Texto 3: DESGOVERNO BOLSONARO > O INICIO DA QUEDA
O que um comentarista político bolsonarista Boca Alugada no telejornal ND Notícias, transmitido pela NDTV (afiliada da Record TV no estado, e provavelmente a que recebeu a maior fatia daqueles R$ 444 milhões da publicidade estatal do governo catarinense) NÃO comentou sobre a queda das Universidades brasileiras no ranking mundial...
A
análise do recuo do apoio orçamentário e institucional às universidades
federais durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) revela um período de
profunda tensão entre o Poder Executivo e a comunidade acadêmica. Diferente do
modelo asiático de planejamento de longo prazo, as universidades federais
brasileiras enfrentaram uma política marcada por contingenciamentos severos,
disputas ideológicas e fragilização da autonomia universitária.
Abaixo,
divido os principais eixos que caracterizam esse recuo:
1. O Sufocamento Financeiro e os
Contingenciamentos
O
principal mecanismo de pressão sobre as universidades federais foi a restrição
orçamentária, que atingiu tanto as verbas de custeio (água, luz, segurança,
limpeza) quanto as de investimento (obras, compra de equipamentos de
laboratório).
ü O "Bloqueio de 30%" (2019): Logo no início da gestão, o então
ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou um bloqueio de 30% nas verbas
discricionárias de todas as universidades federais. O anúncio foi inicialmente
justificado como punição a instituições que, segundo o ministro, promoviam
"balbúrdia", mas depois foi estendido a toda a rede sob o argumento
de metas fiscais.
ü Cortes Sucessivos e o Orçamento de
2022: Ao longo dos
quatro anos, os orçamentos foram sucessivamente propostos com defasagem em
relação à inflação. Em 2022, ano final da gestão, o governo decretou novos
bloqueios orçamentários às vésperas de exames nacionais, o que levou a
Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior
(Andifes) a alertar que várias universidades não teriam verbas para fechar o
ano letivo.
ü Asfixia da Pesquisa (CNPq e Capes): O recuo do apoio também se deu nas
agências de fomento. O valor das bolsas de mestrado e doutorado permaneceu
congelado durante todo o mandato (sem reajuste desde 2013), enquanto os
recursos para editais de pesquisa sofreram cortes drásticos, acelerando o
fenômeno da "fuga de cérebros".
2. A Ofensiva Ideológica e Retórica
O
governo Bolsonaro adotou uma postura de confronto público com as universidades,
frequentemente retratadas pela gestão federal como centros de doutrinação
política em vez de polos de desenvolvimento científico.
ü Guerra Cultural: Ministros como Ricardo Vélez
Rodríguez e Abraham Weintraub utilizaram as redes sociais e declarações
públicas para deslegitimar a produção acadêmica das universidades públicas,
especialmente nas áreas de Ciências Humanas e Sociais.
ü Descrédito à Ciência na Pandemia: Durante a crise da Covid-19, o
governo federal frequentemente ignorou ou colidiu com as recomendações, estudos
e notas técnicas emitidas pelos comitês científicos das principais
universidades públicas do país, aprofundando o distanciamento entre a produção
acadêmica e as políticas de Estado.
3. Intervenção na Autonomia Universitária
(Nomeação de Reitores)
A
Constituição Federal de 1988 garante a autonomia pedagógica, científica e
administrativa das universidades. No entanto, o governo federal utilizou uma
prerrogativa legal para quebrar uma tradição democrática consolidada.
ü Preterimento da Lista Tríplice: Historicamente, os presidentes da
República nomeavam para o cargo de reitor o candidato mais votado pela
comunidade acadêmica (o primeiro colocado da lista tríplice). O governo
Bolsonaro rompeu essa praxe de forma sistemática, nomeando o segundo ou
terceiro colocado, ou até mesmo indicando "reitores pro tempore"
(temporários) que sequer haviam participado da consulta interna.
ü Alinhamento Político: O objetivo central dessa estratégia
era enfraquecer o poder dos diretórios tradicionais e tentar emplacar gestores
alinhados à visão ideológica ou econômica do Palácio do Planalto, gerando
crises severas de governabilidade interna em dezenas de instituições federais.
4. O Projeto "Future-se"
Como
alternativa ao financiamento público, o governo apresentou em 2019 o programa Future-se.
