quinta-feira, julho 23, 2026

ARAUCÁRIA... Teu nome é RESISTÊNCIA ...

 "Amanhã completa-se um mês do Dia Nacional da Araucária (24 de Junho). Em 2023 escrevi este texto para refletir sobre o tempo profundo da Terra vs. a velocidade da devastação humana. Em uma escala onde a Terra teria 1 ano de vida, bastaram menos de 1 segundo para colocarmos a Araucária na lista de espécies criticamente ameaçadas..."

 

ARAUCÁRIA... Teu nome é RESISTÊNCIA

No final do período Permiano (que teve início a 299 milhões de anos) ocorreu a terceira e maior extinção em massa na história do planeta Terra, que dizimou a vida no planeta: estimativas apontam que até 95% de todas as espécies desapareceram. É a única que se sabe ter atingido até mesmo animais considerados mais resistentes, como os insetos, e todos os seres vivos hoje existentes descendem justamente dos apenas 4% que sobreviveram à apelidada “Grande Morte”. O desastre foi tamanho que demorou 50 milhões de anos para a biodiversidade se recuperar em terra e 100 milhões de anos no mar (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 2009; TOMASSI, 2011; SANTOS, 2022).

A flora que surgiu após a “Grande Morte” é caracterizada pelo surgimento e pela proliferação das coníferas[1], que se tornam as plantas dominantes a partir deste período e se mantém até o período Cretáceo, quando se dá a proliferação das angiospermas[2] (MARTINS-NETO, 2006; CARNEIRO et al., 2015).

A história evolutiva das araucárias se entrelaça com a própria evolução dos vegetais, há milhões de anos atrás, quando as plantas passaram a dominar a superfície do planeta (FERRI, 2019).

A araucária é um gênero arbóreo das coníferas, de crescimento dependente da profundidade e da fertilidade do solo, são capazes de alcançar mais de 35 metros de altura no seu habitat (KÄFFER, 2017). Podem ser cultivadas tanto no exterior como em vasos interiores como plantas ornamentais. Como tal, é uma árvore muito versátil. Mas se há algo notável neste gênero, é a sua longevidade. A araucária é conhecida como um fóssil vivo, de fato, há provas de que existe desde a Era Mesozóica (ou seja, uns 251 milhões de anos). Portanto, muito, muito tempo (CARVALHO, 2012; FERRI, 2019).

Fósseis de araucárias primitivas de Faxinal do Soturno (RS) devem ser representantes do último momento em que os grupos de coníferas que hoje apresentam grande porte ainda eram arbustivas (RAMOS, 2023).

Pelo tamanho de seus lenhos, esses exemplares de primitivas araucárias estavam mais para arbustos do que para árvores de grande porte. Sua altura era de cerca de 2 metros e os troncos tinham entre 15 e 20 centímetros de diâmetro e se parecem anatomicamente com formas primitivas de araucária descobertas na Índia e na Argentina, que viveram entre o final do período Permiano e o Triássico Superior (entre 260 e 200 milhões de anos). Por mais de duas centenas de milhões de anos, a terra abrigou e se encarregou de preservar os vestígios de um ser primitivo. Entretanto, fósseis de araucárias com aproximadamente 220 milhões de anos atestam a transição dessa espécie para árvores de grande porte (CARVALHO, 2012; CERVATO & FRODEMAN, 2015; RAMOS, 2023).

A Araucária resistiu e sobreviveu à fragmentação do supercontinente Pangeia com início no período Triássico, há, aproximadamente, 230 milhões de anos (PRESTES, 2006; LAMANA, 2009).

Provavelmente, a Araucária sobreviveu à quarta extinção em massa: no fim do período Triássico (cerca de 205 milhões de anos), onde novamente uma grande variedade de répteis dominavam a terra e os oceanos. As marcas da Grande Morte, no entanto, ainda estavam presentes, e estes animais em nada lembravam os que existiam no Permiano. Não havia grandes predadores. Árvores coníferas primitivas também já tinham se desenvolvido, assim como os sapos, lagartos e até mesmo os primeiros mamíferos (CARVALHO, 2012; EVANS, 2020; OLIVEIRA et al., 2020).

A Araucária sobreviveu, também, a quinta extinção em massa: O fim dos dinossauros: A mais conhecida e estudada extinção em massa, ocorreu no fim do período Cretáceo, há 65 milhões de anos, e foi responsável pelo desaparecimento dos dinossauros. Praticamente todos os animais terrestres com mais de cinco quilos de massa foram dizimados (CERVATO & FRODEMAN, 2015; FERRI, 2019; BIERNATH, 2022).

