Como o Pro-Wrestling e a Suspensão da Descrença Explicam a Militância Bolsonarista
A
política contemporânea transformou-se em um espetáculo onde a linha entre o
fato e a performance não apenas se tornou tênue, mas foi deliberadamente
apagada. Para quem observa de fora, o comportamento dos chamados
"patriotas" bolsonaristas — com suas vigílias em portas de quartéis,
teorias da conspiração mirabolantes e recusa sistemática da realidade — parece
um surto coletivo ou pura irracionalidade. No entanto, ao analisar o fenômeno
sob a ótica do sociólogo Erving Goffman e das pesquisas do cientista político
David S. Moon sobre o trumpismo, revela-se uma dinâmica muito mais complexa: a
de uma audiência que escolhe ativamente viver uma ficção.
A Política como Kayfabe: A Lição de David S. Moon
Em
seus estudos sobre Donald Trump e a política norte-americana, o pesquisador
David S. Moon busca na Luta Livre Profissional (Pro-Wrestling) a chave de leitura para entender o
apelo populista da extrema-direita moderna. No ecossistema do wrestling, existe
um conceito fundamental chamado kayfabe: a manutenção
tácita da ilusão de que as rivalidades, agressões e dramas encenados no ringue
são 100% reais.
Moon
argumenta que os eleitores de Trump — e, por extensão, os bolsonaristas no
Brasil — não são enganados ingênuos que acreditam cegamente em cada palavra
dita por seus líderes. Em vez disso, comportam-se como os fãs modernos de Luta
Livre (smart marks): eles
sabem, no fundo, que as declarações são exageradas, inventadas ou
performáticas, mas celebram o espetáculo. Quando o líder ataca a imprensa,
quebra o decoro institucional ou inventa uma narrativa absurda, o público
vibrante não busca a verdade factual, mas a efetividade do golpe na arena política. O que
importa é a destruição simbólica do adversário.
A Suspensão Voluntária da Descrença em
Goffman
É
aqui que a teoria dramatúrgica de Erving Goffman complementa a análise de Moon.
Para Goffman, a vida social é estruturada como um palco, no qual os indivíduos
desempenham papéis e mantêm uma "fachada". Quando a realidade ameaça
quebrar a ilusão da cena, os atores e a plateia recorrem à suspensão voluntária da descrença.
No
contexto do bolsonarismo patriota, a manutenção do papel de "combatente do
bem contra o mal" exige um pacto silencioso de cooperação. Para continuar
pertencendo à comunidade e manter o sentido de missão heroica, o militante
decide ignorar os furos no roteiro. Quando um prazo de "72 horas"
expira, quando uma revelação desmente uma tese conspiratória ou quando a
liderança recua, o patriota não abandona a crença; ele reajusta a cena e
suspende a dúvida novamente para que a peça não termine. A verdade factual
torna-se secundária perante a necessidade de manter a narrativa viva no palco.
A Cumplicidade do Espetáculo
Unindo
Moon e Goffman, percebe-se que acusar os apoiadores de "analfabetismo
político" ou "alienação" é insuficiente. Trata-se de uma cumplicidade performática. O
bolsonarista que repassa uma notificação falsa no WhatsApp ou que usa verde e
amarelo para protestar contra moinhos de vento não está apenas consumindo
informação; ele está atuando.
A
militância do "Brasil acima de tudo" encontrou no espetáculo um
refúgio da realidade complexa e decepcionante. Ao operarem dentro do kayfabe descrito por Moon e
praticarem a suspensão voluntária da descrença formulada na tradição de
Goffman, os patriotas transformaram o cenário político brasileiro em um imenso
ringue teatral, onde o compromisso principal não é com a verdade factual, mas
com a continuidade do show.








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