Em um país onde as manchetes são rotineiramente ocupadas por filas quilométricas para exames básicos, falta de insumos em postos de saúde e o drama de famílias que aguardam meses por uma cirurgia eletiva, algumas movimentações institucionais soam como um deboche à realidade brasileira. A recente solicitação do Conselho Federal de Medicina (CFM) ao STF para realizar uma sindicância sobre o tratamento dispensado à saúde de um ex-presidente encarcerado é um desses episódios que exigem uma reflexão profunda sobre prioridades.
A Questão da Equidade Médica
O princípio da equidade é um dos pilares do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele prega que devemos tratar "desigualmente os desiguais para que se alcance a igualdade". No entanto, quando uma autarquia federal de fiscalização profissional volta seus esforços e o peso de sua influência para um caso isolado e cercado de privilégios — comparado ao cidadão comum —, ela ignora a negligência estrutural que atinge milhões.
É, no mínimo, paradoxal que o CFM se mobilize com tamanha agilidade jurídica por uma figura política, enquanto médicos em todo o Brasil trabalham em condições insalubres, sem o suporte técnico que o próprio Conselho deveria lutar para garantir de forma universal.
Problemas Estruturantes vs. Casuísmos Políticos
A saúde pública brasileira sofre de problemas estruturantes que parecem não gerar o mesmo nível de "indignação investigativa" nas cúpulas institucionais:
A defasagem crônica das tabelas de procedimentos;
A escassez de especialistas em regiões remotas;
O sucateamento de infraestruturas hospitalares.
Ao priorizar uma sindicância para alguém que já possui assistência médica garantida pelo Estado (dentro das normas do sistema prisional) e acesso a advogados de elite, o CFM parece se distanciar de sua missão precípua: zelar pelo fiel cumprimento das normas éticas e pela qualidade do exercício da medicina para toda a sociedade, não apenas para os que ocupam o topo da hierarquia do poder.
A Politização do Cuidado
Quando um órgão de classe entra na arena jurídica para questionar o tratamento de um ex-mandatário, ele flerta perigosamente com a politização de uma profissão que deveria ser pautada estritamente pela ciência e pela ética. A pergunta que fica para o leitor e para o paciente que aguarda no corredor de uma UPA é: por que o rigor da fiscalização do CFM não é aplicado com a mesma veemência para auditar as falhas que causam mortes evitáveis todos os dias no sistema público?
Concluindo
A medicina é, por essência, um ato humano de cuidado. Mas as instituições que a representam devem ter a sensibilidade de ler o contexto do país em que estão inseridas. Solicitar sindicâncias para casos de alta visibilidade política, ignorando o colapso silencioso do atendimento ao cidadão invisível, não é apenas um erro de estratégia; é uma inversão de valores que fragiliza a credibilidade da própria categoria médica diante da sociedade.
O CFM deveria ser o primeiro a lembrar que a saúde de um ex-presidente é importante, mas a saúde do povo brasileiro é urgente e soberana.







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