Como o Marketing de R$ 444 Milhões Esconde as Três Grandes Mentiras do Governo de SC
Enquanto
os hospitais estaduais enfrentam crises de desabastecimento, estradas
recém-entregues esfarelam em buracos e dezenas de escolas estaduais convivem
com infraestrutura precária, o governo de Jorginho Mello parece operar em uma
realidade paralela. É a dimensão do marketing governamental. Sob uma avalanche
diária de comerciais de televisão, rádios e peças digitais milimetricamente
produzidas, a atual gestão tenta impor uma narrativa que beira o absurdo: a de
que antes de sua chegada Santa Catarina vivia no absoluto abandono, e que agora
tudo funciona no "padrão excelência".
A
estratégia do governador revela traços de uma mitomania institucionalizada,
onde a propaganda é utilizada para encobrir a ausência de projetos próprios, o
isolamento político e a incapacidade de gestão. A tentativa de desviar o foco
acusando o governo federal e recusando diálogos institucionais — como na
proposta de R$ 25 bilhões em investimentos federais para as BRs 470, 280 e 282
— é apenas o sintoma externo de um governo que prefere o confronto retórico e a
maquiagem publicitária ao trabalho real.
Abaixo,
desmascaramos as três grandes peças de ficção desse governo cosmético e
revelamos o custo dessa engrenagem de ilusão.
A Engrenagem da Ilusão: R$ 444 Milhões para a
"Mídia Boca de Aluguel"
Para
sustentar uma narrativa desconectada da realidade diária dos catarinenses, a
atual gestão montou uma máquina publicitária milionária. De janeiro de 2023 a
dezembro de 2025, o Governo do Estado destinou a impressionante cifra de R$ 444 milhões de dinheiro público
para a publicidade institucional. Somente em 2025, os gastos com propaganda
dispararam 136% em relação ao primeiro ano de mandato, injetando R$ 216 milhões
nos veículos de comunicação.
Essa
distribuição de recursos cumpre um papel político claro: alimentar uma vasta
rede de "mídia boca de aluguel", blogs alinhados, emissoras e portais
regionais dispostos a reproduzir o material oficial sem qualquer filtro crítico
ou checagem de fatos. A verba pública funciona como um instrumento de cooptação
e silenciamento.
Enquanto
repasses para hospitais regionais atrasam e prefeituras perdem recursos
diretos, a torneira do marketing permanece escancarada para irrigar narrativas
que transformam problemas graves de gestão em peças publicitárias com música
emocionante e imagens de drone.
Mentira 1: A Maquiagem do "Escola
Boa" e a Apropriação do Passado
O
programa "Escola Boa" é anunciado nas redes sociais com a estética
impecável de um comercial de alto padrão. Imagens em alta definição mostram
fachadas pintadas, salas climatizadas e alunos sorridentes, vendendo a ideia de
que o governo atual promoveu uma revolução inédita na educação catarinense.
A realidade
dos fatos:
1. Apropriação
de obras passadas:
Conforme denunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SINTE-SC) e
pela oposição na ALESC, grande parte das reformas e ampliações celebradas como
"obras do Escola Boa" são projetos cujos contratos, licitações e
orçamentos foram aprovados e iniciados em gestões anteriores. A atual gestão
apenas colocou a nova identidade visual na fita de inauguração.
2.
Apagamento
de investimentos históricos:
A propaganda tenta apagar o fato de que Santa Catarina já registrava
investimentos recordes na educação, a exemplo de 2021, quando o Estado aplicou
R$ 7,7 bilhões na área (27,40% da Receita Corrente Liquida, acima do limite
constitucional). Equipamentos, computadores e programas de permanência (como o
Bolsa Estudante de 2022) já estavam estruturados no planejamento plurianual
anterior.
3.
Precarização
invisível: Longe do
ângulo das câmeras, dezenas de escolas da rede estadual continuam enfrentando
falta de pessoal de apoio, problemas estruturais graves e falta de manutenção básica,
evidenciando que o "Padrão Escola Boa" é uma exceção publicitária,
não a regra da rede.
Mentira 2: "Estrada Boa" — Asfalto
de Papel e Financiamento Oculto
Nos
comerciais do programa "Estrada Boa", o governador aparece caminhando
sobre o concreto fresco, afirmando ter tido "a coragem de tirar as obras
do papel" e alardeando que a malha viária em boas condições saltou de 20%
para 95%.
