A Degradação das Honrarias: Quando a Ordem do Ipiranga Vira Palanque de Adulação Ideológica
Há episódios na política que não apenas causam
perplexidade, mas provocam uma profunda repulsa em quem ainda acredita na
dignidade das instituições públicas. A recente concessão da Ordem do
Ipiranga — a mais alta honraria do estado de São Paulo — ao presidente
argentino Javier Milei, pelas mãos do governador Tarcísio de Freitas, é um
desses momentos em que a pequenez ideológica atropela a tradição cívica.
Criada em 1969, no governo de Roberto Costa de
Abreu Sodré, a Ordem do Ipiranga nasce sob o signo da gratidão do povo paulista
a personalidades que tenham prestado serviços excepcionais e de notória
relevância a São Paulo. O próprio nome remete ao brado de independência e à
soberania. Trata-se de uma comenda que deveria ostentar rigor, sobriedade e,
acima de tudo, um vínculo real de contribuição ao bem-estar do estado e da sua
gente.
O que vimos, contudo, passa longe do mérito ou da
diplomacia de Estado. Foi um espetáculo de servilismo partidário e afinidade de
extrema-direita.
Ao folhear as páginas do clássico Breviário dos
Políticos — atribuído ao Cardeal Mazarino —, compreende-se a anatomia do
ato. Mazarino dissecou como o poder instrumentaliza a lisonja e o afago aos pares
para construir alianças de conveniência. A concessão dessa medalha a Milei nada
tem a ver com os interesses estratégicos, econômicos ou sociais dos paulistas.
Trata-se de pura bajulação mesquinha, de um aceno político-ideológico
para uma claque conservadora radical, feito às custas do patrimônio simbólico
do Estado de São Paulo.
Que "serviço de relevância
extraordinária" prestando por Milei ao povo paulista justifica tal
honraria? Nenhum. O que justificou o ato foi a afinidade no desmonte do Estado,
a convergência em discursos ultraliberais e a busca por palanque eleitoral.
Ao curvar a Ordem do Ipiranga a interesses
sectários e ao alinhamento ideológico de ocasião, o governo paulista apequena o
próprio conselho da ordem e desrespeita todos aqueles que, ao longo da
história, receberam a comenda por reais contribuições à ciência, às artes, à
justiça e ao desenvolvimento social.
Quando a medalha que deveria simbolizar as virtudes
cívicas de um povo passa a servir como troféu de conveniência ideológica, quem
perde é a própria democracia. Fica o lamento — e a indignação necessária — de
ver a história e os símbolos públicos leiloados no balcão da subserviência
política.








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