terça-feira, maio 26, 2026

Onde está o Cristo no "Programa Contra a Esmola" Pastor Marcelo??? (Parte III)

 

A Matemática da Fé contra o Marketing da Exclusão: Por que Lages não precisa proibir a esmola


Introdução: O Mito da Escassez e a Criminalização da Miséria

O debate político e religioso em Lages ganhou contornos de crueldade institucional. Sob o pretexto de organizar o espaço urbano e defender um suposto "direito de ir e vir", lideranças da Câmara de Vereadores — capitaneadas por discursos como o do vereador Pastor Marcelo — insistem em criminalizar a solidariedade popular através de programas que desestimulam a doação de esmolas. A narrativa oficial tenta convencer o cidadão lageano de que a miséria visível nas calçadas é fruto da "comodidade" de quem pede e da "ingenuidade" de quem ajuda.

Trata-se de uma farsa sociológica e de uma heresia teológica. Ao transferir a culpa da desigualdade estrutural para o indivíduo vulnerável e para o bolso do trabalhador que estende a mão, o poder público e as cúpulas religiosas tentam ocultar a própria incompetência e omissão. O argumento de que "não há recursos para resolver o problema" desmorona quando confrontado com a realidade dos números e com a riqueza acumulada nos altares da cidade. Se houvesse o verdadeiro desejo de aplicar a ética do Sermão da Montanha, a comunidade religiosa de Lages teria, sozinha, condições de erradicar a miséria das ruas sem depender de um único centavo de orçamento público.


1. O Cenário Inflacionado: Desmascarando o "Monstro" Urbano

Para justificar leis higienistas e aparatos de exclusão, o discurso político costuma inflacionar o tamanho do desafio, tratando a população em situação de rua como uma "ameaça incontrolável" à ordem pública. Mas o que dizem os dados reais?

Os monitoramentos da Secretaria de Assistência Social, do CadÚnico e do Centro POP apontam que Lages possui entre 120 e 150 pessoas vivendo de forma crônica nas ruas. Para que não haja qualquer acusação de que estamos minimizando o problema, façamos um teste de estresse matemático: vamos inflacionar esse número ao extremo. Suponhamos que existam 500 pessoas em situação de rua ou mendicância na cidade.

Mesmo nesse cenário exagerado, estamos falando de meros 0,30% da população lageana. Isolar 0,30% dos habitantes e transformá-los nos grandes "responsáveis pelas mazelas brasileiras" e pela degradação do centro urbano não é gestão; é aporofobia pura e simples — o horror ao pobre transformado em plataforma eleitoral.


2. A Operação Matemática da Solidariedade: O Potencial Oculto do Dízimo

Se o tamanho do desafio é perfeitamente delimitável, qual é a real capacidade financeira da comunidade que se propõe a debater a moralidade da ajuda? Vamos aos dados econômicos da força de trabalho baseados nos cruzamentos demográficos do município:

  • A Força de Trabalho Evangélica: De acordo com o último Censo IBGE, Lages conta com cerca de 61.000 pessoas gerando renda. Sendo a população evangélica correspondente a 24% do município, temos um contingente de 14.640 trabalhadores evangélicos ativos.
  • A Massa Salarial do Altar: Considerando a renda média do trabalho individual em Lages, que é de R$ 3.143,00, a comunidade evangélica local movimenta, sozinha, uma massa salarial mensal de R$ 46.013.520,00.
  • O Faturamento da Fé: Sob a premissa bíblica e estatística do dízimo (10%), as igrejas evangélicas de Lages arrecadam mensalmente cerca de R$ 4.601.352,00. Ao longo de um ano (contabilizando o impacto do 13º salário na economia), o montante transferido aos cofres eclesiásticos atinge a impressionante marca de R$ 59.817.576,00.

Agora, cruzemos a riqueza dos templos com a miséria das calçadas. Se o conjunto das igrejas evangélicas de Lages decidisse cumprir o mandamento de "adotar" os 500 necessitados do nosso cenário inflacionado, garantindo-lhes uma renda básica de dignidade equivalente a um salário mínimo por mês (R$ 1.621,00), o custo total dessa operação seria de R$ 810.500,00 mensais, ou R$ 10.536.500,00 por ano (com 13º incluso).

O veredito é avassalador: com apenas 17,61% do valor total dos dízimos arrecadados, todas as pessoas em situação de rua e pedintes de Lages teriam uma vida digna. Sobrariam mais de 82% dos recursos (cerca de R$ 49 milhões anuais) para manter os templos, pagar salários pastorais e custear eventos. O problema, portanto, nunca foi a escassez de dinheiro; é a escolha política de onde aplicá-lo.


3. O Espelho do Bolsa Família e a Opacidade da Fé

Para compreender a magnitude do "orçamento da fé" em Lages, é preciso compará-lo com a estrutura estatal de combate à pobreza. O programa Bolsa Família atende atualmente 8.507 famílias em Lages — consolidando o município como o terceiro maior em volume de assistência no estado, atrás apenas de Joinville e Florianópolis. Esse programa injeta na economia local cerca de R$ 5,75 milhões por mês, garantindo a subsistência de famílias chefiadas, em sua esmagadora maioria, por mulheres da periferia.

Perceba o paralelo: a arrecadação estimada do dízimo evangélico em Lages (R$ 4,6 milhões/mês) equivale a 80% de todo o recurso do Bolsa Família que o Governo Federal envia para a cidade. Se o volume de dinheiro movimentado pelas igrejas empata em grandeza com o maior programa de transferência de renda do país dentro do município, por que o impacto social dessas instituições na proteção da alta complexidade (os moradores de rua) é invisível a ponto de o cidadão precisar implorar por moedas na calçada?

A resposta reside no mecanismo de opacidade e na "terceirização do amor ao próximo". Quer-se o dízimo no altar, mas delega-se o corpo do pobre à burocracia do Estado ou, pior, tenta-se fazê-lo desaparecer através de canetadas higienistas na Câmara de Vereadores.


Concluindo: O Desafio Profético a Lages

Defender o fim da esmola direta sob o pretexto de que ela "vicia" ou "atrapalha o sistema" é o comportamento que a própria Escritura define como sepulcro caiado: uma fachada de ordem e boa gestão que esconde um interior vazio de misericórdia.

Se as igrejas e os vereadores que se elegem usando o nome de Cristo estivessem genuinamente preocupados com a dignidade humana, não estariam propondo leis de exclusão nas salas climatizadas da Câmara. Estariam organizando um consórcio de intercooperação social para que os recursos isentos de impostos que entram nos templos saíssem em forma de aluguel social, tratamento de saúde e reinserção produtiva para os 150 lageanos que sofrem no asfalto frio.

Fazer dos moradores de rua os bodes expiatórios das mazelas brasileiras é um ato de covardia política. Em Lages, a matemática prova que a miséria só continua nas ruas porque a hipocrisia e o marketing da exclusão ainda rendem mais votos do que a coragem de partilhar o pão. É hora de escolher se seguiremos o Deus dos dízimos acumulados ou o Cristo de Mateus 25, que ainda hoje nos espera, faminto e invisível, em alguma esquina da nossa cidade.



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