quinta-feira, agosto 06, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... Máquina de Moer Reputações... (Parte IX)

 O Legado Trágico da Operação Ouvidos Moucos e a Sombra da Lava Jato

Em 2 de outubro de 2017, o Brasil testemunhava um dos episódios mais dolorosos de sua história recente. O professor e reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier de Olivo, tirava a própria vida aos 59 anos. No bolso de sua roupa, um bilhete resumia o tamanho do abuso perpetrado pelo Estado: "A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade".

Cancellier não foi vítima de uma fatalidade privada. Sua morte foi o desfecho trágico e anunciado de um "suicídio moral" provocado pela sanha punitivista e pela busca desenfreada por manchetes. Alvo da efêmera e truculenta Operação Ouvidos Moucos, o reitor foi submetido a um espetáculo de humilhação pública: preso temporariamente sem denúncia formal, conduzido a um presídio de segurança máxima, submetido a revista íntima, trajando uniforme de presidiário e algemado. Solto no dia seguinte por absoluta falta de fundamentação para sua custódia, foi cautelarmente proibido de pisar no campus da instituição que liderava e amava.

Essa metodologia de destruição prévia da dignidade humana não nasceu por acaso. A Operação Ouvidos Moucos foi gestada pela mesma matriz ideológica e operacional que governou a Operação Lava Jato. A liderança da operação na Polícia Federal coube à delegada Erika Mialik Marena — figura central no consórcio de Curitiba. O modus operandi replicou com precisão cirúrgica a tática lavajatista: instrumentalizar a prisão cautelar para arrancar delações ou impor punições antecipadas, linchar reputações na imprensa antes de qualquer instrução probatória e atropelar garantias fundamentais sob o pretexto de uma cruzada moral.

O tempo, contudo, é implacável com os abusos do arbítrio. Em julho de 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu, de forma categórica, que não houve qualquer superfaturamento ou irregularidade nos contratos investigados sob a gestão de Cancellier. Mais recentemente, em agosto de 2026, a 1ª Vara Federal de Florianópolis absolveu sumariamente os réus remanescentes do processo por manifesta insuficiência de provas. O Judiciário e os órgãos de controle atestaram o que o bom senso e a dor da família já gritavam: a Operação Ouvidos Moucos acusou sem provas, destruiu sem critério e puniu sem processo.

A responsabilização institucional pelos excessos cometidos — evidenciada pelo posterior afastamento da juíza federal juíza federal Janaina Cassol Machado (da 1ª Vara Federal de Florianópolis na época) a responsável pelo caso pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — atesta que o sistema reconhece a gravidade do que produziu, embora nada possa devolver a vida de um homem honrado.

O suicídio de Cancellier não foi um ato de fraqueza; foi um gesto político desespero, um grito extremo contra a violência de um Estado que se travestiu de justiça para cometer barbárie. O repúdio a essa forma de atuar deve ser veemente e permanente. Lembrar do Reitor Cancellier é um dever ético de todos que defendem a Constituição, a presunção de inocência e o Estado Democrático de Direito contra os messianismos punitivistas que mancham a história do país.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...