O Cristianismo sem o Nazareno: O Sequestro de
Jesus e a Antítese do Sermão da Montanha
Introdução: O Paradoxo do Túmulo Vazio
Séculos
atrás, Friedrich Nietzsche chocou o Ocidente ao proclamar que "Deus está
morto". No entanto, ao observarmos o cenário religioso e político do
Brasil contemporâneo, percebemos que o diagnóstico para o nosso tempo é
diferente, talvez mais doloroso: Deus não está morto, mas a figura histórica,
ética e espiritual de Jesus de Nazaré foi sequestrada. E os sequestradores,
ironicamente, usam o Seu nome no púlpito para legitimar estruturas de poder que
colidem frontalmente com tudo o que Ele pregou.
Assistimos
hoje à consolidação de um cristianismo puramente nominal. Uma religião de massa
que esvaziou a essência dos ensinamentos práticos do Cristo e ergueu, em seu
lugar, um sistema de intolerância, exclusão e alinhamento partidário
ideológico. É a institucionalização do "cristianismo sem o Nazareno".
1. O Sermão da Montanha Esquecido no Altar
A
maior evidência desse sequestro está no abandono deliberado da ética do Sermão
da Montanha (Mateus 5 a 7). Considerado o coração do ensinamento de Jesus, o
texto bíblico exalta os mansos, os misericordiosos, os pacificadores e os que
sofrem perseguição por amor à justiça. Ele ordena o amor aos inimigos e o
perdão incondicional.
Contudo,
a práxis de grandes corporações religiosas neopentecostais e pentecostais tem
tomado o caminho inverso. O púlpito, que deveria ser o espaço do anúncio da
graça e do acolhimento, transformou-se em palanque de trincheira ideológica. Em
vez da busca pela paz, incita-se a rejeição raivosa; em vez da misericórdia,
adota-se a demonização do espectro político contrário. Priorizam-se pautas
conservadoras de fachada moralista enquanto se negligencia a justiça social e o
cuidado com os vulneráveis — justamente aqueles que Jesus priorizou em sua
trajetória histórica.
2. Os Engenheiros do Púlpito e a
Instrumentalização da Fé
Essa
dinâmica de poder não ocorre no vácuo; ela possui rostos, emissoras de
televisão, impérios financeiros e mandatos parlamentares bem definidos na
geopolítica evangélica brasileira:
ü Edir Macedo (IURD /
Record): Ilustra a fusão entre fé, mídia e política, utilizando
megaestruturas e canais de comunicação para reduzir o debate social a uma
guerra santa, associando o pensamento progressista ao comunismo e à destruição
da família.
ü R. R. Soares (Igreja
da Graça): Utiliza o alcance da televisão aberta para moldar a opinião
pública dos fiéis, alinhando a mensagem religiosa à oposição sistemática a
governos de esquerda.
ü Marco Feliciano e
Sóstenes Cavalcante: Operam na intersecção direta entre a igreja e o parlamento. Usam a
imunidade e a visibilidade política para rotular agendas de direitos civis e
pluralidade como nocivas ao Evangelho, convertendo a fé em uma barreira de
exclusão.
ü Abner Ferreira
(CONAMAD): Representa o peso institucional das cúpulas denominacionais que,
especialmente em períodos eleitorais, transformam a estrutura eclesiástica em
comitês partidários de forte rejeição à pluralidade do próprio rebanho.
ü O pastor Silas
Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo
(ADVEC), é amplamente reconhecido como um dos principais
articuladores do voto evangélico conservador no Brasil. Sua atuação é marcada
por uma retórica combativa, focada na confrontação direta e no uso estratégico
dos meios de comunicação.
A atuação do pastor Silas Malafaia destaca-se por
dinâmicas específicas:
a)
Discurso de polarização: Malafaia
utiliza frequentemente as redes sociais e os púlpitos para pregar que a
esquerda busca perseguir igrejas, destruir a família tradicional e implantar o
comunismo. Teólogos e críticos indicam que essa abordagem de "nós contra
eles" fomenta a intolerância política e religiosa dentro do ambiente de
fé.
b)
Batalha Cultural: O pastor centraliza suas
pregações no combate aos direitos LGBTQIA+, à descriminalização do aborto e a
pautas identitárias. Essa postura prioriza a moralidade comportamental em
detrimento de temas de assistência social e acolhimento previstos no Sermão da Montanha.
c)
Aliança e Mobilização Política: Atua como um
dos conselheiros mais próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro, financiando e
organizando grandes manifestações públicas com tom político-religioso. Ele
defende abertamente que a liderança cristã deve ditar os rumos ideológicos do
país.
d)
Confronto Institucional: Malafaia
acumula polêmicas e disputas com o Poder Judiciário. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou
uma denúncia da Procuradoria-Geral da República, tornando-o réu por crime
de injúria após o pastor proferir ataques verbais à cúpula do
Exército Brasileiro. Em seus cultos, ele alega ser alvo de "perseguição
religiosa" instituciona
O que esses líderes promovem é a
transformação da fé cristã em uma ferramenta de disputa ideológica e manutenção
de privilégios. Quando a fé se torna balcão de negócios ou arma de arremesso
político, ela trai o exemplo histórico do Nazareno.
3. As Tensões Internas e o Risco da Ideologia
Vazia
Sociologicamente,
como apontam estudos do Observatório Evangélico, essa militância
político-partidária agressiva tem cobrado o seu preço. Há uma crescente tensão
teológica e comunitária no seio das igrejas. Fiéis que buscam o estrito
seguimento de Jesus encontram-se órfãos em comunidades que passaram a exigir
fidelidade cega a cartilhas partidárias.
Ao
demonizar o "outro" por suas convicções políticas ou sociais, essas
lideranças ferem de morte o mandamento do amor ao próximo. Criam uma religião
estéril, onde a retórica moralista esconde a total ausência de compaixão e
partilha.
Concluindo: O Chamado ao Resgate
A
crise do cristianismo contemporâneo não é uma crise de falta de templos, de
dinheiro ou de influência política — disso, as cúpulas evangélicas têm de
sobra. A crise é de ausência de Jesus.
Faz-se urgente um chamado à autocrítica e um retorno radical à essência do Evangelho. O verdadeiro cristianismo não pode ser medido pela capacidade de lotar arenas ou de influenciar votações no Congresso Nacional, mas sim pela fidelidade prática aos valores do Cristo histórico.
Se a igreja quiser recuperar sua
relevância espiritual e sua legitimidade ética, ela precisará libertar Jesus do
cativeiro ideológico em que o colocaram e voltar a caminhar pelas estradas
empoeiradas da simplicidade, do amor e da justiça.








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