Do Voo das Águias ao Chão do Cais: A Decadência Histórica do MDB
A história política do Brasil moderno poucas vezes
assistiu a uma metamorfose tão trágica quanto a do MDB (antigo PMDB). O partido
que um dia foi a alma da Redemocratização, o escudo da resistência democrática
e o arquiteto da Constituição Cidadã de 1988 hoje se reduz a um condomínio de
interesses regionais. Costumo dizer que o MDB foi gestado por águias que sabiam
encarar os ventos fortes da história, mas que, ao longo do tempo, aceitaram o
adestramento das conveniências rasteiras e terminaram no chão do fisiologismo.
Para compreender a gravidade do que ocorreu, é
preciso olhar para a envergadura do seu ponto de partida. Nos anos mais duros
do bipartidarismo imposto pela ditadura militar, homens da estatura de Oscar
Passos — general da reserva que presidiu o MDB nos momentos de maior escuridão
—, Tancredo Neves, Mario Covas, Teotônio Vilela, Dirceu Carneiro e Fernando
Henrique Cardoso não faziam da política um balcão de negócios. Faziam dela um
sacerdócio.
O ápice moral desse percurso esteve na figura do
"Dr. Ulysses", Ulysses Guimarães. Erguendo o texto da Carta de 1988
contra os fantasmas do autoritarismo, Ulysses encarnou uma política feita de
retidão, coerência e horizontes largos. Havia ali um projeto de país, um
compromisso inegociável com as liberdades civis e a transformação social.
No entanto, à medida que a democracia se
consolidou, o MDB passou por uma mutação silenciosa e devastadora. A legenda,
que nascera como a grande frente ampla da cidadania, progressivamente abriu mão
de qualquer identidade ideológica ou doutrinária para se converter em um
"partido guarda-chuva". Trocou o protagonismo ético pela técnica da
adesão a qualquer governo, à esquerda ou à direita, contanto que o preço
cobrado em cargos, ministérios e orçamentos fosse pago.
Essa perda gradual de dignidade atingiu o seu ápice
sob a liderança de Michel Temer e o grupo de cúpula que assumiu o comando da
sigla. O MDB deixou de ser o motor da história para se transformar no símbolo
máximo do "presidencialismo de coalizão" em sua versão mais degradada:
o toma lá, dá cá. Denúncias de corrupção, operações policiais e a prisão
de proeminentes caciques partidários sacramentaram o abismo moral. A sigla que
antes abrigava os grandes oradores e construtores da República virou réu nas
páginas policiais.
O golpe de misericórdia nessa trajetória histórica
reflete-se na sua posição atual. Ao liberar os diretórios estaduais e renunciar
a apoiar qualquer candidato à Presidência da República no cenário nacional, o
MDB oficializou o seu próprio apequenamento. O partido que já teve a vocação de
guiar a Nação agora admite, sem qualquer pudor, que não tem projeto para o
Brasil. Virou uma colcha de retalhos fisiológica, preocupada apenas com a
sobrevivência das suas oligarquias regionais e com as negociações do dia a dia
no Congresso.








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