Texto 2: O AVANÇO DAS UNIVERSIDADES ORIENTAIS
O que um comentarista político bolsonarista Boca Alugada no telejornal ND
Notícias, transmitido pela NDTV (afiliada da Record TV no estado, e provavelmente
a que recebeu a maior fatia daqueles R$ 444 milhões da publicidade estatal do
governo catarinense) NÃO comentou sobre a queda das Universidades
brasileiras no ranking mundial...
Para
entender o abismo de velocidade entre o crescimento das universidades asiáticas
(especialmente da China, Coreia do Sul, Singapura e Japão) e as
brasileiras nos rankings globais, é preciso analisar a fundo as políticas de
Estado e as práticas de apoio macroeconômico.
Enquanto
a Ásia Oriental tratou o ensino superior e a pesquisa científica como os
motores principais de suas transições para economias de alta tecnologia, o
Brasil historicamente lidou com a área sob a ótica da oscilação orçamentária e
do custeio básico.
Abaixo,
apresento um comparativo estruturado entre as práticas de apoio desses dois
modelos:
1. Financiamento Estratégico e Programas de
Elite
1.1 Na
Ásia (Modelo de "Campeãs Nacionais")
Os
governos asiáticos criaram programas bilionários com metas claras: colocar um
número X de universidades no Top 100 mundial em um prazo determinado.
ü China (Planos Double First-Class,
antigo Projeto 985):
Injetou dezenas de bilhões de dólares concentrados em um grupo seleto de
instituições (como Tsinghua e Peking). O foco não é a distribuição igualitária,
mas a criação de superuniversidades competitivas globalmente.
ü Coreia do Sul (Programa Brain Korea
21):
Financiamento massivo de longo prazo atrelado estritamente à pós-graduação e à
produção de patentes, subsidiando os salários de estudantes de doutorado para
que eles pesquisem em tempo integral sem gargalos financeiros.
ü Singapura: O governo financia suas duas
principais universidades (NUS e NTU) com orçamentos que rivalizam com os de
Harvard e MIT, focando em atrair laboratórios globais de multinacionais para
dentro do campus.
1.2 No
Brasil (Modelo de Contingenciamento e Custeio)
ü Distribuição Pulverizada: O financiamento federal
(MEC/Capes/CNPq) busca equilibrar a expansão e a manutenção de uma rede
gigantesca de mais de 60 universidades federais. Raras são as políticas de
superconcentração de capital para criar "campeãs globais".
ü Instabilidade Orçamentária: As universidades brasileiras sofrem
com o efeito "sanfona" de cortes, contingenciamentos e congelamentos
de verbas ao longo das últimas décadas. Sem previsibilidade orçamentária para 5
ou 10 anos, laboratórios de ponta interrompem pesquisas e projetos complexos
são descontinuados.
2. Relação com a Indústria e o Setor Privado
2.1 Na
Ásia (A Tríplice Hélice na Prática)
A
fronteira entre a universidade e a grande corporação na Ásia é quase invisível.
ü Financiamento Privado Direto: Na Coreia do Sul, conglomerados como Samsung,
Hyundai e LG financiam prédios inteiros, laboratórios e linhas de pesquisa
dentro de universidades como a KAIST ou a Universidade Sungkyunkwan.
ü Foco em Tecnologia Patenteável: O apoio governamental é medido pelo
retorno comercial da pesquisa. Se a universidade desenvolve um novo
semicondutor ou tecnologia de inteligência artificial, o Estado subsidia a
transferência imediata para a indústria local.
2.2 No
Brasil (Barreiras Burocráticas e Culturais)
ü Pesquisa Desconectada do Mercado: Historicamente, a maior parte da
pesquisa no Brasil é financiada pelo Estado e voltada para a ciência básica
(produção de artigos acadêmicos) e não para o desenvolvimento de produtos
(ciência aplicada e patentes).
ü Insegurança Jurídica: Embora marcos legais recentes (como a
Lei de Inovação) tenham tentado facilitar a parceria entre empresas e
universidades públicas, ainda há forte burocracia e resistência cultural dentro
dos campi tradicionais em misturar o capital privado com o espaço público.
3. Internacionalização e Atração de Talentos
3.1 Na
Ásia (A Caça Global por Cérebros)
Os
países asiáticos perceberam que, para estarem no topo dos rankings, precisavam
quebrar o isolamento do idioma e da cultura local.
ü Programas de Repatriamento: A China criou o programa Thousand
Talents Plan, oferecendo salários astronômicos, laboratórios de última
geração e moradia de luxo para atrair de volta cientistas chineses radicados
nos EUA e na Europa, além de pesquisadores estrangeiros de alto nível.
ü Campi em Inglês: Em Singapura e Hong Kong, o inglês é
o idioma oficial das universidades. Na Coreia e no Japão, o governo financiou a
criação de milhares de disciplinas totalmente em inglês na graduação para
atrair estudantes internacionais de forma agressiva.
3.2 No
Brasil (Isolamento Idiomático e "Fuga de Cérebros")
ü Barreira Linguística: Quase a totalidade da graduação e
grande parte da pós-graduação no Brasil ocorre exclusivamente em português.
Isso cria uma barreira natural intransponível para estudantes e professores
estrangeiros, derrubando a nota de "Internacionalização" do país nos
rankings.
ü Fuga de Talentos: Em vez de atrair pesquisadores de
fora, os baixos valores das bolsas de mestrado/doutorado e a falta de
perspectivas de carreira fazem com que o Brasil sofra com uma constante "fuga
de cérebros" para a Europa, EUA e, ironicamente, para a própria Ásia.
Tabela
Resumo do Comparativo
|
Critério
de Apoio |
Países
Asiáticos de Elite (China, Coreia, Singapura) |
Brasil |
|
Foco do
Investimento |
Concentrado nas
universidades "Campeãs Mundiais". |
Pulverizado para
manutenção de toda a rede pública. |
|
Previsibilidade |
Planos de Estado
plurianuais de longo prazo (10 a 20 anos). |
Sujeito a
contingenciamentos orçamentários anuais. |
|
Alinhamento com o
Mercado |
Pesquisa aplicada com
forte financiamento de megacorporações. |
Predomínio de pesquisa
básica financiada por agências estatais. |
|
Atração de Talentos |
Subsídios agressivos para
trazer cientistas do exterior. |
Salários e bolsas
defasados, gerando fuga de pesquisadores. |
|
Internacionalização |
Ampla oferta de cursos em
inglês e incentivo à coautoria global. |
Ensino concentrado em
português, limitando a inserção global. |
Conclusão
O modelo
asiático opera sob a lógica da competitividade global e do impacto econômico,
tratando a universidade como uma arma de soberania tecnológica. Já o modelo
brasileiro prioriza o ensino e a inclusão social interna, mas deixa a
infraestrutura de pesquisa vulnerável a instabilidades econômicas. Para que o
Brasil avance globalmente, o desafio não é mudar a vocação democrática de suas
universidades, mas sim garantir a elas a estabilidade orçamentária e a
desburocracia que os concorrentes asiáticos usam para acelerar.







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