Não é 'teflon', há eleitor que aceita corrupção de Flávio para tirar Lula: Até quando a corrupção será relativizada?
É estarrecedor constatar o ponto a que chegamos no
debate público e moral do nosso país. A análise trazida pelo jornalista
Leonardo Sakamoto em sua coluna no UOL toca em uma ferida aberta e incômoda: a
tolerância seletiva da sociedade com a corrupção quando ela convém aos seus
interesses políticos.
Como cidadão, é impossível não sentir uma profunda
indignação ao ver a ética ser tratada como um mero adereço negociável. O
pragmatismo cego, que leva eleitores a "fecharem os olhos" ou a
aceitarem suspeitas e desvios éticos de seus candidatos preferidos apenas para
evitar a eleição de um adversário, destrói as bases da nossa democracia. Não
existe "corrupção tolerável" ou "mal menor" quando o
assunto é o respeito ao patrimônio público e à legalidade.
Abaixo, reproduzo na íntegra a coluna de Leonardo
Sakamoto, que nos convida a refletir sobre esse cenário preocupante em que o
combate à corrupção deixou de ser um princípio inegociável para se tornar
apenas uma bandeira de conveniência.
Leonardo SakamotoColunista do UOL… -
Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2026/10/01/nao-e-teflon-ha-eleitor-que-aceita-corrupcao-de-flavio-para-tirar-lula.htm?cmpid=copiaecola
Artigo na Íntegra
Título: Não é 'teflon', há eleitor que
aceita corrupção de Flávio para tirar Lula
Autor: Leonardo Sakamoto
Veículo: UOL Colunas
Para tirar Lula, há eleitores que
engolem até a corrupção de Flávio
É equivocado classificar como "teflon"
todo político em que as denúncias batem e escorregam, sem arranhar sua
viabilidade eleitoral. O caso de Flávio Bolsonaro passa longe de ser um
fenômeno das panelas antiaderentes, trata-se de um caso crônico de cinismo
pragmático de parte do eleitorado.
Não é que as denúncias de corrupção
não colem nele. Elas colam, pesam e empesteiam o ambiente. Ocorre que uma fatia
expressiva dos eleitores enxerga a eleição não como uma escolha de projeto de
país, mas como um plebiscito sobre Lula. E, para tirar Lula, uma turma aceita
qualquer coisa. E tem consciência disso.
Para esse grupo, não faz a menor
diferença se, do outro lado da urna, estará Flávio, um cone de trânsito
alaranjado com listras fosforescentes ou o histórico Rinoceronte Cacareco — que
recebeu 100 mil votos para vereador paulistano em 1959. Como o senador é o
herdeiro do espólio político do pai e, hoje, o mais bem posicionado para
derrotar o petista, o antipetismo não-bolsonarista tampa o nariz para o chorume
de corrupção em que o candidato está imerso até a narina e se prepara para
digitar seu número.
Esse comportamento não se restringe à
direita radical. O mesmo fará uma parte do eleitorado que nem se define como
antipetista ferrenha, mas que simplesmente não quer dar mais quatro anos de
mandato a Lula. A eleição virou o "Lula versus o Anti-Lula". Se o
Anti-Lula da temporada for um cone, então vai de cone. Com ou sem listras, com
ou sem propostas de soluções.
O nível de tolerância dessa parcela da
sociedade com atitudes indefensáveis é pedagógico sobre a seletividade da nossa
indignação moral.
O candidato que eles estão dispostos a
ungir como salvador da pátria é alguém que recebeu ao menos R$ 70 milhões de
Daniel Vorcaro. É político umbilicalmente envolvido no desvio de salários de
servidores do próprio gabinete (a velha e boa rachadinha), que teria lavado
dinheiro via loja de chocolates em shopping center de luxo e transferido R$ 200
mil de grana pública diretamente para o projeto de um miliciano que o chama de
"nosso senador". Sem esquecer, claro, do seu hábito peculiar de
contratar familiares de matadores de aluguel para cargos de confiança.
Chegamos a uma situação pitoresca,
para não dizer trágica. O propalado voto de protesto, aquele que carrega a
ilusão moralista de dar um "basta" no sistema, está sendo depositado
em alguém que as pessoas sequer fazem ideia do que fará com o salário mínimo
dos aposentados. Não há propostas ou visão de Estado. O que há é o único entre
os candidatos que implorou dinheiro a Vorcaro.
Ao fechar os olhos para essa capivara
extensa em nome da aversão ao PT, uma parte do eleitorado deixa claro que seu
problema nunca foi exatamente com a corrupção, mas apenas com o CPF de quem a
pratica.








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