segunda-feira, julho 27, 2026

QUANDO ÁGUIAS VIRAM GALINHAS...

 Do Voo das Águias ao Chão do Cais: A Decadência Histórica do MDB

A história política do Brasil moderno poucas vezes assistiu a uma metamorfose tão trágica quanto a do MDB (antigo PMDB). O partido que um dia foi a alma da Redemocratização, o escudo da resistência democrática e o arquiteto da Constituição Cidadã de 1988 hoje se reduz a um condomínio de interesses regionais. Costumo dizer que o MDB foi gestado por águias que sabiam encarar os ventos fortes da história, mas que, ao longo do tempo, aceitaram o adestramento das conveniências rasteiras e terminaram no chão do fisiologismo.

Para compreender a gravidade do que ocorreu, é preciso olhar para a envergadura do seu ponto de partida. Nos anos mais duros do bipartidarismo imposto pela ditadura militar, homens da estatura de Oscar Passos — general da reserva que presidiu o MDB nos momentos de maior escuridão —, Tancredo Neves, Mario Covas, Teotônio Vilela, Dirceu Carneiro e Fernando Henrique Cardoso não faziam da política um balcão de negócios. Faziam dela um sacerdócio.

O ápice moral desse percurso esteve na figura do "Dr. Ulysses", Ulysses Guimarães. Erguendo o texto da Carta de 1988 contra os fantasmas do autoritarismo, Ulysses encarnou uma política feita de retidão, coerência e horizontes largos. Havia ali um projeto de país, um compromisso inegociável com as liberdades civis e a transformação social.

No entanto, à medida que a democracia se consolidou, o MDB passou por uma mutação silenciosa e devastadora. A legenda, que nascera como a grande frente ampla da cidadania, progressivamente abriu mão de qualquer identidade ideológica ou doutrinária para se converter em um "partido guarda-chuva". Trocou o protagonismo ético pela técnica da adesão a qualquer governo, à esquerda ou à direita, contanto que o preço cobrado em cargos, ministérios e orçamentos fosse pago.

Essa perda gradual de dignidade atingiu o seu ápice sob a liderança de Michel Temer e o grupo de cúpula que assumiu o comando da sigla. O MDB deixou de ser o motor da história para se transformar no símbolo máximo do "presidencialismo de coalizão" em sua versão mais degradada: o toma lá, dá cá. Denúncias de corrupção, operações policiais e a prisão de proeminentes caciques partidários sacramentaram o abismo moral. A sigla que antes abrigava os grandes oradores e construtores da República virou réu nas páginas policiais.

O golpe de misericórdia nessa trajetória histórica reflete-se na sua posição atual. Ao liberar os diretórios estaduais e renunciar a apoiar qualquer candidato à Presidência da República no cenário nacional, o MDB oficializou o seu próprio apequenamento. O partido que já teve a vocação de guiar a Nação agora admite, sem qualquer pudor, que não tem projeto para o Brasil. Virou uma colcha de retalhos fisiológica, preocupada apenas com a sobrevivência das suas oligarquias regionais e com as negociações do dia a dia no Congresso.

A história é implacável com as instituições que desonram a sua própria memória. O MDB jogou no lixo o legado inestimável dos seus fundadores. As águias de 1988 deram lugar ao pragmatismo rasteiro, deixando aos brasileiros que prezam a memória republicana apenas a indignação e a saudade de uma política que um dia soube voar alto.


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