Lages e o Corpo Oculto de Cristo: O Higienismo
no Tapete de Corpus Christi
Introdução:
A Adoração Institucional vs. a Presença Real do Pobre
O debate
que assombra Lages neste dia de Corpus Christi, 4 de junho de 2026, expõe uma
contradição teológica e social insuportável na ética da nossa comunidade.
Enquanto os fiéis católicos se reúnem em solenidade pública para adorar a
"Presença Real" de Jesus no mistério da Eucaristia — o sacramento no
qual o pão e o vinho se transubstanciam substancialmente em Seu Corpo e Sangue
—, vozes influentes na Câmara de Vereadores e em lideranças religiosas insistem
em políticas higienistas que buscam ocultar e criminalizar o corpo do pobre.
A
insistência dos vereadores em adotar o falso discurso do "direito de ir e
vir" para fazer dos moradores de rua os responsáveis pelas mazelas
brasileiras não é uma política de gestão assistencial, mas uma política de
"gestão do espaço urbano" que prioriza o conforto de quem consome em
detrimento do direito à sobrevivência de quem é marginalizado. Trata-se do
higienismo travestido de testemunho público de fé.
1.
O Imperativo de Mateus 25:35-40: O Corpo Que Interrompe o Tapete
Para
Mateus 25, o encontro com o vulnerável é o encontro com o próprio Sagrado.
Jesus é seco e direto: "Sempre que o fizeram a um destes meus irmãos mais
pequenos, a mim o fizeram." Ele não condiciona o auxílio à eficiência
administrativa, à triagem burocrática ou ao mérito do necessitado. Existe
apenas a urgência do faminto. Na solenidade de Corpus Christi, que celebra a
partilha do pão na Última Ceia, Mateus nos lembra que adorar o Corpo de Cristo
significa estender a mão ao corpo de quem tem fome hoje, sem esperar a
morosidade de um processo administrativo.
No
entanto, a proposta dos vereadores e do "Pastor Marcelo" de criar um
"programa para mostrar que esmola não resolve" busca burocratizar a
compaixão e criar um mecanismo de opacidade urbana. Quer-se delegar a caridade a
uma instituição para que o corpo do pobre desapareça da nossa vista e não
"atrapalhe" a estética dos tapetes ornamentais coloridos que adornam
nossas ruas comerciais. É a "terceirização do amor ao próximo".
2.
O Falso Testemunho Público: Adoração ou Marketing da Exclusão?
As
tradições públicas de Corpus Christi, com missas e procissões onde o Santíssimo
Sacramento é conduzido pelas ruas, são formas de testemunho público de fé.
Contudo, em Lages, esse testemunho corre o risco de se tornar um "sepulcro
caiado" se a adoração ao ostensório for acompanhada da rejeição ao pobre.
O "Programa Contra a Esmola" é um mecanismo de distância; Mateus
convida à proximidade. Trata-se da substituição da caridade (o amor em ação)
pela filantropia de gabinete, que só ajuda se o indivíduo se enquadrar nas
regras de um sistema que muitas vezes é o mesmo que o excluiu.
Celebrar o
Corpo de Cristo apoiando projetos que estigmatizam e criminalizam quem pede
ajuda nas ruas é o que a Bíblia chama de incoerência ética. Se a igreja e a
Câmara de Vereadores se tornam o braço que aponta o dedo em vez da mão que
sustenta, elas perdem sua função messiânica e transformam-se apenas em um clube
de interesses sociais.
Concluindo:
Cristo ou Marketing da Exclusão?
Neste
feriado municipal de adoração ao Santíssimo Sacramento, Lages precisa escolher
entre o Cristo de Mateus 25, que nos chama à ação imediata e à proximidade, ou
o marketing da exclusão, que tenta limpar as ruas sob o pretexto de
"ajudar melhor". A pergunta teológica que fica para os fiéis e para
os gestores públicos é: se Cristo estivesse hoje sentado em uma calçada da
nossa cidade, com fome e sede, sobre um dos tapetes de serragem, o
"programa do vereador" permitiria que você o alimentasse, ou você
teria que esperar a burocracia do sistema administrativo para exercer sua fé?
Lages precisa decidir se segue o Corpo Partilhado ou a Higienização de Gabinete
que busca terceirizar a compaixão.








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