperada de mais de
50 mil pessoas tentando atravessar as fronteiras do enclave espanhol no norte
da África — não é um evento isolado. Trata-se de um sintoma dramático de um
processo estrutural profundo, cujas raízes remontam diretamente ao domínio e ao
retalhamento europeu sobre o continente africano.
Para compreender o desespero de quem arrisca a
própria vida nas águas de El Tarajal ou contra as cercas da fronteira, é preciso
encarar a história sem eufemismos. Ceuta não é um acaso geopolítico; a sua
própria existência como enclave europeu encravado no território africano é um
fóssil vivo do colonialismo. Desde a tomada da cidade pelas forças portuguesas
em 1415 até a posterior transferência para a coroa espanhola, a presença
europeia no norte da África foi erguida sobre a lógica do domínio militar, da
exploração econômica e do controle de rotas estratégicas.
O que a Europa assiste hoje nas suas fronteiras sul
é a conta de um modelo de exploração que perdura sob novas roupagens. As
dinâmicas do colonialismo não se encerraram com a independência formal dos
países africanos no século XX. Elas se desdobraram em um sistema global de
trocas desiguais, onde a riqueza e os recursos naturais continuam fluindo do
Sul para o Norte, enquanto a miséria, o desemprego, a instabilidade
institucional e a falta de perspectivas permanecem retidos no continente
africano.
Quando dezenas de milhares de jovens marroquinos e
subsaarianos se lançam ao mar ou às grades de Ceuta, eles não estão apenas
buscando "melhores condições de vida"; estão fugindo da inviabilidade
existencial criada por séculos de intervenções, espoliação e dominação
econômica. Tratar essa tragédia apenas como uma questão de "segurança
nacional", com muros mais altos, barreiras no mar ou repressão de
fronteira, é ignorar deliberadamente a causalidade histórica.
A Europa ergueu os seus padrões de bem-estar social
e infraestrutura sobre pilares edificados em terras ultramarinas. Ignorar a
responsabilidade histórica dos processos coloniais no empobrecimento do Norte
da África é um ato de cegueira moral.
O horror testemunhado em Ceuta exige mais do que
notas oficiais de lamento ou reforço militar. Exige o reconhecimento de que o
fluxo migratório é o espelho de um mundo que insiste em globalizar capitais e
mercadorias, enquanto criminaliza a busca humana pelo direito mais fundamental:
a sobrevivência.








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