A Fábrica de Ilusões: O Abismo entre o
Marketing da Saúde e a Realidade das Filas em SC
Em
uma era dominada por narrativas de forte apelo popular, a fronteira entre a
propaganda institucional legítima e a manipulação da opinião pública torna-se
cada vez mais tênue. Em Santa Catarina, o governo de Jorginho Mello adotou uma
estratégia de comunicação agressiva e milionária, calcada em números grandiosos
e histórias emocionantes de superação. A peça central dessa engrenagem
publicitária é o anúncio massivo de que o estado atingiu a marca de “1 milhão
de cirurgias realizadas”.
Contudo,
quando as luzes dos estúdios se apagam e entram em cena os relatórios técnicos
dos órgãos de controle, a contabilidade fantástica do marketing governamental
desmorona, revelando um abismo alarmante entre a ficção televisiva e a vida
real dos cidadãos que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).
A Conta Não Fecha: A Descoberta do TCE e da
ALESC
A
oposição na Assembleia Legislativa (ALESC), amparada em dados oficiais obtidos
via Pedidos de Informação, confrontou diretamente a narrativa do "Paciente
1 Milhão". O confronto dos números é pedagógico: para que a publicidade
oficial fosse verdadeira, os hospitais catarinenses precisariam operar uma
média irreal de 1,4 mil pessoas todos os dias, ininterruptamente.
Uma
auditoria oficial do Tribunal de Contas do Estado (TCE/SC) revelou o tamanho da
distorção: somando todas as cirurgias eletivas realizadas em Santa Catarina
entre os anos de 2020 e 2024, o montante real chega a apenas 485 mil
procedimentos — menos da metade do propagado nos comerciais de televisão. Em
outro relatório técnico focado no exercício de 2024, o total efetivo
contabilizado foi ainda mais restrito, apontando cerca de 284,8 mil
procedimentos no período.
Para
inflar os gráficos e justificar o vultoso investimento publicitário, o governo
incluiu de forma controversa pequenas intervenções, exames ambulatoriais
cotidianos e procedimentos de urgência que ocorrem na rotina hospitalar padrão.
Trata-se de uma simbiose de dados estatísticos operada para gerar uma falsa
sensação de eficiência administrativa.
Filas Recordes e o Calvário do Tempo de Espera
Enquanto
a propaganda tenta passar a ilusão de que o problema estrutural da saúde foi
superado, a realidade das famílias nas pontas dos municípios é de dor e
sofrimento contínuo. Em fevereiro de 2023, a atual gestão lançou um programa
com a promessa pública de "zerar as filas" em até seis meses. Na
prática, as listas oficiais de espera por cirurgias eletivas não apenas
deixaram de ser zeradas, como alcançaram o maior nível de sua série histórica,
saltando de 107 mil pessoas para um recorde superior a 116 mil pacientes
aguardando atendimento.
O
tempo de espera exposto pelas planilhas oficiais beira a desumanidade:
·
Cirurgias de
mama: Média de 697 dias de espera.
·
Cirurgias
reparadoras: Média de 644 dias de espera.
·
Procedimentos
osteomusculares: Média
de 420 dias de espera.
·
Vias aéreas
superiores (face/cabeça/pescoço):
Média de 366 dias de
espera.
Até
mesmo os procedimentos oncológicos (câncer), que registram a menor média de
espera no estado (66 dias), violam frontalmente a Lei Federal nº 13.896/2019,
que estipula o prazo máximo legal de 60 dias para o início efetivo do
tratamento pelo SUS.
Furos de Fila e a Intervenção do Ministério
Público
A
gravidade do cenário motivou ações severas por parte do Ministério Público de
Santa Catarina (MPSC) e do TCE/SC, que intensificaram as investigações sobre o
que ocorre nos bastidores da rede. Inquéritos civis instaurados em 2026
identificaram que hospitais conveniados à rede estadual agendavam cirurgias
eletivas para pacientes que sequer possuíam registro formal no sistema de
regulação do Estado. Essa conduta configura uma burla direta à ordem
cronológica legal, desrespeitando os princípios constitucionais de equidade e
universalidade do SUS.
