sexta-feira, setembro 11, 2026

VAI PIORAR... E PIORAR MUITO... CONEXÕES... (Parte XVI)

 O que a “passagem da boiada” tem a ver com a fúria do El Nino ?

A resposta para a sua dúvida é sim, existe uma conexão direta e profunda, mas a forma como esses elementos se conectam precisa ser dividida em duas engrenagens que se reforçam mutuamente:

  1. A engrenagem climática global (o El Niño propriamente dito).
  2. A engrenagem da vulnerabilidade local (o estado dos nossos biomas e leis).

O El Niño não é provocado pelo desmatamento no Brasil; ele é um fenômeno climático global natural. No entanto, o descaso com os biomas e a fragilidade das leis funcionam como um "amplificador de danos", transformando o que seria apenas uma variação do clima em um desastre recorrente e devastador.


1. O El Niño: A "Faísca" Global

O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial se aquecem acima da média. Isso altera a circulação dos ventos em todo o planeta:

  • No Sul do Brasil: Costuma bloquear as frentes frias, acumulando massas de ar quente e úmido e provocando chuvas volumosas e tempestades severas.
  • No Norte e Nordeste do Brasil: Bloqueia a chegada de umidade, provocando secas severas e ondas de calor extremo.

O El Niño é a faísca. Mas o impacto real dessa faísca depende do combustível que ela encontra no chão.


2. A Destruição dos Biomas: O "Combustível" Local

Os biomas (Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Pampa, Caatinga, Pantanal) funcionam como sistemas de amortecimento natural. Quando os degradamos pelo superuso de recursos e substituição desordenada do solo, destruímos a capacidade da natureza de regular o clima:

Ø  Efeito "Esponja" Perdido (Enchentes no Sul): Uma floresta preservada atua como uma grande esponja. As copas das árvores amortecem a queda da chuva, e as raízes e a matéria orgânica facilitam a infiltração da água no solo. Quando a vegetação nativa é removida ou compactada pelo uso intensivo, a água da chuva não infiltra: ela corre rapidamente pela superfície (escoamento superficial), enchendo rios de uma só vez e causando enxurradas e deslizamentos muito mais violentos durante episódios de El Niño.

Ø  Quebra da "Bomba de Umidade" (Secas na Amazônia/Cerrado): A Amazônia e o Cerrado transpiram bilhões de litros de água por dia na atmosfera (os chamados Rios Voadores), regulando as chuvas do país. O desmatamento desregula essa umidade. Quando o El Niño traz uma seca natural, ele encontra uma floresta já estressada e fragmentada, tornando-a vulnerável a incêndios de grandes proporções que não ocorreriam em uma mata fechada e úmida.


3. Fragilidade das Leis e Fiscalização: O Licenciamento do Risco

A legislação ambiental e a fiscalização (órgãos como IBAMA, ICMBio e órgãos estaduais) são a linha de defesa jurídica do patrimônio natural. Quando ocorrem retrocessos legais, flexibilização excessiva do licenciamento ou sucateamento da fiscalização:

ü  Ocorre a ocupação de áreas de risco: Apagamento ou desrespeito às Áreas de Preservação Permanente (APPs) — como topos de morros e matas ciliares ao longo dos rios — permite que construções e lavouras avancem para locais que deveriam estar protegidos para conter a erosão e a força das águas.

ü  Superuso de Recursos sem Mitigação: A exploração intensiva sem critérios de sustentabilidade (como manejo inadequado do solo e retirada excessiva de água de aquíferos) esgota a resiliência dos ecossistemas antes mesmo do evento climático severo chegar.


Como entender a síntese de tudo isso?

A forma mais simples de integrar esses fatores é pensar em um sistema de proteção e estresse:

Impacto do Desastre = Ameaça Climática  (El Niño / Mudanças Climáticas)                                                                                                          -------------------------------------------------------------------

                                      Resiliência do Bioma X Proteção Legal/Governança

  1. O El Niño intensifica a ameaça (chuva extrema ou seca extrema).
  2. O superuso e descaso com os biomas destroem os mecanismos naturais de proteção do ecossistema.
  3. A fragilidade das leis permite que a destruição continue e que as populações fiquem expostas nas áreas de vulnerabilidade.

O resultado é que eventos climáticos que ocorrem há milênios (como o El Niño) passam a ter efeitos desproporcionalmente mais graves, frequentes e caros em termos de vidas humanas, perdas econômicas e destruição ambiental.



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