segunda-feira, agosto 03, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... As Raízes da Desesperança... (Parte VIII)

 A Tragédia de Ceuta e a Sombra Inacabada do Colonialismo

Há acontecimentos que expõem, de forma nua e crua, as feridas não cicatrizadas da história. A tragédia humanitária registrada nesta primeira semana de agosto em Ceuta — com a corrida desesperada de mais de 50 mil pessoas tentando atravessar as fronteiras do enclave espanhol no norte da África — não é um evento isolado. Trata-se de um sintoma dramático de um processo estrutural profundo, cujas raízes remontam diretamente ao domínio e ao retalhamento europeu sobre o continente africano.

Para compreender o desespero de quem arrisca a própria vida nas águas de El Tarajal ou contra as cercas da fronteira, é preciso encarar a história sem eufemismos. Ceuta não é um acaso geopolítico; a sua própria existência como enclave europeu encravado no território africano é um fóssil vivo do colonialismo. Desde a tomada da cidade pelas forças portuguesas em 1415 até a posterior transferência para a coroa espanhola, a presença europeia no norte da África foi erguida sobre a lógica do domínio militar, da exploração econômica e do controle de rotas estratégicas.

O que a Europa assiste hoje nas suas fronteiras sul é a conta de um modelo de exploração que perdura sob novas roupagens. As dinâmicas do colonialismo não se encerraram com a independência formal dos países africanos no século XX. Elas se desdobraram em um sistema global de trocas desiguais, onde a riqueza e os recursos naturais continuam fluindo do Sul para o Norte, enquanto a miséria, o desemprego, a instabilidade institucional e a falta de perspectivas permanecem retidos no continente africano.

Quando dezenas de milhares de jovens marroquinos e subsaarianos se lançam ao mar ou às grades de Ceuta, eles não estão apenas buscando "melhores condições de vida"; estão fugindo da inviabilidade existencial criada por séculos de intervenções, espoliação e dominação econômica. Tratar essa tragédia apenas como uma questão de "segurança nacional", com muros mais altos, barreiras no mar ou repressão de fronteira, é ignorar deliberadamente a causalidade histórica.

A Europa ergueu os seus padrões de bem-estar social e infraestrutura sobre pilares edificados em terras ultramarinas. Ignorar a responsabilidade histórica dos processos coloniais no empobrecimento do Norte da África é um ato de cegueira moral.

O horror testemunhado em Ceuta exige mais do que notas oficiais de lamento ou reforço militar. Exige o reconhecimento de que o fluxo migratório é o espelho de um mundo que insiste em globalizar capitais e mercadorias, enquanto criminaliza a busca humana pelo direito mais fundamental: a sobrevivência.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...