A realidade
dos fatos:
1.
Confisco do
Plano 1000 e Herança Técnica:
O programa não nasceu do zero. A gestão atual herdou projetos executivos de
engenharia prontos e pagos da gestão de Carlos Moisés. Além disso, extinguiu o
"Plano 1000" — que repassava recursos diretamente aos municípios —,
centralizando o dinheiro no caixa do Estado para carimbar as obras com a marca
do novo governo.
2.
Dependência
de Recursos Federais e Empréstimos:
Ao contrário do discurso de "autonomia financeira", as obras são
sustentadas por pesados endividamentos públicos, incluindo R$ 631,9 milhões junto ao
BNDES (recurso do Governo Federal que o próprio governador ataca
publicamente) e US$ 300 milhões com o Banco Mundial.
3.
Fiscalização
do TCE e Inquéritos do MPSC:
O Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE/SC) chegou a suspender pagamentos
de contratos que somavam R$ 150 milhões por falhas de sinalização, falta de
fiscalização e trechos de asfalto novo que apresentaram rachaduras e buracos
meses após a entrega. Paralelamente, o Ministério Público (MPSC) instaurou
inquéritos civis para apurar suspeitas de irregularidades e corrupção em
trechos de obras de concreto, enquanto rodovias estaduais como a SC-281 se
arrastam com menos de 10% de execução.
Mentira 3: A Fábrica de Ilusões na Saúde e o
"Paciente 1 Milhão"
A
peça central da engrenagem publicitária da saúde foi o anúncio massivo de que o
estado atingiu a marca de "1 milhão de cirurgias realizadas",
apresentado como prova da superação da crise na área.
A realidade
dos fatos:
1.
A Conta que
Não Fecha (Auditoria do TCE):
Para que o número do marketing fosse real, os hospitais catarinenses
precisariam operar uma média irreal de 1.400 pessoas por dia, sem interrupção.
Auditoria oficial do TCE/SC desmontou a farsa: somando todas as cirurgias
eletivas de 2020 a 2024, o total real foi de 485 mil procedimentos — menos da metade do
anunciado. Em 2024, o total efetivo foi de cerca de 284,8 mil. Para inflar os
dados, o governo somou exames ambulatoriais simples e atendimentos de urgência
de rotina.
2.
Filas
Recordes e Espera Inhumana:
A promessa pública feita em 2023 de "zerar as filas em seis meses"
resultou em um recorde histórico: a fila saltou de 107 mil para mais de 116 mil
pessoas aguardando atendimento. Os dados oficiais mostram médias de espera
absurdas:
o Cirurgias de mama: média de 697 dias;
o Cirurgias reparadoras: média de 644 dias;
o Procedimentos osteomusculares: média
de 420 dias;
o Atendimento oncológico (câncer): média
de 66 dias, descumprindo o limite legal de 60 dias estabelecido pela Lei
Federal nº 13.896/2019.
3.
Fura-Filas
e Explosão de Liminares:
Inquéritos do MPSC identificaram hospitais conveniados agendando cirurgias
eletivas para pacientes fora do sistema oficial de regulação, burlando a fila
cronológica legal. A ausência de gestão real empurrou mais de 16,4 mil
catarinenses para a Justiça para conseguir atendimento básico no SUS.
Concluindo: O Custo Real da Maquiagem
Publicitária
A
matemática da comunicação governamental de Santa Catarina revela uma grave
inversão de prioridades. Cada real dos R$ 444 milhões drenados para a
propaganda institucional e para a sustentação de veículos alinhados é um
recurso retirado da manutenção de salas de aula, da fiscalização da qualidade
do asfalto e da compra de insumos básicos para os hospitais regionais.
Governar
por meio de comerciais de televisão e narrativas fabricadas pode gerar
dividendos eleitorais imediatos, mas não resolve a vida do cidadão que trafega
por rodovias esburacadas, não reduz a espera de quem aguarda há anos por uma
cirurgia e não melhora a infraestrutura das escolas estaduais. O catarinense
não precisa de peças publicitárias com atores e filtros de internet; precisa de
transparência, respeito à verdade e serviços públicos funcionando na vida real.








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