A Patologia do Poder: Quando o Privilégio Sangra o Orçamento e se
Fantasia de "Escravidão"
Na anatomia
da decadência ética, existe um fenômeno perverso: a perda total da noção de
realidade por parte daqueles que detêm o poder. Recentemente, fomos
confrontados com declarações e números que desafiam não apenas a lógica
econômica, mas a própria dignidade humana. Como pode alguém que ganha em um mês
o que um trabalhador comum levaria 30 anos para acumular, sentir-se
"escravizado"?
1. A Escravidão de Luxo: Uma Ofensa à História e à Lógica
O comentário
de uma desembargadora ao criticar o salário de R$ 91 mil, afirmando que "daqui a pouco é
escravidão", é mais do que uma gafe; é um sintoma da cegueira ética que
acomete o topo da pirâmide.
ü A Perda de
Limites: Quando o privilégio se torna um
direito adquirido e inquestionável, a autoridade perde a capacidade de empatia
e a noção de sua própria humanidade em relação ao coletivo.
ü A Inversão
Simbolica: Utilizar o
termo "escravidão" — um sistema que aniquilou corpos, famílias e
histórias — para descrever uma remuneração que coloca o magistrado no 0,1% mais
rico do planeta é uma forma cruel de desumanização do "Outro" que
realmente sofre.
2. O Contracheque da Vergonha: R$ 614 Mil e o Ralo Orçamentário
Se R$ 91 mil
parecem pouco para alguns, os registros de magistrados que chegaram a receber R$ 614 mil em um único mês
escancaram a subversão da lógica da justiça e da gestão fiscal.
Do ponto de
vista de quem lida com orçamentos e custos de execução de projetos:
ü Custo de
Oportunidade: Um único
pagamento retroativo de R$ 614 mil para um magistrado poderia custear, por exemplo,
o Plano de Restauração Ambiental de dezenas de hectares, gerando emprego na
agricultura familiar e recuperando nascentes.
ü A Mídia que
se cala (Chomsky): A mídia
"boca alugada" — aquela mesma que celebrou o "protocolo de
intenções" do Salto Caveiras — silencia sobre essa obscenidade fiscal. Ela
não questiona a legalidade moral desses pagamentos, mas criminaliza os centavos
dados aos mais pobres nos semáforos e calçadões da cidade.
3. Como o Poder Subverte a Lógica do Direito
O poder,
quando não encontra freios na moralidade e na fiscalização social, gera uma
cegueira deliberada.
1.
Desumanização
do Cidadão: Para o
magistrado que se sente escravizado com 91 mil, o cidadão que vive com R$ 680
(Bolsa Família em Cerro Negro) torna-se invisível.
2.
A Justiça em
Causa Própria: A lei deixa
de ser um instrumento de equilíbrio social para se tornar uma ferramenta de manutenção
de castas e privilégios.
Concluindo: A Necessidade de um Choque de Realidade
O Brasil não
sofrerá uma mudança real enquanto suas autoridades não recuperarem a noção de
seus limites humanos e orçamentários. É preciso que a sociedade, através de
vozes corajosas e blogs independentes, aponte o dedo para essa obscenidade. Se
o juiz não consegue se enxergar como parte do povo, ele não está apto para
julgar o povo.








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