O que a Operação Thánatos Revela Sobre Lages
Existe
um limite moral que toda sociedade civilizada espera ver preservado. Quando a
corrupção atinge obras, contratos de infraestrutura ou verbas de gabinete, a
indignação pública é imediata. Mas o que dizer quando a ganância decide lucrar
com o exato instante em que uma família chora a perda de um ente querido?
A
deflagração da Operação Thánatos
pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) e pelo
Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) expôs uma das páginas mais sombrias
e repugnantes da gestão pública recente na Serra Catarinense, atingindo em
cheio a cidade de Lages.
O Negócio da Morte e a Violação do Sagrado
As
investigações da 5ª Promotoria de Justiça de Lages revelaram um esquema vil:
servidores públicos da saúde — aqueles que deveriam zelar pelo amparo e pela
vida — vendendo informações sigilosas sobre óbitos em tempo real para uma
empresa funerária. Registros do SAMU, do Hospital Tereza Ramos, da UPA e de
mortes domiciliares transformaram-se em mercadoria.
O
objetivo? Burlar o sistema legal de plantão funerário municipal. Munida de
dados privilegiados obtidos mediante pagamento de propina, a empresa abordava as
famílias enlutadas antes de qualquer concorrente. Trata-se do ápice do
parasitismo urbano: assediar pessoas no momento de maior fragilidade emocional
para garantir reserva de mercado e lucro certo.
O
nome da operação, Thánatos — a
personificação da morte na mitologia grega —, carrega um simbolismo trágico.
Não se trata apenas de estancar um crime contra a administração pública;
trata-se de interromper uma profanação sistemática do luto alheio.
A Mídia das Omissoes e os "Nomes
Invisíveis"
Se
a gravidade do crime estarrece, o comportamento de boa parte da imprensa
tradicional e da "mídia boca de aluguel e corneteira" em nossa região causa igual
repulsa.
Assistimos,
mais uma vez, a uma cobertura seletiva e acovardada. Noticiam-se os mandados de
busca e apreensão, mencionam-se os valores em espécie apreendidos e o
afastamento cautelar de servidores. Contudo, quando se trata de dar nome e
sobrenome aos empresários que pagavam a propina e aos agentes públicos que
vendiam a dor dos lageanos, a caneta da imprensa local subitamente perde a
tinta.
Por
que o silêncio? A quem interessa proteger a identidade de quem mercantilizou a
morte na nossa cidade?
A
função social do jornalismo não é emitir notas burocráticas ou blindar figuras
influentes sob o manto de uma falsa neutralidade. Quando a mídia se recusa a
nomear os envolvidos em esquemas investigados pelo GAECO, ela deixa de ser
informadora para se tornar cúmplice por omissão. O cidadão comum, ao cometer um
pequeno delito, tem sua foto e nome estampados sem pudor. Já os operadores de
esquemas estruturados de corrupção ganham o privilégio do anônimo e do
esquecimento programado.
A Restauração da Dignidade Pública
A
ação do GAECO e a atuação firme do MPSC cumprem o seu papel institucional e
merecem todo o reconhecimento. O afastamento dos servidores e o recolhimento
das provas são passos essenciais para que a justiça se faça.
No
entanto, a verdadeira depuração da nossa sociedade exige mais do que decisões
judiciais: exige postura ética e
indignação coletiva. Lages não pode se acostumar com a pequenez de esquemas
que transformam corredores de hospitais em balcões de negócios funerários.
Não
aceitaremos o esquecimento. Não aceitaremos o silêncio comprado ou a covardia
editorial daqueles que deveriam informar. Exigimos transparência total, a
identificação clara de todos os investigados e a punição exemplar de cada um
dos envolvidos. A memória daqueles que partiram e o respeito às famílias de
Lages exigem nada menos do que isso.








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