terça-feira, junho 30, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... (Parte IX)

 O Mundo Planta Bilhões de Árvores; o Brasil Tenta Desarmar os Satélites

Enquanto o planeta corre contra o relógio das mudanças climáticas, desenhando megaprojetos de restauração ecológica, a política brasileira parece caminhar na contramão da história e da ciência. O contraste é violento. De um lado, nações investem fortunas e mobilizam exércitos de voluntários para cobrir a terra de verde. De outro, o Congresso Nacional brasileiro articula o enfraquecimento dos mecanismos tecnológicos de fiscalização ambiental.

O exemplo mais recente dessa desconexão com o futuro é a tramitação do Projeto de Lei (PL) 2.564/2025 na Câmara dos Deputados. Conhecido criticamente como o "PL dos Embargos Remotos", o projeto visa proibir ou dificultar as autuações automáticas feitas por órgãos ambientais (como Ibama e ICMBio) baseadas exclusivamente em imagens de satélite geoespaciais. Trata-se de um ataque direto ao coração da fiscalização moderna. Com fiscais de campo escassos, o monitoramento remoto é a única linha de defesa ágil para paralisar desmatamentos ilegais antes que o dano seja irreversível.


A Visão Global: O Esforço Coletivo pela Vida

Para entender o tamanho do nosso retrocesso, basta olhar para o cenário internacional. O mundo civilizado compreendeu que a segurança nacional e econômica do século XXI depende da estabilidade climática. Iniciativas integradas à Trillion Tree Campaign (Campanha Trilhão de Árvores) mostram governos agindo de forma radical pela restauração:

ü  Etiópia: Lançou em 2019 um projeto monumental com a meta de plantar 20 bilhões de árvores, tornando-se um dos líderes globais em reflorestamento massivo e restauração de ecossistemas.

ü  China: Financia megaprojetos históricos como o Grain for Green e a sua própria "Grande Muralha Verde", plantando bilhões de árvores para conter o avanço do Deserto de Gobi e mitigar tempestades de areia e erosões.

ü  Índia: Através de campanhas como o Van Mahotsava, mobiliza alianças voluntárias e regionais para plantar centenas de milhões de mudas, revitalizando paisagens rurais e urbanas.

ü  A Grande Muralha Verde da África: Liderada pela União Africana na região do Sahel, envolve múltiplos países em um esforço continental para restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas através de um mosaico transcontinental verde.

ü  Vietnã: Adotou um plano nacional rígido com a meta clara de plantar 1 bilhão de árvores para proteger seu solo e biodiversidade.

Esses países entenderam que dados de satélite, tecnologia e florestas em pé são ativos de sobrevivência. Mas, o que faz a bancada federal de Santa Catarina diante disso?


O Voto Catarinense: Quem Escolheu Desarmar a Fiscalização?

Sob o manto do "direito de defesa" e atendendo a pressões corporativistas do setor ruralista tradicional, a ampla maioria dos deputados federais de Santa Catarina votou A FAVOR do PL 2.564/2025, endossando a restrição da fiscalização por satélite:

Ø  Caroline de Toni (PL-SC)

Ø  Cobalchini (MDB-SC)

Ø  Coronel Armando (PP-SC)

Ø  Daniel Freitas (PL-SC)

Ø  Daniela Reinehr (PL-SC)

Ø  Geovania de Sá (PSDB-SC)

Ø  Gilson Marques (Novo-SC)

Ø  Luiz Fernando Vampiro (MDB-SC)

Ø  Pezenti (MDB-SC)

Ø  Ricardo Guidi (PL-SC)

Ø  Zé Trovão (PL-SC)

Em contrapartida, a resistência a esse retrocesso na bancada do estado foi minúscula, representada apenas pelos votos contrários de Ana Paula Lima (PT-SC) e Pedro Uczai (PT-SC).


O Choque Jurídico e a Insegurança do Amanhã

O argumento dos defensores do projeto é de que os embargos remotos violam a ampla defesa. Trata-se de uma interpretação torpe e perigosa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), através da Súmula 618, já pacificou que o direito ambiental se rege pelo princípio da precaução (in dubio pro natura). Na dúvida, protege-se o ecossistema primeiro, investigando-se os detalhes depois. Afinal, uma floresta centenária derrubada não pode ser colada de volta após anos de litígio judicial.

Legislar para "cegar" o Estado diante de crimes ambientais não é defender o produtor; é blindar o infrator ilegal e queimar a reputação internacional das exportações brasileiras. Enquanto o mundo planta bilhões de árvores para segurar o deserto e as tempestades, a maioria dos parlamentares catarinenses preferiu assinar um salvo-conduto para o retrocesso.

O projeto agora aguarda apreciação no Senado. Resta saber se o bom senso e a visão de futuro vão prevalecer, ou se continuaremos isolados, assistindo ao mundo se reflorestar enquanto sabotamos nossas próprias defesas territoriais.

 

A Lista da Vergonha: Quem escolheu a flexibilização (Lei 15.190/2025)?

Observem (abaixo) que o elenco dos nomes daqueles deputados que votaram a favor do PL 2.564/2025 (acima); é praticamente o mesmo que votou a favor da flexibilização das regras de licenciamento ambiental no Brasil, que foi consolidada pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei Federal 15.190/2025), originada a partir do PL 2.159/2021. A legislação unificou as diretrizes do setor e entrou em vigor no início de 2026.

São representantes que, em vez de buscarem soluções para evitar desastres ambientais, preferiram facilitar o caminho para quem destrói o nosso bioma:

 Partido

Deputado(a)

PL

Caroline de Toni, Daniel Freitas, Daniela Reinehr, Ricardo Guidi, Zé Trovão

MDB

Cobalchini, Luiz Fernando Vampiro, Pezenti

NOVO

Gilson Marques

PP

Coronel Armando

PSDB

Geovania de Sá

União

Fabio Schiochet




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