quinta-feira, outubro 01, 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS... A normalização do inaceitável:... (Parte XVII)

Não é 'teflon', há eleitor que aceita corrupção de Flávio para tirar Lula: Até quando a corrupção será relativizada?

É estarrecedor constatar o ponto a que chegamos no debate público e moral do nosso país. A análise trazida pelo jornalista Leonardo Sakamoto em sua coluna no UOL toca em uma ferida aberta e incômoda: a tolerância seletiva da sociedade com a corrupção quando ela convém aos seus interesses políticos.

Como cidadão, é impossível não sentir uma profunda indignação ao ver a ética ser tratada como um mero adereço negociável. O pragmatismo cego, que leva eleitores a "fecharem os olhos" ou a aceitarem suspeitas e desvios éticos de seus candidatos preferidos apenas para evitar a eleição de um adversário, destrói as bases da nossa democracia. Não existe "corrupção tolerável" ou "mal menor" quando o assunto é o respeito ao patrimônio público e à legalidade.

Abaixo, reproduzo na íntegra a coluna de Leonardo Sakamoto, que nos convida a refletir sobre esse cenário preocupante em que o combate à corrupção deixou de ser um princípio inegociável para se tornar apenas uma bandeira de conveniência.


Leonardo SakamotoColunista do UOL… - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2026/10/01/nao-e-teflon-ha-eleitor-que-aceita-corrupcao-de-flavio-para-tirar-lula.htm?cmpid=copiaecola


Artigo na Íntegra

Título: Não é 'teflon', há eleitor que aceita corrupção de Flávio para tirar Lula

Autor: Leonardo Sakamoto

Veículo: UOL Colunas

Para tirar Lula, há eleitores que engolem até a corrupção de Flávio

É equivocado classificar como "teflon" todo político em que as denúncias batem e escorregam, sem arranhar sua viabilidade eleitoral. O caso de Flávio Bolsonaro passa longe de ser um fenômeno das panelas antiaderentes, trata-se de um caso crônico de cinismo pragmático de parte do eleitorado.

Não é que as denúncias de corrupção não colem nele. Elas colam, pesam e empesteiam o ambiente. Ocorre que uma fatia expressiva dos eleitores enxerga a eleição não como uma escolha de projeto de país, mas como um plebiscito sobre Lula. E, para tirar Lula, uma turma aceita qualquer coisa. E tem consciência disso.

Para esse grupo, não faz a menor diferença se, do outro lado da urna, estará Flávio, um cone de trânsito alaranjado com listras fosforescentes ou o histórico Rinoceronte Cacareco — que recebeu 100 mil votos para vereador paulistano em 1959. Como o senador é o herdeiro do espólio político do pai e, hoje, o mais bem posicionado para derrotar o petista, o antipetismo não-bolsonarista tampa o nariz para o chorume de corrupção em que o candidato está imerso até a narina e se prepara para digitar seu número.

Esse comportamento não se restringe à direita radical. O mesmo fará uma parte do eleitorado que nem se define como antipetista ferrenha, mas que simplesmente não quer dar mais quatro anos de mandato a Lula. A eleição virou o "Lula versus o Anti-Lula". Se o Anti-Lula da temporada for um cone, então vai de cone. Com ou sem listras, com ou sem propostas de soluções.

O nível de tolerância dessa parcela da sociedade com atitudes indefensáveis é pedagógico sobre a seletividade da nossa indignação moral.

O candidato que eles estão dispostos a ungir como salvador da pátria é alguém que recebeu ao menos R$ 70 milhões de Daniel Vorcaro. É político umbilicalmente envolvido no desvio de salários de servidores do próprio gabinete (a velha e boa rachadinha), que teria lavado dinheiro via loja de chocolates em shopping center de luxo e transferido R$ 200 mil de grana pública diretamente para o projeto de um miliciano que o chama de "nosso senador". Sem esquecer, claro, do seu hábito peculiar de contratar familiares de matadores de aluguel para cargos de confiança.

Chegamos a uma situação pitoresca, para não dizer trágica. O propalado voto de protesto, aquele que carrega a ilusão moralista de dar um "basta" no sistema, está sendo depositado em alguém que as pessoas sequer fazem ideia do que fará com o salário mínimo dos aposentados. Não há propostas ou visão de Estado. O que há é o único entre os candidatos que implorou dinheiro a Vorcaro.

Ao fechar os olhos para essa capivara extensa em nome da aversão ao PT, uma parte do eleitorado deixa claro que seu problema nunca foi exatamente com a corrupção, mas apenas com o CPF de quem a pratica.




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