O Espelho de Brasília: O
Analfabetismo Político e o Custo do Voto Movido pelo Ódio
Olhar para as votações e relatórios que tramitam no
Congresso Nacional costuma gerar um sentimento de indignação generalizada. É
comum culparmos os parlamentares pelo atraso, pelo privilégio ou pela
burocracia que sufoca o país. No entanto, uma análise puramente técnica e
despida de ilusões nos obriga a encarar uma verdade mais desconfortável: o
Parlamento é, em grande medida, um reflexo fiel da nossa própria sociedade.
Brasília funciona como um espelho que devolve a imagem de um eleitorado
frequentemente alienado, onde o analfabetismo político e o voto motivado pelo
ressentimento e pelo ódio cobram um preço altíssimo das futuras gerações.
Três movimentos recentes no cenário legislativo e
político nacional servem como um perfeito laboratório para entender como a
ausência de um voto consciente, ético e comprometido deforma as prioridades da
nação.
A Deformação do Mercado pela
Burocracia
O primeiro sintoma dessa miopia coletiva surge no
campo econômico. Um estudo recente revelou que impressionantes 86% das propostas
que tramitam no Congresso restringem a liberdade econômica, com o ímpeto
regulatório atingindo assustadores 95% do setor industrial. O dado mais
alarmante é que essa sanha intervencionista não escolhe partido; ela une a
esquerda e a centro-direita em um pragmatismo fisiológico.
O analfabetismo político se manifesta quando o
eleitor celebra discursos protecionistas ou intervenções estatais sem
compreender o custo oculto dessas medidas. Cada amarra burocrática criada para
satisfazer lobbies ou acenar para bases eleitorais sufoca a produtividade,
afasta investimentos e encarece a vida na ponta. Votar sem consciência
econômica é condenar o país a um voo de galinha permanente, sabotando o futuro
dos jovens que herdarão um mercado engessado.
O Duplo Padrão Moral e a
Conivência com o Privilégio
A falta de um compromisso ético e moral com a coisa
pública também se desvela no avanço de privilégios corporativos disfarçados de
fé. A recente ampliação de blindagens fiscais para instituições religiosas
expõe o duplo padrão que vigora na nossa cultura política.
Muitos daqueles que aplaudem o corte de impostos
para templos e defendem a isenção de despesas institucionais de grandes
corporações religiosas são os mesmos que, no debate público, demonizam
programas de transferência direta de renda voltados à subsistência dos mais
miseráveis, sob o pretexto moral de que o auxílio "gera preguiça".
Quando o ódio ideológico ou o fanatismo se sobrepõem à justiça social e aos
princípios éticos mais elementares, o eleitorado aceita passivamente que o
orçamento público seja desonerado para os fortes, enquanto vigia com
desconfiança a sobrevivência dos fracos.
A Blindagem da Impunidade pelo
Sentimento de Ódio
Por fim, o espetáculo da anistia a caminhoneiros e
empresas de transporte que bloquearam rodovias estratégicas após o pleito de
2022 demonstra o perigo de um Legislativo movido pelo revanchismo. A introdução
de um "jabuti" em uma medida provisória sobre fretes para perdoar
multas pesadas e apreensões decorrentes de atos que flertaram com o
desabastecimento essencial é a institucionalização da impunidade.
O voto guiado pelo ódio político cega o cidadão
para o valor supremo da segurança jurídica e do Estado de Direito. Quando as
urnas são utilizadas para chancelar a vingança ou a blindagem de aliados,
rompe-se o pacto social. O eleitor alienado comemora o perdão ao seu
correligionário hoje, sem perceber que está destruindo a autoridade das leis
que deveriam protegê-lo amanhã.
O Caminho da Consciência
A engrenagem política que produz a intervenção
sufocante, o privilégio fiscal corporativo e a anistia ao vandalismo logístico
só é interrompida quando o processo de escolha muda na base. O Brasil real e
sustentável não será construído por salvadores da pátria alimentados pela
polarização estridente.
Votar com compromisso com o amanhã exige abandonar
o fígado e acionar a razão. Significa exigir dos candidatos consistência
programática, respeito absoluto às regras democráticas e responsabilidade com o
equilíbrio fiscal e social. Enquanto o voto for um instrumento de desabafo
emocional ou de ignorância técnica, continuaremos a colher em Brasília
exatamente aquilo que plantamos nas urnas.








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