No Brasil, até o século XIX a área original, de formato irregular nas regiões Sul e Sudeste, o ecossistema original da Floresta Ombrófila Mista, ocupava cerca de 20 milhões de hectares (200 mil km2). A Araucária distribui-se nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, em aproximadamente 25%; 40% e 31% de suas superfícies, respectivamente. Também ocorre em manchas esparsas no sul de São Paulo (3%); e no sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro, em áreas com altitude superior a 500 metros (1%) (ALMEIDA, 2008; (LIEBSCH et al., 2009).

Contudo, nos últimos 120 anos... a partir de 1910 (num reduzido fragmento de tempo diante da vida das Araucárias) essa maravilha da natureza foi levada... graças a insensatez humana... a condição de “Espécie ameaçada de extinção[3]”.

Á Araucária... símbolo máximo da resistência e da generosidade... manifesto a minha solidariedade... o meu respeito... e a minha admiração...

 

Tabelas do tempo[4]...

 

Tabela 1: Escala Temporal a partir do Big Bang (13,5 bilhões de anos)

Proporção: 13,5 bilhões de anos = 365 dias (1 ano)

Acontecimento

Tempo Estimado

Proporção no Ano (365 dias)

Big Bang

13.500.000.000 anos

365 dias (01 de janeiro, 00:00)

Formação da Via Láctea

13.000.000.000 anos

351 dias, 11 horas

Formação do Sistema Solar

4.600.000.000 anos

124 dias, 10 horas

Formação da Crosta Terrestre

4.500.000.000 anos

121 dias, 16 horas

Surgimento dos Procariontes

4.000.000.000 anos

108 dias, 3 horas

Início da Existência das Araucárias

250.000.000 anos

6 dias, 18 horas

Primeiras Espécies Humanas (Homo erectus)

2.000.000 anos

1 hora, 17 minutos

1908: Início da Grande Destruição (Lumber)

120 anos

0,28 segundos (~16,8 milésimos de min)

 

Tabela 2: Escala Temporal a partir da Crosta Terrestre (4,5 bilhões de anos)

Proporção: 4,5 bilhões de anos = 365 dias (1 ano)

Acontecimento

Tempo Estimado

Proporção no Ano (365 dias)

Formação da Crosta Terrestre

4.500.000.000 anos

365 dias (01 de janeiro, 00:00)

Surgimento dos Procariontes

4.000.000.000 anos

324 dias, 10 horas

Início da Existência das Araucárias

250.000.000 anos

20 dias, 6 horas

Primeiras Espécies Humanas (Homo erectus)

2.000.000 anos

3 horas, 53 minutos

1908: Início da Grande Destruição (Lumber)

120 anos

0,84 segundos (~50,45 milésimos de min)

 

[1] São assim chamadas porque suas sementes têm a forma de cones ou pinhas. Essas sementes, por sua vez, ficam expostas, sem nenhum fruto ou casca para protegê-las. As folhas geralmente são pequenas e em forma de agulha, conservando-se verdes todo o ano (Wikipédia, 2022).

[2] No Período Cretáceo (145 milhões a 65 milhões de ano), surgiram as angiospermas, caracterizadas pela presença de flores e frutos. Essas características contribuíram para que essas plantas ocupassem rapidamente diversos ambientes em nosso planeta (Wikipédia, 2022).

[3] Pela legislação ela é CR – Critically Endangered (CR): É a categoria de maior risco atribuída pela Lista Vermelha da IUCN para espécies selvagens. São aquelas que enfrentam risco extremamente elevado de extinção na natureza. Há 2.169 animais e 1,957 plantas com essa avaliação (O ECO, 2014).

[4] Elaboradas pelo autor do Texto, com auxílio de planilha Excel, aplicação de regra de três simples, e fórmulas de conversão de unidades em medida de tempo.

[5] Estrada de Ferro São Paulo/Rio Grande: Em 1908 Percival Farquhar, através de sua holding Brazil Railway Company, adquiriu o controle da Companhia de Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG). Antevendo o enorme potencial de lucro que poderia obter com a exportação de madeira das densas florestas milenares de araucária existentes na região (sob a copa das araucárias havia imbuias com mais de 10 metros de circunferência) - em terras que viria a receber como doação do governo federal e estadual no caso de Santa Catarina (15 km de cada lado da ferrovia), nos termos do contrato de concessão da ferrovia - já fundara, anteriormente, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, que se tornou conhecida como a Lumber (FRAGA et al., 2021).

[6] Procariontes: São seres unicelulares, ou seja, formados por uma única célula. Esses organismos podem ocorrer de maneira individual ou formar colônias. Em geral, são pequenos. As bactérias, por exemplo, medem, com algumas exceções, de 0,2 µm (mícron: milésima parte do milímetro) a 2 µm de diâmetro e de 2 µm a 8 µm de comprimento (SANTOS, n.d.).



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