O Valor
Incalculável da Cultura e o Embate sobre a Lei Rouanet
A cultura brasileira é, sem
dúvida, o maior "soft power"*** do país. De Tom Jobim a manifestações
regionais como o Bumba Meu Boi, ela define quem somos e como o mundo nos vê. No
entanto, o principal mecanismo de fomento a esse setor, a Lei Rouanet (Lei
8.313/91), tornou-se alvo de uma retórica que frequentemente ignora os fatos
técnicos em favor de narrativas ideológicas.
1.
Desconstruindo o Discurso da "Mamata"
O argumento mais comum contra a
lei é que o governo "dá dinheiro vivo" para artistas famosos. Na realidade,
o mecanismo funciona via renúncia fiscal:
·
O governo não assina um cheque;
ele autoriza o proponente a captar recursos com empresas privadas.
·
A empresa decide se quer destinar
parte do seu imposto de renda devido para o projeto cultural ou se prefere
pagar integralmente ao Estado.
·
Existe um rigoroso processo de
prestação de contas. Se o projeto não for executado como planejado, o
responsável pode ser obrigado a devolver os recursos e enfrentar sanções
legais.
2. A Cultura
como Ativo Econômico
A cultura não é apenas
entretenimento; é uma indústria que gera emprego e renda.
·
PIB
Criativo: O setor cultural representa cerca
de 3% do PIB brasileiro, superando áreas tradicionais como a indústria
automobilística em alguns anos.
·
Cadeia
Produtiva: Um único show ou peça de teatro
movimenta técnicos de som, marceneiros, costureiras, seguranças, pessoal de
limpeza, hotéis e restaurantes.
·
Retorno
sobre Investimento: Estudos indicam que para cada R$
1,00 investido via Lei Rouanet, o retorno para a economia gira em torno de R$
1,59, devido à circulação financeira gerada.
3. O Patrimônio
Imaterial e a Identidade
Para além das cifras, o valor da
cultura é incalculável em termos de coesão social:
ü Memória: Museus,
bibliotecas e centros culturais preservam a história que nos impede de repetir
erros do passado.
ü Diversidade: A Lei
Rouanet financia desde o restauro de igrejas históricas em Minas Gerais até
festivais de cinema independente no interior do Nordeste, democratizando o
acesso.
ü Educação: Muitos
projetos incluem contrapartidas sociais, como oficinas gratuitas para jovens de
periferia, retirando-os de contextos de vulnerabilidade.
4. O
Perigo do Anti-intelectualismo
O ataque sistemático aos
mecanismos de fomento cultural muitas vezes esconde um desejo de censura ou de
controle da narrativa. Ao tentar "asfixiar" financeiramente a classe
artística, ataca-se a liberdade de expressão e a capacidade de reflexão crítica
da sociedade. Uma nação que despreza seus artistas é uma nação que caminha para
o empobrecimento intelectual e a perda de sua própria face.
Concluindo
A Lei Rouanet pode e deve ser
aprimorada para ser cada vez mais descentralizada e eficiente. No entanto,
demonizá-la é um erro estratégico. Proteger a cultura é proteger a economia, a
história e, acima de tudo, a alma do povo brasileiro.
***Soft power (poder brando
ou suave) é a habilidade de um país influenciar outros
através da atração e persuasão, e não por coerção (como força militar) ou
pagamento, usando seus recursos culturais, valores políticos e políticas
externas para moldar as preferências alheias, fazendo com que queiram o que
você quer. É uma forma de conseguir objetivos desejados sem o uso de
"porretes" (ameaças) ou "cenouras" (recompensas), focando
no apelo e na admiração, como a cultura pop, moda, luxo e ideais.







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