Além
disso, a judicialização da saúde explodiu. Auditorias recentes constataram que
mais de 16,4 mil pacientes catarinenses precisaram recorrer aos tribunais para
conseguir atendimento básico, forçando a criação emergencial do Núcleo 4.0 de
Saúde Pública para tentar frear o crescimento desenfreado de liminares geradas
pela falta de vagas na rede hospitalar. Longe da propaganda, o MPSC e o TCE
enfrentam problemas estruturais graves de gestão de contratos, desabastecimento
de insumos básicos e atrasos salariais em hospitais regionais administrados por
Organizações Sociais (OSs).
Concluindo:
(i)
Demagogia
versus Transparência
Apontar
o dedo para o governo federal ou construir narrativas demagógicas para desviar
a atenção da opinião pública são táticas velhas da politicalha manipuladora.
Quando um governo escolhe investir somas expressivas em peças de publicidade
para sustentar uma marca fictícia de sucesso, enquanto esconde seus pacientes
sob listas de espera de mais de 300 dias, a comunicação deixa de ser informativa
e passa a ser uma ferramenta de omissão.
O
cidadão catarinense não precisa de comerciais emocionantes com o "Paciente
1 Milhão". Precisa de leitos, de insumos, do cumprimento da Lei Estadual
nº 17.066 (Lei das Filas) e, acima de tudo, de respeito à sua dignidade.
Enquanto o marketing governa, a fiscalização e os órgãos de controle continuam
sendo a única trincheira de defesa da verdade e da saúde pública em Santa
Catarina.
ii) O Custo da Ilusão —
Propaganda versus Investimento Real
Para compreender a fundo a inversão de prioridades
na gestão pública, é necessário seguir o rastro do dinheiro. O vultoso
investimento publicitário do Estado — que gerou duras críticas e representou um
aumento expressivo nos gastos com comunicação governamental — contrasta de
forma violenta com a asfixia financeira vivida pelos hospitais na ponta do
sistema. Enquanto milhões de reais são injetados para rodar campanhas
audiovisuais sofisticadas nas redes sociais e na televisão, os órgãos de
controle precisam intervir judicialmente para conter o desabastecimento de
insumos básicos e atrasos salariais em hospitais regionais administrados por
Organizações Sociais (OSs).
A matemática da maquiagem publicitária cobra o seu
preço diretamente na dignidade humana:
ü
A verba que filma versus a verba que opera: O marketing institucional
utiliza narrativas cirurgicamente desenhadas para associar a eficiência
administrativa à imagem direta do governador. Contudo, o Tribunal de Contas
(TCE/SC) e o Ministério Público (MPSC) apontam que essa suposta eficiência
esbarra em falhas graves de gestão de contratos e repasses financeiros para as
unidades de saúde.
ü
A invisibilidade dos municípios: Ao centralizar o debate em números inflados que
misturam exames de rotina e pequenas intervenções ambulatoriais, a publicidade
oficial omite a realidade dos prefeitos e secretários municipais de saúde. São
as administrações locais que herdam a pressão da demanda reprimida, lidando com
pacientes que convivem diariamente com a dor e o sofrimento enquanto a
propaganda exibe um cenário de sucesso.
ü
O custo da judicialização: A ausência de um fluxo de trabalho transparente e
a falta de investimentos estruturais na rede hospitalar empurraram mais de 16,4
mil catarinenses para as vias judiciais apenas para conseguir atendimento
básico. O dinheiro que deveria estruturar novos leitos acaba sendo drenado para
custear a máquina pública que tenta conter a enxurrada de liminares causadas
pela falta de vagas.
Governar por meio de comerciais de TV pode até render dividendos eleitorais imediatos, mas não cura o câncer dentro do prazo legal, não opera o quadril de quem espera há mais de 400 dias e não abastece as farmácias dos hospitais regionais. Cada centavo gasto para inflar estatísticas e sustentar uma mitomania institucional é um centavo retirado da linha de frente do SUS.








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