A Hipocrisia de Bilheteria: O
Cinema Ideológico Financiado pelo Seu Imposto
Durante anos, o país foi bombardeado por um
discurso feroz contra os mecanismos públicos de fomento à cultura. O lema
repetido à exaustão por setores da direita era claro: "O cinema deve se
sustentar pelo mercado, sem sugar o dinheiro do trabalhador". Mas,
como diz o ditado, o discurso na tribuna raramente sobrevive aos bastidores do
poder.
O escândalo em torno do filme "Dark
Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, revela uma
contradição moral explícita: o grupo que demoniza o incentivo público à cultura
é o mesmo que está sendo investigado por irrigar uma rede de ONGs com milhões
de reais em emendas parlamentares para financiar sua própria propaganda.
1. O Balcão de Emendas para o Filme
do "Mito"
O Supremo Tribunal Federal (STF) investiga o
repasse de cerca de R$ 7,7 milhões em verbas públicas para entidades e
ONGs ligadas à produtora do filme. Deputados federais e vereadores da bancada
bolsonarista utilizaram o sagrado dinheiro das emendas parlamentares — recursos
que deveriam ir para a saúde, educação ou segurança dos municípios — para
blindar e viabilizar um produto de cunho puramente promocional.
O ex-secretário de Cultura e atual deputado Mario
Frias (PL-SP) aparece no centro do roteiro investigativo, acumulando funções na
produção do longa, enquanto a Polícia Federal tenta rastrear se esse labirinto
de dinheiro público chegou a financiar despesas no exterior.
2. O Recuo de Eduardo Bolsonaro e os
R$ 350 mil em Dinheiro Vivo
A gravidade da situação forçou o deputado Eduardo
Bolsonaro a mudar sua versão oficial. Depois de negar qualquer gerência, ele
veio a público admitir que atua formalmente como produtor-executivo, cuidando
da gestão financeira e burocrática do projeto.
Eduardo alegou que angariou R$ 350 mil
(cerca de US$ 50 mil) através de um curso de política e enviou os dólares para
os Estados Unidos para pagar o diretor. Independentemente das justificativas, a
admissão de que o clã opera a engrenagem financeira de uma produção cercada por
emendas parlamentares suspeitas destrói a narrativa de moralidade e isenção que
eles tanto vendem.
3. Discurso para a Militância,
Prática no Orçamento
Para o seu público nas redes sociais, eles pregam a
cartilha do livre mercado e o fim do Estado babá. Mas na vida real:
- Criticam a Lei Rouanet, mas operam o
"mecanismo das emendas" em benefício próprio.
- Atacam as ONGs, mas utilizam uma rede
dessas mesmas organizações para triangular recursos do orçamento público.
- Dizem defender o cidadão, mas desviam o foco de
verbas parlamentares para autofinanciar um culto à personalidade de seu
líder.
Concluindo: A Moralidade Seletiva
O caso do filme "Dark Horse" prova
que a indignação desse grupo com o dinheiro público nunca foi uma questão de
princípio, mas de controle de narrativa. Para eles, o dinheiro dos impostos só
é um problema quando financia o pensamento do adversário; quando serve para
inflar o próprio ego e a própria máquina política, o cofre do Estado vira um
poço sem fundo.
O cidadão honesto, que trabalha duro e vê os
impostos sumirem em esquemas de maquiagem ideológica, não pode aceitar esse
deboche. O cinema deles não é bancado pelo mercado. É bancado por você, leitor,
que paga a conta enquanto eles fingem combater o sistema.








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