ü A Proposta: O projeto visava incentivar as
universidades federais a buscarem recursos próprios no mercado financeiro, por
meio de fundos de investimento, parcerias com Organizações Sociais (OSs),
contratos de naming rights (venda de nomes de prédios) e privatização de
serviços de gestão.
ü A Rejeição: O programa foi amplamente rejeitado
pelos conselhos universitários das federais. A comunidade acadêmica argumentou
que o projeto desresponsabilizava o Estado do seu dever constitucional de
financiar o ensino superior, ameaçava a estabilidade das instituições e
desviava o foco da pesquisa básica para o interesse estritamente comercial
imediato. Devido à forte resistência, o projeto não prosperou no Congresso
Nacional.
Conclusão
e Impacto de Longo Prazo
O recuo
do apoio no governo Bolsonaro resultou no sucateamento físico de muitos
campi (com paralisação de obras e atraso no pagamento de terceirizados) e em uma
severa crise de previsibilidade.
Enquanto
os competidores asiáticos avançavam com aportes de Estado blindados contra
oscilações governamentais, o ecossistema universitário federal brasileiro
passou quatro anos operando em "modo de sobrevivência", concentrando
seus esforços na manutenção de serviços básicos e na defesa de sua própria
sobrevivência institucional e política.
Tabela
Resumo: Práticas de Apoio às Universidades — Governo Bolsonaro vs. Países
Asiáticos de Elite
|
Critério
de Comparação |
Práticas
do Governo Bolsonaro (Brasil, 2019-2022) |
Práticas
dos Países Asiáticos de Elite (China, Coreia, Singapura, Japão) |
|
Financiamento e
Orçamento |
Políticas de
Austeridade e Instabilidade: Marcado por cortes
sucessivos, contingenciamentos severos e congelamento de verbas
discricionárias (custeio e investimento). |
Investimento
Estratégico e Massivo: Aportes financeiros bilionários,
contínuos e de longo prazo, garantidos por planos de Estado plurianuais. |
|
Metas e Visão
Estratégica |
Foco no Curto Prazo
e Sobrevivência: Gestão operando em "modo de
sobrevivência", focada na manutenção de serviços básicos diante da falta
de previsibilidade orçamentária. |
Nacionalismo
Tecnológico e Inovação: Universidades vistas como motores
centrais da soberania tecnológica e da transição para economias de alta
tecnologia. |
|
Autonomia e Relação
com o Estado |
Tensão e
Intervencionismo: Fragilização da autonomia com nomeações de
reitores que não lideravam as listas tríplices e adoção de retórica de
confronto ("guerra cultural"). |
Autonomia Guiada
por Desempenho: Forte direção do Estado para metas
nacionais, mas com concessão de autonomia administrativa e científica para
alcançar excelência global. |
|
Programas de
Fomento e Elite |
Dispersão e
Desmobilização: Raras políticas de concentração de
recursos para criar "campeãs globais"; projetos como o
"Future-se" (mercado) foram rejeitados internamente. |
Criação de
"Campeãs Nacionais": Programas focados em
financiar agressivamente um grupo seleto de instituições para colocá-las no
Top 100 mundial. |
|
Relação com a
Indústria |
Gargalos
Burocráticos e Culturais: Dificuldade em integrar pesquisa
acadêmica e setor privado devido a entraves legais e resistência cultural
interna. |
Integração
Profunda: Fronteiras tênues entre universidade e
megacorporações, com financiamento privado direto e foco em tecnologia
patenteável. |
|
Internacionalização |
Isolamento e Fuga
de Cérebros: Baixa atração de estrangeiros e perda
constante de pesquisadores brasileiros para o exterior devido à falta de
perspectivas. |
Atração Agressiva
de Talentos: Programas de repatriamento com salários
altos e laboratórios de ponta para atrair os melhores cientistas do mundo. |
|
Idioma do
Ensino/Pesquisa |
Predomínio do
Português: Ensino e pós-graduação majoritariamente em
português, criando uma barreira natural à inserção global. |
Adoção do Inglês:
Implementação de milhares de disciplinas totalmente em inglês na graduação
para atrair estudantes internacionais. |
Esta
tabela demonstra que, enquanto os competidores asiáticos avançaram com
políticas de Estado consistentes e blindadas contra oscilações de curto prazo,
o governo Bolsonaro adotou uma postura que colocou as universidades brasileiras
em uma situação de constante vulnerabilidade orçamentária e institucional.







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