sexta-feira, junho 05, 2026

Eles Mentem... Mentem... Mentem... Sabuja, Cretina e Escrotamente... Mentem... (Parte IV)

 Texto 2: O AVANÇO DAS UNIVERSIDADES ORIENTAIS

O que um comentarista político bolsonarista Boca Alugada no telejornal ND Notícias, transmitido pela NDTV (afiliada da Record TV no estado, e provavelmente a que recebeu a maior fatia daqueles R$ 444 milhões da publicidade estatal do governo  catarinense) NÃO comentou sobre a queda das Universidades brasileiras no ranking mundial...

 

Para entender o abismo de velocidade entre o crescimento das universidades asiáticas (especialmente da China, Coreia do Sul, Singapura e Japão) e as brasileiras nos rankings globais, é preciso analisar a fundo as políticas de Estado e as práticas de apoio macroeconômico.

Enquanto a Ásia Oriental tratou o ensino superior e a pesquisa científica como os motores principais de suas transições para economias de alta tecnologia, o Brasil historicamente lidou com a área sob a ótica da oscilação orçamentária e do custeio básico.

Abaixo, apresento um comparativo estruturado entre as práticas de apoio desses dois modelos:


1. Financiamento Estratégico e Programas de Elite

1.1 Na Ásia (Modelo de "Campeãs Nacionais")

Os governos asiáticos criaram programas bilionários com metas claras: colocar um número X de universidades no Top 100 mundial em um prazo determinado.

ü  China (Planos Double First-Class, antigo Projeto 985): Injetou dezenas de bilhões de dólares concentrados em um grupo seleto de instituições (como Tsinghua e Peking). O foco não é a distribuição igualitária, mas a criação de superuniversidades competitivas globalmente.

ü  Coreia do Sul (Programa Brain Korea 21): Financiamento massivo de longo prazo atrelado estritamente à pós-graduação e à produção de patentes, subsidiando os salários de estudantes de doutorado para que eles pesquisem em tempo integral sem gargalos financeiros.

ü  Singapura: O governo financia suas duas principais universidades (NUS e NTU) com orçamentos que rivalizam com os de Harvard e MIT, focando em atrair laboratórios globais de multinacionais para dentro do campus.

1.2 No Brasil (Modelo de Contingenciamento e Custeio)

ü  Distribuição Pulverizada: O financiamento federal (MEC/Capes/CNPq) busca equilibrar a expansão e a manutenção de uma rede gigantesca de mais de 60 universidades federais. Raras são as políticas de superconcentração de capital para criar "campeãs globais".

ü  Instabilidade Orçamentária: As universidades brasileiras sofrem com o efeito "sanfona" de cortes, contingenciamentos e congelamentos de verbas ao longo das últimas décadas. Sem previsibilidade orçamentária para 5 ou 10 anos, laboratórios de ponta interrompem pesquisas e projetos complexos são descontinuados.


2. Relação com a Indústria e o Setor Privado

2.1 Na Ásia (A Tríplice Hélice na Prática)

A fronteira entre a universidade e a grande corporação na Ásia é quase invisível.

ü  Financiamento Privado Direto: Na Coreia do Sul, conglomerados como Samsung, Hyundai e LG financiam prédios inteiros, laboratórios e linhas de pesquisa dentro de universidades como a KAIST ou a Universidade Sungkyunkwan.

ü  Foco em Tecnologia Patenteável: O apoio governamental é medido pelo retorno comercial da pesquisa. Se a universidade desenvolve um novo semicondutor ou tecnologia de inteligência artificial, o Estado subsidia a transferência imediata para a indústria local.

2.2 No Brasil (Barreiras Burocráticas e Culturais)

ü  Pesquisa Desconectada do Mercado: Historicamente, a maior parte da pesquisa no Brasil é financiada pelo Estado e voltada para a ciência básica (produção de artigos acadêmicos) e não para o desenvolvimento de produtos (ciência aplicada e patentes).

ü  Insegurança Jurídica: Embora marcos legais recentes (como a Lei de Inovação) tenham tentado facilitar a parceria entre empresas e universidades públicas, ainda há forte burocracia e resistência cultural dentro dos campi tradicionais em misturar o capital privado com o espaço público.


3. Internacionalização e Atração de Talentos

3.1 Na Ásia (A Caça Global por Cérebros)

Os países asiáticos perceberam que, para estarem no topo dos rankings, precisavam quebrar o isolamento do idioma e da cultura local.

ü  Programas de Repatriamento: A China criou o programa Thousand Talents Plan, oferecendo salários astronômicos, laboratórios de última geração e moradia de luxo para atrair de volta cientistas chineses radicados nos EUA e na Europa, além de pesquisadores estrangeiros de alto nível.

ü  Campi em Inglês: Em Singapura e Hong Kong, o inglês é o idioma oficial das universidades. Na Coreia e no Japão, o governo financiou a criação de milhares de disciplinas totalmente em inglês na graduação para atrair estudantes internacionais de forma agressiva.


3.2 No Brasil (Isolamento Idiomático e "Fuga de Cérebros")

ü  Barreira Linguística: Quase a totalidade da graduação e grande parte da pós-graduação no Brasil ocorre exclusivamente em português. Isso cria uma barreira natural intransponível para estudantes e professores estrangeiros, derrubando a nota de "Internacionalização" do país nos rankings.

ü  Fuga de Talentos: Em vez de atrair pesquisadores de fora, os baixos valores das bolsas de mestrado/doutorado e a falta de perspectivas de carreira fazem com que o Brasil sofra com uma constante "fuga de cérebros" para a Europa, EUA e, ironicamente, para a própria Ásia.

Tabela Resumo do Comparativo

Critério de Apoio

Países Asiáticos de Elite (China, Coreia, Singapura)

Brasil

Foco do Investimento

Concentrado nas universidades "Campeãs Mundiais".

Pulverizado para manutenção de toda a rede pública.

Previsibilidade

Planos de Estado plurianuais de longo prazo (10 a 20 anos).

Sujeito a contingenciamentos orçamentários anuais.

Alinhamento com o Mercado

Pesquisa aplicada com forte financiamento de megacorporações.

Predomínio de pesquisa básica financiada por agências estatais.

Atração de Talentos

Subsídios agressivos para trazer cientistas do exterior.

Salários e bolsas defasados, gerando fuga de pesquisadores.

Internacionalização

Ampla oferta de cursos em inglês e incentivo à coautoria global.

Ensino concentrado em português, limitando a inserção global.

Conclusão

O modelo asiático opera sob a lógica da competitividade global e do impacto econômico, tratando a universidade como uma arma de soberania tecnológica. Já o modelo brasileiro prioriza o ensino e a inclusão social interna, mas deixa a infraestrutura de pesquisa vulnerável a instabilidades econômicas. Para que o Brasil avance globalmente, o desafio não é mudar a vocação democrática de suas universidades, mas sim garantir a elas a estabilidade orçamentária e a desburocracia que os concorrentes asiáticos usam para acelerar.

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