O "Voz Única": Pragmatismo Produtivo ou Blindagem Política?
Em Santa Catarina, o projeto Voz Única,
capitaneado pela FACISC e seus parceiros, apresenta-se como a bússola para o
desenvolvimento do estado. A iniciativa propõe colher, na ponta, as demandas
dos setores produtivos — comércio, indústria e agronegócio — para entregá-las
como um roteiro aos governantes. À primeira vista, o discurso é de eficiência:
diálogo entre municípios, estado e união, além da busca por soluções via
Parcerias Público-Privadas (PPPs).
Contudo, ao analisar a "voz" que o
projeto ecoa, percebemos um silêncio ensurdecedor: não há ali a voz da
sociedade civil organizada, dos movimentos sociais ou das classes trabalhadoras
que, embora participem de conselhos e sindicatos, raramente detêm a caneta que
dita a agenda do "Voz Única". O que temos, na verdade, é um projeto
que atua na fronteira entre a necessidade real de infraestrutura e uma politicalha
manipuladora.
1. A Mídia e o "Blindado"
Catarinense
Sob a ótica de Noam Chomsky, a mídia
catarinense cumpre o papel de "manter a ordem" através da fabricação
do consentimento. É notável como a cobertura do projeto foca quase
exclusivamente nas carências de rodovias federais — um problema inegável, mas
estrategicamente eleito. Ao concentrar o desgaste na esfera federal, a mídia
"boca alugada" poupa deliberadamente o governo estadual, que,
municiado por um orçamento bilionário em propaganda, permanece imune a qualquer
questionamento sério sobre suas próprias falhas de gestão.
2. O "Engenho da
Consentimento" de Bernays
Seguindo Edward Bernays, a
"preocupação" do empresariado com a mobilidade não é apenas
filantropia econômica; é propaganda. Em anos eleitorais, o medo é um
ativo valioso. O objetivo oculto não é apenas consertar estradas, mas gerar um
desgaste calculado contra candidatos progressistas, rotulados como inimigos do
desenvolvimento. Vende-se a ideia de que o "setor produtivo" (o
"eu") é quem carrega o estado, e que qualquer visão de mundo
diferente da sua é uma ameaça ao progresso.
3. O Breviário da Bajulação
Como bem descreveu o Cardeal Mazzarino (ou
Nazarin) em seu Breviário dos Políticos, a necessidade de bajulação é a
arte da sobrevivência corporativista. O empresariado catarinense, em suas
elites articuladas, cultiva o acesso aos candidatos de direita não por uma
abstração ideológica, mas para garantir que o Estado continue sendo um balcão
de negócios privados. É uma simbiose onde a "voz" da federação se
confunde com a "voz" do poder executivo estadual.
4. A Assimetria como Método
(Goebbels e o Mito dos 16%)
Por fim, não podemos ignorar a tática goebbeliana
da repetição: a mentira de que a União devolve apenas 16% dos impostos
recolhidos. Essa cifra, desprovida de rigor técnico e amplamente propagada pela
base aliada ao governo estadual, serve a um propósito separatista e infantil.
Ela desumaniza o debate, fomentando desde discursos que flertam com o
separatismo ("O Sul é o meu país") até encenações patéticas de
bravata contra o MST. O objetivo é claro: criar um inimigo externo para que o
cidadão não veja o inimigo interno — a ineficiência administrativa e o uso
político dos recursos públicos catarinenses.
Concluindo: Quem realmente fala
por Santa Catarina?
O projeto "Voz Única" tem méritos
técnicos no mapeamento de gargalos, mas falha gravemente ao se colocar como o
porta-voz exclusivo de um estado plural. Enquanto a agenda for construída para
poupar o "poder local" e demonizar a "esfera federal" (em
nome de uma narrativa de classe), o desenvolvimento catarinense continuará
sendo refém de uma visão de mundo estreita, corporativista e, acima de tudo,
manipuladora.
Precisamos de uma "Voz Única"? Talvez.
Mas, para ser autêntica, ela precisaria começar a ouvir quem, hoje, é obrigado
a escutar em silêncio.








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