sexta-feira, julho 24, 2026

TEMOS ÓDIO À BAJULAÇÃO... ÓDIO E NOJO... (PARTE I)

 A Degradação das Honrarias: Quando a Ordem do Ipiranga Vira Palanque de Adulação Ideológica

Há episódios na política que não apenas causam perplexidade, mas provocam uma profunda repulsa em quem ainda acredita na dignidade das instituições públicas. A recente concessão da Ordem do Ipiranga — a mais alta honraria do estado de São Paulo — ao presidente argentino Javier Milei, pelas mãos do governador Tarcísio de Freitas, é um desses momentos em que a pequenez ideológica atropela a tradição cívica.

Criada em 1969, no governo de Roberto Costa de Abreu Sodré, a Ordem do Ipiranga nasce sob o signo da gratidão do povo paulista a personalidades que tenham prestado serviços excepcionais e de notória relevância a São Paulo. O próprio nome remete ao brado de independência e à soberania. Trata-se de uma comenda que deveria ostentar rigor, sobriedade e, acima de tudo, um vínculo real de contribuição ao bem-estar do estado e da sua gente.

O que vimos, contudo, passa longe do mérito ou da diplomacia de Estado. Foi um espetáculo de servilismo partidário e afinidade de extrema-direita.

Ao folhear as páginas do clássico Breviário dos Políticos — atribuído ao Cardeal Mazarino —, compreende-se a anatomia do ato. Mazarino dissecou como o poder instrumentaliza a lisonja e o afago aos pares para construir alianças de conveniência. A concessão dessa medalha a Milei nada tem a ver com os interesses estratégicos, econômicos ou sociais dos paulistas. Trata-se de pura bajulação mesquinha, de um aceno político-ideológico para uma claque conservadora radical, feito às custas do patrimônio simbólico do Estado de São Paulo.

Que "serviço de relevância extraordinária" prestando por Milei ao povo paulista justifica tal honraria? Nenhum. O que justificou o ato foi a afinidade no desmonte do Estado, a convergência em discursos ultraliberais e a busca por palanque eleitoral.

Ao curvar a Ordem do Ipiranga a interesses sectários e ao alinhamento ideológico de ocasião, o governo paulista apequena o próprio conselho da ordem e desrespeita todos aqueles que, ao longo da história, receberam a comenda por reais contribuições à ciência, às artes, à justiça e ao desenvolvimento social.

Quando a medalha que deveria simbolizar as virtudes cívicas de um povo passa a servir como troféu de conveniência ideológica, quem perde é a própria democracia. Fica o lamento — e a indignação necessária — de ver a história e os símbolos públicos leiloados no balcão da subserviência política.



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