domingo, setembro 13, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... O Teatro do Absurdo... (Parte XIV)

 Como o Pro-Wrestling e a Suspensão da Descrença Explicam a Militância Bolsonarista

A política contemporânea transformou-se em um espetáculo onde a linha entre o fato e a performance não apenas se tornou tênue, mas foi deliberadamente apagada. Para quem observa de fora, o comportamento dos chamados "patriotas" bolsonaristas — com suas vigílias em portas de quartéis, teorias da conspiração mirabolantes e recusa sistemática da realidade — parece um surto coletivo ou pura irracionalidade. No entanto, ao analisar o fenômeno sob a ótica do sociólogo Erving Goffman e das pesquisas do cientista político David S. Moon sobre o trumpismo, revela-se uma dinâmica muito mais complexa: a de uma audiência que escolhe ativamente viver uma ficção.


A Política como Kayfabe: A Lição de David S. Moon

Em seus estudos sobre Donald Trump e a política norte-americana, o pesquisador David S. Moon busca na Luta Livre Profissional (Pro-Wrestling) a chave de leitura para entender o apelo populista da extrema-direita moderna. No ecossistema do wrestling, existe um conceito fundamental chamado kayfabe: a manutenção tácita da ilusão de que as rivalidades, agressões e dramas encenados no ringue são 100% reais.

Moon argumenta que os eleitores de Trump — e, por extensão, os bolsonaristas no Brasil — não são enganados ingênuos que acreditam cegamente em cada palavra dita por seus líderes. Em vez disso, comportam-se como os fãs modernos de Luta Livre (smart marks): eles sabem, no fundo, que as declarações são exageradas, inventadas ou performáticas, mas celebram o espetáculo. Quando o líder ataca a imprensa, quebra o decoro institucional ou inventa uma narrativa absurda, o público vibrante não busca a verdade factual, mas a efetividade do golpe na arena política. O que importa é a destruição simbólica do adversário.


A Suspensão Voluntária da Descrença em Goffman

É aqui que a teoria dramatúrgica de Erving Goffman complementa a análise de Moon. Para Goffman, a vida social é estruturada como um palco, no qual os indivíduos desempenham papéis e mantêm uma "fachada". Quando a realidade ameaça quebrar a ilusão da cena, os atores e a plateia recorrem à suspensão voluntária da descrença.

No contexto do bolsonarismo patriota, a manutenção do papel de "combatente do bem contra o mal" exige um pacto silencioso de cooperação. Para continuar pertencendo à comunidade e manter o sentido de missão heroica, o militante decide ignorar os furos no roteiro. Quando um prazo de "72 horas" expira, quando uma revelação desmente uma tese conspiratória ou quando a liderança recua, o patriota não abandona a crença; ele reajusta a cena e suspende a dúvida novamente para que a peça não termine. A verdade factual torna-se secundária perante a necessidade de manter a narrativa viva no palco.


A Cumplicidade do Espetáculo

Unindo Moon e Goffman, percebe-se que acusar os apoiadores de "analfabetismo político" ou "alienação" é insuficiente. Trata-se de uma cumplicidade performática. O bolsonarista que repassa uma notificação falsa no WhatsApp ou que usa verde e amarelo para protestar contra moinhos de vento não está apenas consumindo informação; ele está atuando.

A militância do "Brasil acima de tudo" encontrou no espetáculo um refúgio da realidade complexa e decepcionante. Ao operarem dentro do kayfabe descrito por Moon e praticarem a suspensão voluntária da descrença formulada na tradição de Goffman, os patriotas transformaram o cenário político brasileiro em um imenso ringue teatral, onde o compromisso principal não é com a verdade factual, mas com a continuidade do show.



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