sábado, junho 27, 2026

PROJETO “VOZ ÚNICA”: Entre o Pragmatismo Útil e a Politicalha Manipuladora... ou... o Lado Bom e o Lado Podre desta iniciativa...

 O "Voz Única": Pragmatismo Produtivo ou Blindagem Política?

Em Santa Catarina, o projeto Voz Única, capitaneado pela FACISC e seus parceiros, apresenta-se como a bússola para o desenvolvimento do estado. A iniciativa propõe colher, na ponta, as demandas dos setores produtivos — comércio, indústria e agronegócio — para entregá-las como um roteiro aos governantes. À primeira vista, o discurso é de eficiência: diálogo entre municípios, estado e união, além da busca por soluções via Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Contudo, ao analisar a "voz" que o projeto ecoa, percebemos um silêncio ensurdecedor: não há ali a voz da sociedade civil organizada, dos movimentos sociais ou das classes trabalhadoras que, embora participem de conselhos e sindicatos, raramente detêm a caneta que dita a agenda do "Voz Única". O que temos, na verdade, é um projeto que atua na fronteira entre a necessidade real de infraestrutura e uma politicalha manipuladora.


1. A Mídia e o "Blindado" Catarinense

Sob a ótica de Noam Chomsky, a mídia catarinense cumpre o papel de "manter a ordem" através da fabricação do consentimento. É notável como a cobertura do projeto foca quase exclusivamente nas carências de rodovias federais — um problema inegável, mas estrategicamente eleito. Ao concentrar o desgaste na esfera federal, a mídia "boca alugada" poupa deliberadamente o governo estadual, que, municiado por um orçamento bilionário em propaganda, permanece imune a qualquer questionamento sério sobre suas próprias falhas de gestão.


2. O "Engenho da Consentimento" de Bernays

Seguindo Edward Bernays, a "preocupação" do empresariado com a mobilidade não é apenas filantropia econômica; é propaganda. Em anos eleitorais, o medo é um ativo valioso. O objetivo oculto não é apenas consertar estradas, mas gerar um desgaste calculado contra candidatos progressistas, rotulados como inimigos do desenvolvimento. Vende-se a ideia de que o "setor produtivo" (o "eu") é quem carrega o estado, e que qualquer visão de mundo diferente da sua é uma ameaça ao progresso.


3. O Breviário da Bajulação

Como bem descreveu o Cardeal Mazzarino (ou Nazarin) em seu Breviário dos Políticos, a necessidade de bajulação é a arte da sobrevivência corporativista. O empresariado catarinense, em suas elites articuladas, cultiva o acesso aos candidatos de direita não por uma abstração ideológica, mas para garantir que o Estado continue sendo um balcão de negócios privados. É uma simbiose onde a "voz" da federação se confunde com a "voz" do poder executivo estadual.


4. A Assimetria como Método (Goebbels e o Mito dos 16%)

Por fim, não podemos ignorar a tática goebbeliana da repetição: a mentira de que a União devolve apenas 16% dos impostos recolhidos. Essa cifra, desprovida de rigor técnico e amplamente propagada pela base aliada ao governo estadual, serve a um propósito separatista e infantil. Ela desumaniza o debate, fomentando desde discursos que flertam com o separatismo ("O Sul é o meu país") até encenações patéticas de bravata contra o MST. O objetivo é claro: criar um inimigo externo para que o cidadão não veja o inimigo interno — a ineficiência administrativa e o uso político dos recursos públicos catarinenses.


Concluindo: Quem realmente fala por Santa Catarina?

O projeto "Voz Única" tem méritos técnicos no mapeamento de gargalos, mas falha gravemente ao se colocar como o porta-voz exclusivo de um estado plural. Enquanto a agenda for construída para poupar o "poder local" e demonizar a "esfera federal" (em nome de uma narrativa de classe), o desenvolvimento catarinense continuará sendo refém de uma visão de mundo estreita, corporativista e, acima de tudo, manipuladora.

Precisamos de uma "Voz Única"? Talvez. Mas, para ser autêntica, ela precisaria começar a ouvir quem, hoje, é obrigado a escutar em silêncio.




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